Buenas, moçada!

Tudo em cima? Por aqui, USOpen na TV, temperatura amena, casa limpa e feriado à vista com direito a uma passadinha no litoral mais lindo reto do mundo.

Melhor impossível.

Na semana em que a imagem do menino sírio Aylan Kurdi chocou o mundo, gostaria de sugerir uma leitura sobre um episódio marcante da guerra civil síria: o ataque com armas químicas a regiões nos arredores de Damasco, em agosto de 2013. É uma investigação da iniciativa de cobertura open source bellingcat. Pra quem não lembra, nunca ficou claro quem foi o responsável pela ação. Os rebeldes culparam o regime de Assad, que, por sua vez, culpou os grupos rebeldes.

Só pra contextualizar, em meados de 2013, a guerra civil síria ainda era um conflito em que as partes eram mais ou menos definidas. De um lado, o regime de Assad, apoiado por Moscou; de outro, grupos armados de oposição, dentre os quais o Exército Livre da Síria (FSA, na sigla em inglês) era o mais representativo, contando com certo nível de apoio das potências ocidentais. Esse quadro se deteriorou especialmente no início de 2014 com a ascensão do Estado Islâmico, que conseguiu transformar um conflito já considerado sujo em barbárie total.

Aylan deveria ter pouco mais de um ano quando dezenas de crianças e adultos e morreram naquele ataque (gerando imagens tão fortes quanto a do garoto afogado).

Mas o que eu queria chamar atenção é a investigação open source conduzida pelo bellingcat. Em um cenário em que a cobertura jornalística in loco já estava quase impossível, e que as informações divulgadas por ambos os lados do conflito eram, em geral, parciais, incompletas, incorretas ou simplesmente propaganda, as conclusões do jornalista Eliot Higgins neste texto parecem ser significativas.

Após dois anos de investigação, ele diz poder afirmar qual foi o tipo de munição usada nos ataques; que essas munições eram armamentos usados pelas forças do regime; que o agente químico utilizado foi de fato o gás sarin; que tipo de foguete levou esse agente químico e qual o seu alcance; o local exato dos impactos dos foguetes; e que esses locais de impacto estavam ao alcance das forças de Assad.

Se reunirmos os discursos e as investigações das potências ocidentais à época, provavelmente encontraremos afirmações parecidas. O interessante aqui é a – em tese – independência da investigação jornalística. E o mais interessante: realizada de maneira open source. Ou seja, utilizando informações disponíveis da rede, publicadas tanto por grupos rebeldes quanto pelo governo sírio. Higgins explica de maneira minuciosa qual o caminho percorrido para chegar às conclusões que chegou, sempre tomando o cuidado para não ser taxativo.

O método dele consiste basicamente em entrevistar os dados. Principalmente a partir de geolocalização. Observando vídeos – de amadores e de redes de TV – e analisando os metadados das imagens postadas em redes sociais, entre outras técnicas mais tradicionais – como participar de fóruns de armamentos -, ele foi capaz de precisar desde onde os mísseis caíram até os limites dos domínios das tropas sírias nos subúrbios da capital naquela época. Tais dados permitiram concluir, por exemplo, que as regiões atingidas estavam, sim, ao alcance das tropas de Assad.

Não é uma leitura suuper agradável, às vezes chega a ser técnica demais, mas é interessante para ter uma ideia de como o bellingcat trabalhou para investigar um dos episódios mais graves da guerra civil síria, mas que parece ter sido eclipsado pela barbárie subsequente. Qual a barbárie que vai nos fazer esquecer de Aylan?

Sobre a crise dos refugiados na Europa, recomendo acompanhar a cobertura do jornalista Sandro Fernandes no Twitter. O Sandro mora em Moscou, mas atualmente ele está fazendo uma viagem de Tessalônica, na Grécia, até Calais, na França, por solo, o mesmo caminho que milhares de pessoas vêm tentando fazer em busca de uma vida melhor nas últimas semanas.

Seguindo.

Na newsletter 59 sugeri a leitura de um texto da professora Sylvia Moretzsohn sobre o filme Meia Hora e as manchetes que viraram manchetes. Pois bem, no sábado passado houve uma sessão comentada do filme em Porto Alegre com o diretor Angelo Defanti. Foram convidados para o debate – mediado pelo jornalista Roger Lerina – o escritor e cronista Luis Fernando Veríssimo e o cineasta Jorge Furtado, que há pouco dirigiu outro documentário sobre jornalismo, O Mercado de Notícias.

Eu e a Marcela Donini fomos conferir. O que achamos? Leiam o texto da Marcela que publicamos no canal do Farol Jornalismo no Medium. 🙂

Um trechinho:

“Visto o filme, minha conclusão é que, pela primeira vez, aqueles jornalistas pararam para pensar sobre o seu trabalho. “O povo gosta disso”. A frase da ex-proprietária do jornal, Gigi de Carvalho, resume a defesa simplista do jornal apresentada no documentário de Angelo Defanti. Mas, a meu ver, o longa, ao contrário do que disse André Barcinski na Folha de S. Paulo, não é chapa branca; ao contrário, expõe a dificuldade de reflexão e incapacidade de autocrítica dos entrevistados e provoca discussões valiosas para o jornalismo.”

Adiante.

Deem uma olhada neste post no blog do Twitter sobre o comprometimento da empresa com a diversidade. O texto afirma que a empresa quer ser um reflexo “dos diversos tipos de pessoas que usam o Twitter”, e por isso resolveu publicizar alguns dos seus objetivos em relação a isso. Leiam o que escreveu Janet Van Huysse, funcionária da área de recursos humanos responsável pela inclusão e diversidade:

“Nós consideramos simplesmente estabelecer metas de contratação, mas não queremos parar por aí. Se o nosso objetivo é construir uma empresa da qual nós realmente podemos nos orgulhar – uma empresa mais inclusiva e diversa – nós precisamos garantir que ela é um ótimo lugar para os atuais e novos empregados trabalharem e se desenvolverem. Por isso estabelecemos novos objetivos focados em aumentar a representação de mulheres e minorias em toda a empresa.”

Entre as metas estão aumentar o número de mulheres na empresa em 35%, em cargos de tecnologia em 16% e em cargos de liderança em 25%. Em relação às minorias, as metas são 11%, 9% e 6%, respectivamente (mas aí apenas nos EUA).

O post ainda fala em construir / fortalecer laços com organizações que representam / defendem minorias, recrutar talentos em universidades historicamente mais identificadas com os negros e com os hispânicos, e promover encontros com grupos de minorias étnicas, raciais e de gênero e orientação sexual em outras instituições.

Falando em Twitter, o colunista da Fortune Mathew Ingram escreveu a respeito de um estudo recente sobre a estreita relação do Twitter com notícias. Não vou me aprofundar nos números aqui, mas, de maneira geral, os resultados mostraram que os usuários usam muito o Twitter para consumir notícias e que o nível de engajamento aumenta quando a notícia é importante e / ou urgente.

Outros dados mostram que os usuários mais focados em notícias não curtem muito as recentes funcionalidades desenvolvidas pela empresa para ampliar sua base de usuários. Poucos usam os trending topics e a ferramenta de busca. Para descobrir notícias novas, preferem rolar sua timeline e / ou clicar em perfis relacionados à notícias, como os de organizações jornalísticas e de jornalistas e repórteres.

O estudo fortalece a ideia de que o ecossistema de notícias em tempo real depende do Twitter. E vice-versa. Ou seja, o Twitter é sinônimo de breaking news. Isso, segundo Ingram, traz boas e más notícias, especialmente para a emprea.

“A boa notícia é que o Twitter se tornou uma plataforma crucial para informações em tempo real. A má notícia é que ainda há muito trabalho para fazer, visto que mesmo alguns dos seus mais engajados usuários não o consideram muito eficiente.”

A questão, finaliza Ingram, é como o Twitter vai utilizar essas constatações – especialmente quando o assunto é a competição com o Facebook. Não estaria no momento de o Twitter abraçar mais o jornalismo do que os seus competidores?

Pegando o gancho de gigantes não jornalísticas ocupando o mercado jornalístico, deem uma olhada nesta matéria do re/code sobre a expectativa em torno do News app, o aplicativo de notícias da Apple que virá junto com o iOS 9. O texto diz que o número de veículos presentes no app passa de 50, e que, em geral, o modelo de negócio vem deixando os publishers contentes. A dúvida é se, com o News, a Apple vai conseguir superar uma reputação de lançar apps que não engrenam, como o Maps, Apple Music e o próprio Newsstand, também voltado a publicações.

Ainda falando sobre as grandes, bom texto do Joshua Benton no Nieman Lab sobre as grandes plataformas estarem ajudando a enterrar veículos de notícias locais. Ele diz que 2015 não vem sendo um bom ano para o jornalismo local. Embora seja possível dizer isso sobre qualquer ano da última década, ele considera 2015 um turning point para o “mais ameaçado setor do ecossistema noticioso dos EUA”.

Ele dá alguns dados sobre o encolhimento constante do mercado de jornais impressos – o formato carro-chefe do jornalismo local – e aponta para um futuro não muito glorioso para os noticiários de TV locais, a despeito da sua importância em termos de audiência. “Os mais jovens estão desligando as TVs assim como eles largaram os jornais impressos”, escreveu Benton. Na segunda parte do texto, ele demonstra que os modelos de negócio em ascendência vão de encontro à maneira como os veículos locais sempre sobreviveram e às suas possibilidades atuais.

A iniciativas que vêm conseguindo relativo sucesso, seja em termos de audiência ou de investimentos, dependem de uma economia de escala. Ou seja, precisam alcançar audiências globais para conseguir obter as receitas necessárias para sobrevivência. Para isso, precisam focar em assuntos que interessem a muita gente, de grandes temas globais a vídeos de gatos. Sem falar nos projetos de grandes distribuidores de conteúdo, como o Instant Articles, o News, da Apple, e o Discover, do Snaptchat. Diante deste cenário, quem vai pagar pela cobertura do buraco de rua, da audiência na Câmara dos Vereadores, da economia local?

Embora existam iniciativas de sucesso, como pequenos blogs de cobertura local, nenhuma delas consegue fazer uma cobertura do tamanho e importância que os jornais um dia fizeram. E também é aquela coisa: para ganhar dinheiro, é preciso investir, e para investir, é preciso ter dinheiro. Só quem tem grana faz grana:

“Essa tendência deve se agravar à medida em que passamos mais e mais tempo em smartphones, onde o Google e o Facebook possuem juntos mais de 70% de toda a receita em publicidade do planeta. Sites de notícias locais têm propensão a serem desajeitados e lentos em aparelhos mobile, e, além disso, eles não possuem tecnologia suficientemente boa para oferecer anúncios segmentados aos leitores”.

Vale a pena dar uma conferida no texto.

O Vox foi uma dessas empresas que conseguiu relativo sucesso a partir da economia de escala explicando grande temas para grandes audiências. Esta matéria do IJNet aborda a fala de Melissa Bell, uma das fundadoras da empresa, em um evento em Buenos Aires. Na sua apresentação, Melissa utilizou a entrevista com o Obama para explicar a abordagem do Vox: ir além do noticiário e explicá-lo visualmente. No caso do Obama, a estratégia foi pedir que ele desse um panorama de grandes questões que perpassaram a sua administração, e não que ele comentasse assuntos que estavam na pauta naquela semana. Segundo Melissa, dessa forma eles conseguem atingir seu público alvo: um sujeito que se interessa por política mas que não está sempre por dentro do que anda acontecendo.

Sexta passada apenas citei o fechamento do Contributoria, aquela iniciativa de crowdfunding bancada pelo Guardian. Durante a semana o Journalism.co.uk publicou uma matéria sobre o assunto, questionando se o “jornalismo bancado pelos leitores” tem mesmo futuro. Para a equipe do Contribotoria, tem, sim. “Nós percebemos que as pessoas têm vontade de fazer parte do processo jornalístico”, disse o cofundador Matt McAlister ao Journalism.co.uk. Desde janeiro de 2014, quando foi lançado, foram publicadas 787 matérias e 260 mil libras (quase R$ 1,5 milhão) liberadas para jornalistas de diversos países. Aqui no Brasil, a agência Fronteira e o jornalista Leandro Demori publicaram grandes reportagens.

Pra ir terminando, gostaria de deixar uma sugestão de leitura para o feriado (ou para qualquer outro dia, claro): esta entrevista com a jornalista e professora Cremilda Medina publicada no jornal O Povo. É bem longa, mas, olha, vale cada palavra. Uma aula de jornalismo. E de vida. Ela constrói uma reflexão sobre a definição de jornalismo a partir da ciência, da arte e da literatura, se afastando da técnica pela técnica e demonstrando que o jornalista não é e nunca foi apenas o mensageiro.

Não consegui escolher um trecho da fala de Cremilda para destacar aqui. Por isso deixo vocês com o belo abre da entrevista conduzida por Raphaelle Batista:

“Quando é para falar de alguém, Cremilda Medina usa a maiúscula para demarcar: é o Outro. E este requer respeito, generosidade, cumplicidade. Um olhar de igual para a menina, o gari, o banqueiro, o doente, a vizinha, o economista, a dona de casa. Seja quem for, ela diz nos mais de 20 livros publicados, repete na sala de aula, reforça nas palestras, mas comunica principalmente no gesto, no tom de voz e no olhar. É preciso sair do pedestal que, enganosamente, às vezes o jornalismo cria.”

Pra terminar, queria informar vocês que o Farol Jornalismo e agência de conteúdo Fronteira estão à frente de um curso de curta duração que vai acontecer na PUC do Rio Grande do Sul em outubro e novembro. O nome do curso é ‘Jornalista 3.0: como criar oportunidades e contar histórias da era digital’ e vai acontecer durante quatro sábados, pela manhã. A ideia é discutir alternativas para o atual momento da profissão, explorar iniciativas inovadoras e apresentar técnicas e ferramentas para empreender no jornalismo. Cliquem aqui para mais informações e inscrições.

Bueno, era isso então.
Bom feriado (pra quem tem) e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório