Buenas, moçada!

Na última quarta-feita, rolou aqui em Porto Alegre o primeiro Meetup Jornalismo Digital e Inovação, uma iniciativa do professor da PUCRS Marcelo Fontoura. O primeiro convidado foi o jornalista Leandro Demori, editor do Medium Brasil. Dentre os assuntos discutidos estava a transformação pela qual passa a web nos últimos anos com a ascensão e consolidação de grandes players como Facebook, Apple e Google, primeiro nas suas áreas de atuação originais, e agora (ou já há algum tempinho) na distribuição de conteúdo, e como essa evolução rumo à concentração está matando a web melhor distribuída de anos atrás, com seus sites e blogs.

Abordamos esse assunto na NFJ#56 com o texto The Web We Have To Save, do iraniano Hossein Derakhshan (texto traduzido para o português pelo YouPIX).

A conversa chegou a este tópico após Demori citar esta entrevista de Ev Williams, fundador do Medium, em que ele fala o seguinte sobre conteúdo na web:

“A ideia não será criar um website. Isso vai morrer. O site pessoal não vai ter sentido. A Internet não será um lugar onde bilhões de pessoas acessam milhões de websites. Ela será um lugar onde o conteúdo estará em websites centralizados.”

Compartilhei a necessidade de questionarmos essa centralização – e o poder que ela dá aos grandes players -, principalmente em relação ao jornalismo. Ainda que a imaterialidade faça sentido para determinadas iniciativas jornalísticas, como o reported.ly, exemplo bem lembrado pelo Demori e que só há pouco tempo lançou um próprio site para reunir sua cobertura descentralizada em várias plataformas.

A discussão segue nesta matéria do The Verge sobre como essa briga de cachorro grande está matando a web. Nilay Patel explica como a Apple está querendo sangrar o [modelo de negócio do] Google até a morte com o lançamento do iOS 9, o News (ambos liberados durante a semana) e uma capacidade cada vez maior de bloquear anúncios – a maior fonte de receita do Google – em browsers. E ainda tem Facebook e o seu Instant Articles, que livra o usuário dos anúncios dos outros mas não dos seus próprios. Esse confronto Apple vs Google vs Facebook, diz Patel, é “a mais nova e a maior guerra do mundo da tecnologia atualmente”. E aí o seguinte:

“E os danos colaterais dessa guerra […] vão incluir a web, e em particular qualquer pequeno publisher que não possa investir em uma plataforma de distribuição proprietária, native advertising, e no tipo de mídia cheia da onda que oferece acordos de distribuição favoráveis em plataformas proprietárias. Vai ser um banho de sangue para a mídia independente.”

Patel termina o texto levantando uma questão crucial:

“Quem irá fazer todo esse conteúdo que nós amamos, e como ele vai ser se o único jeito de ganhar uma grana com ele for através de plataformas proprietárias?” E não venha me dizer que eles “irão se adaptar”, acrescenta Patel, “porque há apenas uma coisa que faz da adaptação uma força tão poderosa: a morte.”

Mathew Ingram, por sua vez, é menos fatalista do que Patel. Neste texto, o colunista da Fortune faz um apanhado da discussão e se posiciona de uma maneira mais pragmática. Ao falar sobre o Facebook como exemplo de uma grande plataforma de distribuição, diz que se render à estratégia de Mark e seus amigos não é a única saída, e cita exemplos como o Blendle (que foi lançado na Alemanha) e mesmo o Medium. Mas ao fim do texto, dando uma resposta a Patel, escreve o seguinte:

“Esse negócio é um espiral da morte, e gritar contra adblocks não adianta. Evolução é um negócio bizarro. E será assim, quer queira, quer não. Adapte-se ou morra”.

Bueno.

Por mais que às vezes possa fazer todo o sentido, como o reported.ly, é preciso problematizar a maneira como a web e, neste caso, a distribuição de conteúdo e o jornalismo, evoluem. Em nome de uma melhor experiência para o usuário (vide o desejo de uma navegação rápida do Instant Articles acabando com os links), o poder de distribuição e de formas de gerar lucro acaba centralizado na mão tecnologia de poucos. A sede de lucro e de poder dos grandes players necessariamente beneficia os usuários? E quanto ao jornalismo? Sem desconsiderar reported.lys e afins, essa centralização é interessante para um serviço cuja missão é o bem comum, independentemente de quem lucre?

Antes de seguir adiante, algumas palavras sobre duas novidades desta semana.

Primeiro, sobre o Apple News. Esta matéria do Nieman Lab detalha a lógica do News para os produtores de conteúdo. Fala como os veículos de notícias estão se preparando para as novidades introduzidas pelo novo app. Uma das principais é uma busca capaz de achar termos dentro dos apps. Ao buscar por “Síria”, por exemplo, ela vai mostrar quais apps têm notícias sobre o termo. Também será possível personalizar o conteúdo a partir da geolocalização, o que é bom para o noticiário local, e/ou pela hora do dia, com o iOS sugerindo um app que você costuma ler no começo da manhã, ao se deslocar para o trabalho, diz o Nieman.

No Poynter, publishers dizem esperar aumentar a audiência com a dupla iOS 9 e News, já que os veículos cujo conteúdo estiver no app poderão alcançar mais usuários. Dan Check, vice-presidente do grupo que controla a Slate, disse ao Poynter que o News ajudará a chegar “a milhões que ainda não leem a Slate”.

Parece ótimo.
Mas lendo essas duas matérias dá pra ter uma ideia a respeito da transformação pela qual passa a web, e como se dá a centralização do poder de distribuição.

Segundo, sobre o Signal, a nova feature do Facebook voltada para jornalistas lançada esta semana. Sugiro a vocês, assim como no caso do News, uma matéria do Poynter e outra do Nieman Lab. Mas antes deem uma olhada no post do Facebook sobre o assunto, onde encontrarão uma definição do produto:

“Hoje nós estamos animados por lançar o Signal, para Facebook e Instagram, uma ferramenta de busca e curadoria para jornalistas interessados em encontrar fontes e reunir e embedar conteúdo jornalístico relevante oriundo do Facebook e do Instagram, sobre notícias, cultura, entretenimento, esportes – tudo em um só lugar.”

Nota da NFJ: “tudo em um só lugar”.

A ideia do Facebook, diz o Nieman Lab, é se tornar mais atraente a nós jornalistas, competindo com o Twitter nesse aspecto. Uma ferramenta como o Signal, acrescenta o Nieman, se torna mais e mais necessária à medida em que as redes sociais se tornam o lugar onde as coberturas acontecem. No Poynter há algumas aspas do Andy Mitchell, diretor de News and Global Media Partnerships do Facebook, sobre como as notícias vêm ganhando importância dentro da empresa.

“Nós estamos tornando o conteúdo compartilhado publicamente no Facebook acessível. Então, em última análise, está com as organizações de notícias e com os jornalistas a responsabilidade de determinar o valor notícia desse conteúdo e como ele pode se inserir na cobertura que cada um deles realiza.”

Antes de seguir adiante, um post da Storyful, a responsável pela curadoria do FBNewswired a respeito do Signal. O texto lista várias histórias cuja cobertura a Storyful disponibilizou no Newswired e que agora estarão disponíveis no Signal.

Feito? Adiante.

Texto instigante sobre a relação – cada vez mais estreita – entre jornalismo / jornalistas e tecnologia. Lucy Küng argumenta que se antes a tecnologia era usada por pessoas criativas pra fazer coisas interessantes, “hoje a própria tecnologia é parte das coisas interessantes”. Para o jornalismo, isso significa uma proximidade maior entre as duas áreas, o que, por sua vez, demanda uma atuação cada vez maior do que ela chama de “pensadores editoriais-digitais”. Esses caras, diz ela…

“… […] combinam um domínio do jornalismo com um entendimento de tecnologia. E aqueles que possuem essa capacidade de síntese estão sendo requisitados.”

Hoje falamos de jornalismo, mas poderíamos ampliar o conceito de “pensadores editoriais-digitais” para outras áreas do conhecimento. Pessoas que consigam se movimentar no meio tecnológico e dele extrair as informações que façam algum sentido social. Uma dessas habilidades é a capacidade de lidar com dados, por exemplo. Leiam este post da Natália Mazotte, da Escola de Dados, sobre a necessidade de debater “o estado da alfabetização de dados”. Um trecho:

“Alfabetização de dados? Pois é, para quem não acredita que o acesso aos dados seja um fim em si mesmo, é sobre este tema que devemos tratar. Ter dados de governos e corporações disponíveis não significa necessariamente ter uma sociedade mais informada e justa. As pessoas precisam ser capazes de extrair significado a partir dos dados. E isso só é possível se os atores que estão no front do debate público, como jornalistas, pesquisadores, organizações sociais e cidadãos interessados, tiverem os conhecimentos adequados para lidar com eles.”

Aproveitando que o último texto está em português, deem uma lida nesta matéria da Folha sobre o surgimento recente empreendimentos jornalísticos no Brasil. O texto destaca a luta que essas empresas travam pela sobrevivência ao buscar o pote de ouro de um modelo de negócio sustentável. Fluxo, Amazônia Real, Aos Fatos, Brio, Impedimento e Jota estão entre os cases da reportagem. Vale conferir.

Para dar um tempo nas discussões pesadas, um parágrafo mais instrumental. Primeiro, link do Journalism.co.uk com dicas de Valerie Geller, uma influente radialista, sobre como contar histórias no rádio. Ela diz que “há quatro coisas que fazem as pessoas dizerem ‘preciso ouvir isso'”: saúde, segurança, dinheiro e emoções. Tá certo. O segundo link é mais um do Journalism.co.uk, agora com dicas sobre fazer uma boa pauta – na verdade o link é um “pedágio” que leva a este aqui, o original, publicado no site SciDevNet. Por fim, mais um link da mesma fonte, agora apresentando o Social Searcher, ferramenta de busca em redes sociais diferentes.

Vamos para o final com uma matéria do Guardian sobre o uso do Periscope na cobertura da crise dos refugiados na Europa. O texto fala da experiência do repórter do Bild Paul Ronzheimer, que marchou junto de grupos de refugiados Europa adentro. Ele sublinha a importância da natureza crua e sem edição do Periscope.

“Na Alemanha há uma grande discussão sobre a intensidade da cobertura midiática dessa história. Com o Periscope, todo mundo pode ver que é ao vivo.” […] Acontecia. Ninguém estava editando, ninguém estava juntando pedaços de dois ou três minutos depois que nós filmávamos. Para os alemães, foi muito importante para entender os problemas que os refugiados estão enfrentando.”

Pra terminar, um pequeno post publicado no Tow Center sobre uma nova possibilidade que os esportes estão oferecendo para o nosso campo: o jornalismo sensorial. O texto fala sobre como os esportes sempre contribuíram para a inovação do jornalismo e que estamos próximos de ver um novo capítulo dessa história: a liga de futebol americano dos EUA (NFL) anunciou que cada jogador vai carregar um sensor capaz de transmitir informações como posição no campo, velocidade, distância percorrida e aceleração em tempo real, e que esses dados estarão disponíveis para tanto para as equipes quanto para as transmissões dos jogos.

Diz o texto:

“Esse recurso não só coloca as transmissões esportivas mais uma vez na ponta da inovação tecnológica, mas também sinaliza possibilidades para outras investigações que possam incorporar abordagens baseadas em sensores, como a cobertura política, ambiental e de saúde”.

Bora pro fíndi?

Termino com a divulgação do curso de curta duração que o Farol Jornalismo e a agência de conteúdo Fronteira promoverão de outubro a novembro (quatro sábados, 12 horas-aula). No ‘Jornalista 3.0: como criar oportunidades e contar histórias na era digital’ discutiremos alternativas para o atual momento da profissão, exploraremos iniciativas inovadoras e apresentaremos técnicas e ferramentas para empreender no jornalismo. Informações sobre custo e inscrições, aqui. Feito? Então tá.

Vou ali curtir um Brasil vs Croácia pela Copa Davis.

Bueno, era isso então.
Bom final de semana e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório