Buenas, moçada!

Antes de qualquer coisa, gostaria de contar pra vocês que a NFJ chegou (e passou) dos 1.000 assinantes. Quem segue o Farol Jornalismo no Facebook talvez tenha visto o nosso agradecimento. Pois reproduzo aqui o que escrevi lá. Trata-se de uma marca expressiva por si só, mas que se torna ainda mais relevante pela extensão e especificidade do conteúdo. Sabemos que não é fácil encarar mais de 13 mil caracteres de discussões sobre jornalismo e tecnologia sexta à tarde. Vocês, assinantes, encaram. E isso me deixa feliz. Espero que a newsletter siga sendo útil.

Aproveitando o momento de autopromoção, deixem eu sugerir para vocês o Ainda Sem Nome, podcast produzido por Felipe Menhem e Caio Oliveira. Pra quem não conhece (eu não conhecia), o ASN aborda comunicação digital e está no número 59, edição que marca o retorno do programa após alguns meses de pausa. Neste último programa, Felipe e Caio falam sobre o Farol Jornalismo (a partir do minuto 22) e usam dois links sugeridos na NFJ#61 para alimentar uma discussão sobre Twitter e Facebook. Vale a pena ficar de olho no ASN. Eu ficarei.

Uma última informação antes de começarmos. O Farol Jornalismo e a agência de conteúdo Fronteira promoverão um curso de curta duração na PUCRS chamado ‘Jornalista 3.0: como criar oportunidades e contar histórias na era digital’. Serão 12 horas-aula em que discutiremos alternativas para o atual momento da profissão, exploraremos iniciativas inovadoras e apresentaremos técnicas e ferramentas para empreender no jornalismo. O curso vai acontecer na manhã de quatro sábados, de 17 de outubro a 7 de novembro. Informações sobre custo e inscrições, aqui.

Peraí, mais uma: saiu o número de setembro da revista Página 22 com texto com selo do Farol Jornalismo. O tema desta edição é a relação entre a (r)evolução tecnológica e a economia verde. O tema do meu texto é, wait for it, algoritmos. Ele reúne algumas das discussões que vocês acompanham por aqui há 61 semanas. Quem quiser dar uma olhada, ele está disponível neste link.

Agora sim.

Começo com uma matéria do The Awl sobre a situação do mercado freelancer writing nos Estados Unidos. O texto traça um panorama interessante sobre como a ascensão de sites não tão conhecidos do grande público (“indie sites”) vem ampliando o leque de opções de quem é freelancer (muitas vezes abrindo portas para sites maiores). Frequentemente contando com dinheiro injetado por investidores, esses sites vêm pagando mais ao longo dos últimos anos, oferecendo um horizonte que combina grana do bolso e influência a quem escreve para eles.

Mas nem tudo são flores. Noah Davis, o autor o texto, ele mesmo um jornalista freelancer, também aponta para uma realidade em que publicações fracassam e/ou têm (ou vão ter, num futuro próximo) dificuldades para se manter após uma primeira injeção de capital – porque, né, investidores investem porque esperam lucrar no futuro, e se a coisa não andar, param de investir. E aí entra em campo a velha discussão sobre como bancar o jornalismo. A conclusão que podemos chegar a partir do que expõe o texto é que a lógica que os veículos vêm desenvolvendo também serve para a vida de freelancer: algo precisa subsidiar o (bom) jornalismo.

No caso, o conteúdo patrocinado. Ele dá números sobre a evolução desse tipo de prática e aponta para um futuro ainda mais promissor – em termos de $$. Também traz declarações de colegas que fazem esse tipo de trabalho para poder investir parte do tempo em reportagens que eles consideram mais relevantes. Ele mesmo conta que trabalhos andou fazendo para conseguir pagar as contas com tranquilidade, o que lhe permite investir parte do tempo em coisas mais “sérias”.

Um trecho:

“Gastar 5% do meu tempo trabalhando em conteúdo patrocinado ou coisas afins por cerca de 25% dos meus ganhos me permite gastar horas trabalhando em materiais mais ambiciosos que não são financeiramente viáveis mas que me oferecem outro tipo de pagamento; receber US$ 25 por hora por vinte horas de trabalho é mais fácil de aguentar quando você também está fazendo US$ 100 a hora por dez horas.”

A matéria é longa e trata de um cenário diferente do nosso. Mas vale a pena dar uma olhada, já que branded content vem ganhando terreno por aqui também.

O título do texto (If You Don’t Click on This Story, I Don’t Get Paid) é uma brincadeira com o acordo que David fez com o editor da The Awl: o autor iria receber uma quantia X pelo conteúdo mais um adicional a cada mil pageviews.

Aproveito o gancho dos pageviews para sugerir a leitura deste texto, “Por que eu abandonei o Jornalismo?”. Leo Morato, o autor, diz que sempre quis ser jornalista, mas que optou por trabalhar como Redator e com Marketing Digital. Na verdade, ele se diz jornalista, mas sem diploma, já que não entregou o TCC “por ter entrado numa grande crise existencial após ter entrado no mercado jornalístico”.

Morato constrói sua crítica (a um determinado tipo de jornalismo) a partir da publicação, pelo UOL, da foto do menino sírio afogado. Ele faz questão de sublinhar que a crítica não é ao fato de a imagem ter ido ao ar, mas sim ao fato de a nota emitida pelo portal justificando sua publicação (o texto diz que o jornalismo existe para informar e que imagens influenciam o curso da história, e que, por mais forte que seja, a imagem de Aylan precisava ser publicada porque “palavras não descreveriam com a força necessária a dimensão da tragédia em curso na Europa e no Oriente Médio”) não condizer com a sua postura como veículo jornalístico.

Ele sustenta essa constatação contando uma recente experiência que ele teve em uma seleção para trabalhar no Social Media do UOL. Ele diz o seguinte:

“A grande maioria das perguntas se concentravam num único objetivo: saber se você é um bom caça-cliques. Me eram apresentadas uma série de manchetes reais publicadas no UOL, boa parte delas bastante apelativas, e eu teria que adivinhar qual delas rendeu mais cliques ao portal.”

Logo em seguida, o seguinte:

“Como um portal pode negar ter como único objetivo angariar cliques em suas páginas se seleciona um profissional aplicando um longo teste – de pouco mais de 2 horas de duração – focado apenas em saber se o sujeito alí é um bom caçador de cliques e pageviews? Como pode negar isso e ainda se comparar a um dos maiores trabalhos de foto-jornalismo da história?”

Pois é. Entendo o Morato. Mas a questão levantada pelo título do texto do The Awl permanece: “se você não clicar nessa matéria, eu não serei pago”. E aí?

Indo adiante mas pegando o gancho da foto do menino sírio, deem uma olhada neste texto publicado no Poynter. Trata-se de uma boa reflexão sobre a foto de Aylan. James Warren conversou sobre o assunto com Mary Panzer, fotógrafa, curadora e historiadora baseada em Washington. Ela propõe questões relevantes que uma foto como essa pode levantar e demonstra certo ceticismo com o poder de transformação que uma imagem como essa pode carregar – o que de certa forma contradiz a afirmação da nota do UOL de que imagens mudam o mundo.

Panzer reflete sobre o fato de a foto contar apenas parte da história.

“[…] nós não vemos imagens de mães. Isso faz parecer que os pais os abandonaram, os colocaram deliberadamente em perigo, o que é parcialmente verdade. Mas por que eles fizeram isso? […] Para escapar de condições insuportáveis? De onde eles vêm? O que eles deixaram para trás? Por que eles não possuem recursos melhores do que um barco que certamente iria afundar?”

Ela diz que fotos como a de Aylan enchem nossas mentes de emoções fortes, fazendo com que sejamos incapazes de pensar criticamente sobre a situação trágica a qual a foto representa. Ou seja, em geral, ninguém está de fato preocupado com a situação dos refugiados quando lamentam a morte do garoto.

Então Warren se pergunta:

“Mas se o evento desaparece enquanto a foto sobrevive, quem ganha?”

Ele mesmo responde.

“Em parte, há o fotojornalista, cujo nome está ligado à foto. E, ultimamente, há o publisher, ou quem quer que seja o responsável pelo tráfego do site.”

Fecho o assunto indicando a leitura deste texto, assinado pelo jornalista e historiador Ivan Bonfim no Observatório da Imprensa no último dia 4. Bonfim faz uma crítica à cobertura ocidental da catástrofe humanitária no Oriente Médio / Mediterrâneo / Europa a partir de uma matéria veiculada no Bom Dia Brasil sobre a oportunidade que representa para empresários europeus a chegada dessas pessoas ao continente. No fundo da questão está, diz ele, o fato de considerarmos humano aquilo que está identificado apenas com os ideais Ocidentais. Um trecho:

“[…] é essencial contextualizar os motivos pelos quais eles tentam entrar no continente. Mas esse trabalho é feito, em geral, apenas parcialmente. Ao passo que é sempre referido sua situação de fuga de conflitos em seus países de origem, pouco é dito sobre as causas desses conflitos. E mais: qual o papel dos próprios países europeus (e dos Estados Unidos) nas crises.”

Como a foto de Aylan pode ajudar nessa contextualização? Como dissociar (ou associar, não sei) o pensamento “se você não clicar nessa matéria, não serei pago” de uma visão humana mais universal dos fatos sociais? É uma pergunta sincera.

Seguimos em frente com um bloco bastante instrumental, algo que não faço há um tempinho. São vários links do Journalism.co.uk, um dos sites mais úteis nesse aspecto. Ok. Primeiro, um app que funciona como um teleprompter para gravar vídeos em telefones. Segundo, três ferramentas para geolocalizar posts nas mídias sociais. Terceiro, uma ferramenta que possibilita novas formas de usar aspas em conteúdos jornalísticos. Por fim, quatro ferramentas que apareceram no Media Party 2015 as quais jornalistas devem prestar atenção. Este último link é do IJNet.

Se encaminhando para o final, confiram este texto de Jennifer Brandel no Medium. No seu perfil, Brandel se diz uma jornalista acidental que virou CEO de uma empresa de tecnologia chamada Hearken, cujo objetivo é ajudar o jornalismo a contar histórias da maneira como a comunidade quer / deseja. O texto é um resumo de uma palestra que ela deu no Hacks/Hackers Media Party 2015, em Buenos Aires. É longo, mas divertido e interessante. Em resumo, ela condensa as propostas para inverter a lógica do jornalismo quando o assunto é o contato com a audiência.

Ela diz o seguinte: o jornalismo precisa envolver mais as pessoas. Mas não basta abrir uma caixa de comentários e pedir que as pessoas digam o que pensam. Sabemos no que isso dá. É preciso alterar a ordem das coisas. Ao invés de perguntar o que as pessoas acham depois que todo o trabalho já está feito, que tal fazer perguntas mais específicas no começo do processo?

“Quando as redações dão à audiência a chance de fazer perguntas, jornalistas conseguem pautas mais originais. Nada mal, considerando que, ultimamente, a maioria das redações possuem cada vez menos pessoas (e menos perspectivas) sentadas ao redor de uma mesa. Histórias que começam pela audiência tendem a resultar em um conteúdo diferente, pois originam de insights, observações e curiosidade de um indivíduo, e não apenas do que é trending em uma plataforma.”

Falando em Medium, achei simpático este texto de boas-vindas de Alfred Hermida aos alunos que iniciam o primeiro ano na faculdade de jornalismo na University of British Columbia (UBC), no Canadá. É acolhedor e ao mesmo tempo é global. Acho que poderia ser legal se as nossas escolas de jornalismo incorporassem comportamentos como esse – ou similares. É uma maneira de incentivar os alunos produzindo um discurso que valoriza a instituição na medida em que sublinha suas melhores características não só à comunidade, mas ao mundo inteiro.

Pra ir fechando, leiam este artigo sobre a experiência do On The Wight, site de notícias da ilha de Wight, localizada no Canal da Mancha. Eles desenvolveram um programa para criar relatórios mensais sobre índices de desemprego no Reino Unido, liberando jornalistas da pequena redação do site para produzir reportagens.

Ao Journalism.co.uk, Simon Perry, cofundador do On The Wight disse o seguinte:

“Nós não enxergamos a automação como uma forma de cortar custos, mas sim uma maneira de liberar conteúdo e fornecer às pessoas o que elas querem saber sobre o desemprego ou sobre outros dados em que estamos trabalhando, enquanto liberamos os jornalistas para fazerem outros trabalhos”.

Pra terminar, um videozinho do Newsy sobre como a lógica de obtenção de informações sobre grandes catástrofes mudou desde o 11/9. A mudança todos nós já sabemos: da TV para as redes sociais. Embora há quem aposte na “volta” da TV, ainda que não seja mais a TV em que assistimos à queda das torres em 2001.

Ou será que tem assinante da newsletter que assistiu aos ataques já no YouTube? o.O

Bueno, falando em volta, quem voltou sem sequer ter vindo foi o inverno em terras gaúchas. Previsão de temperaturas negativas no RS no final de semana. Teremos um final de semana de tempo seco e frio. E finais do US Open. Fecho aqui para me aquecer para uma noite de Djoko vs Cilic e Federer vs Wawrinka. Que lindeza.

Era isso então.
Bom final de semana e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório