Buenas, moçada!

Desembarquei hoje cedo de Curitiba, onde passei a semana fazendo o curso Programação para Jornalistas, promovido pelo Volt Data Lab. Foram quatro dias de imersão em HTML, CSS e ferramentas úteis para o jornalismo. Iniciativa massa do Sérgio Spagnuolo que fez jornalistas do Rio de Janeiro e do Espírito Santo (além de Porto Alegre) irem até o Paraná só para as aulas. De uma turma de dez alunos, quatro eram de fora. Em breve deve rolar outra edição em outra cidade.

Durante o curso, conheci o pessoal do Livre.jor, uma iniciativa jornalística voltada ao contexto paranaense que produz reportagens a partir de dados públicos.

Aproveitando o gancho, deixem eu lembrar do curso que o Farol Jornalismo e a agência de conteúdo Fronteira vão promover entre outubro e novembro. No ‘Jornalista 3.0: como criar oportunidades e contar histórias na era digital’ discutiremos alternativas para o atual momento da profissão, exploraremos iniciativas inovadoras e apresentaremos técnicas e ferramentas para empreender no jornalismo. Mais informações aqui. Feita a propaganda, seguimos em frente.

Na newsletter passada falei sobre o primeiro meetup Jornalismo Digital e Inovação, realizado na PUCRS, em Porto Alegre. Durante a semana, o Marcelo Fontoura, organizador do evento, publicou um texto com um resumo da conversa com o Leandro Demori sobre o Medium. Confere lá para ver o que rolou.

Falando em Medium, ouçam o podcast Ainda Sem Nome #61. Nessa edição, Caio Oliveira e Felipe Menhem discutem, entre outras coisas, a centralização da distribuição de conteúdo – um dos temas da NFJ da semana passada. Um pouco antes de abordar a batalha Apple vs Google vs Facebook, eles falam sobre o Medium. Me chamou a atenção a opinião bastante polêmica que o Caio tem sobre a criação do Ev Williams: um lugar em que a navegação é difusa e que pasteuriza o conteúdo de um usuário que tem preguiça de publicar em uma plataforma própria, como um blog. Como o podcast é grande (46 minutos) e são vários os temas abordados, se vocês quiserem ir direto ao ponto, deem um FF até o minuto 28.

Seguindo. Mas ainda no tema centralização.

Matéria do Quartz dizendo que a maioria dos americanos passam 50% do seu tempo dedicado a apps de smartphones em apenas um app. E nós todos sabemos qual é. O app do Facebook teve 126 milhões de usuários únicos nos Estados Unidos em junho. É o preferido de quase metade dos americanos.

Não há como não conectar este fato com o Atavist declarando o fim do seu app. Neste post Evan Ratliff e Jefferson Rabb explicam os porquês de estarem migrando sua atividade toda para a web. O texto é meio longo, mas é interessante porque acaba sendo uma narrativa da ascensão e queda dos natives apps nos últimos anos. Grandes players como Facebook e Apple têm papel importante nessa história, claro, mas os argumentos de Ratliff e Rabb expõem um cenário mais complexo.

Eles começam explicando como era a vida nos longínquos anos de 2010 e 2011, uma época em que essa história de estar 100% do tempo conectado ainda não era para todos, em que o flash já havia sido banido para todo o sempre pela Apple, mas em que o HTML 5 recém engatinhava. Um momento em que o frenesi causado pelo iPad e seus apps encontrou vazão na necessidade de achar um jeito para que as pessoas pudessem ler reportagens de 10 mil palavras sem precisar esta online. Foi quando o app do Atavist foi baixado 40 mil vezes em dois meses.

Mas quando o HTML 5 engrenou, fazendo aparecer o Snowfall e assemelhados, a vida dos natives apps começou a complicar. Ratliff e Rabb explicam que ficou pesado programar para ambas as plataformas, e que quase tudo o que eles faziam no app dava para reproduzir também na web. E ainda tem a questão do mercado.

Leiam o que eles dizem.

[…] as complicações para o mundo dos apps nativos, em termos de negócio, ficaram muito claras. O app The Atavist Magazine conseguiu escapar do destino cruel de outras publicações ficando de fora do cemitério que se tornou o Apple Newsstand, onde apps foram banidos para a obscuridade. […] Mas em uma era em que as histórias são mais e mais encontradas e compartilhadas via redes sociais, ser descoberto na app store se tornou um pesadelo. A única estratégia que se mostrou significativa em número de downloads foi (e ainda é) “obtenha destaque da Apple”.

Com o desenvolvimento de códigos capazes de tornar o conteúdo mobile friendly, eles decidiram matar o app do Atavist – ação anunciada agora, mas que já vem sendo feita há algum tempo. Segundo eles, o alcance de leitura está 50 a 100 vezes maior na web do que no app. Por fim, eles acreditam que não se trata do fim dos natives apps. Mas vai ser preciso ter uma boa razão para investir neles. E listam duas: gerenciar um vasto conteúdo (como o Flipboard) ou comandar uma audiência grande e publicar uma enorme quantidade de conteúdo, o que justificaria o público entrar várias vezes por dia no app. Coisa para NYT e BuzzFeed, dizem eles.

Pois é.

Enquanto isso, o Washington Post anunciou que começou a enviar todas as suas publicações para o Instant Articles. Fred Ryan, publisher do WP, disse que o jornal que alcançar “atuais e futuros leitores em todas as plataformas”, e que o Instant Articles permite que a audiência tenha uma experiência de leitura mais direta. O movimento do WP é simbólico para o Facebook em um momento em que seus concorrentes vêm trabalhando para lançar iniciativas semelhantes, diz o re/code.

Mudando de assunto.

Texto interessante publicado no Guardian pelo historiador e cientista social Carl Miller sobre a relação entre sociologia e redes sociais na pesquisa científica. Ele chama a atenção para o fato de estarmos maravilhados demais com a possibilidade de estudar a sociedade a partir dos dados que ela produz nas redes.

“Em uma batalha por números cada vez mais expressivos, por mais e mais dados, por mais e mais rapidez, muitos dos mais importantes princípios que as ciências sociais meticulosamente desenvolveram estão, de maneira geral, sendo deixados de lado pelas pesquisas com redes sociais. […] alcançar rigor é o desafio mais importante que a pesquisa com redes sociais enfrenta hoje. A não ser que a pesquisa com redes sociais seja transparente a respeito dos seus métodos, honesta a respeito das suas limitações e crítica a respeito dos seus resultados, ela não influenciará as decisões importantes dentro da sociedade como deveria.”

Em um momento em que a pesquisa com redes sociais é tratada de maneira festiva, acho procedente o alerta levantado por Miller. Esse tipo de exercício da sociologia ainda está na sua primeira infância. Ainda temos muito do que descobrir.

Sobre pesquisias, mídias sociais e jornalismo, deem uma olhada neste texto. Ele fala de um estudo sobre a visão que a audiência tem dos jornalistas. A autora, Jayeon Lee, da Universidade de Lehigh, nos Estados Unidos, pediu que 267 estudantes acessassem quatro versões da página de um jornalista fictício no Facebook e dessem opiniões a respeito dele. As quatro páginas apresentavam links para conteúdos, opiniões e informações pessoais do personagem em quantidades diferentes. Depois de visitar as páginas, os participantes leram um artigo supostamente escrito por ele e também foram instruídos a comentar a respeito.

Em resumo, os principais resultados foram os seguintes:

  • O jornalista foi avaliado melhor quando ele ofereceu mais informações pessoais e quando ele respondeu às pessoas que deixaram comentários. Neste caso, ele foi tido como mais simpático.
  • Profissionalmente, a interação do jornalista com os “comentaristas” tem um efeito negativo significativo. Os participantes viram falta de profissionalismo.
  • A percepção quanto ao profissionalismo não foi influenciadas pela quantidade de informações pessoais publicadas pelo jornalista, sejam elas opiniões ou experiências.
  • As ações do jornalista impactaram na opinião dos participantes em relação ao seu trabalho. Quando o jornalista era avaliado negativamente ou positivamente, seu trabalho era avaliado de maneira semelhante.

Não achei os resultados muito relevantes. Mas também não fui ao artigo original, que está disponível neste link. Será que a autora foi transparente em relação ao seu método, honesta a respeito das suas limitações e crítica a respeito dos resultados?

Embora não seja uma pergunta retórica, não é o caso de tentar respondê-la agora.

Adiante.

Vocês conhecem a revista 5W?
Se não conhecem, recomendo fortemente. Eu não conhecia. Fiquei sabendo ao ler este post do 233 Grados sobre o lançamento (embora no site da revista haja matérias com datas de junho deste ano), que é dedicada ao jornalismo internacional e aposta em longas reportagens. O 233 Grados diz que ela é resultado de uma exitosa campanha de crowdfunding que arrecadou o dobro do objetivo inicial (25 mil euros) e que, além de um formato digital convergente, a 5W terá uma edição anual em papel. Confiram lá. Mas para ler as matérias mais recentes é preciso ser sócio.

Aproveitando que o assunto é cobertura internacional, vocês viram que um jornal suíço publicou uma edição escrita por refugiados? É o que conta esta materinha do Journalism.co.uk. A ideia surgiu depois que notou-se que a cobertura tradicional só conseguia abordar parte da história. Então, no dia 18 de setembro a edição do jornal saiu com matérias e fotos feitas por uma equipe de 13 refugiados, muitos deles jornalistas e fotógrafos em seus países de origem. Que baita ideia, não?

Outro conteúdo do Journalism.co.uk mostra como BBC, Bild e Time estão usando Snapchat, Vine e Periscope para narrar a jornada dos refugiados Europa adentro.

Cito as aventuras dos tradicionais veículos europeus para falar desta matéria do European Journalism Center. Após listar algumas das mais recentes tentativas dos veículos tradicionais (legacy media) para atrair os millennials, o texto pergunta:

“É uma relação complicada, mas essas marcas fora de moda persistem em lançar novas plataformas com diferentes nomenclaturas. É uma perda de tempo?”

A matéria foi originalmente publicada na versão francesa da revista Slate, então os cases são de lá. São vários editores e publishers avaliando estratégias para conquistar uma audiência que é homogênea apenas quando rotulada. As aspas dos jornalistas demonstram certa dificuldade em saber quem é esse público, quais são seus gostos e que tipo de linguagem devem usar para se comunicar com eles.

Olhem só o que disse Olivier Lendresse, gerente de projeto do LePost.fr, versão ~jovem~ do Le Monde a respeito de uma pesquisa de mercado feita por eles:

“Nós havíamos colocado na rua uma campanha de marketing cujo público-alvo era quem assistia Star Academy (série francesa), mas quando os levantamentos de audiência chegaram, quatro meses depois, nós percebemos que não estávamos lidando com a audiência que esperávamos. O público não era jovem nem homogêneo. Tínhamos uma multiplicidade de nichos. Havia pessoas aposentadas. Havia alguns fãs da Ségolèle Royal (candidata à presidência em 2007).”

Pra ir fechando, voltemos ao assunto do início da newsletter com este link do blog do Tow Center sobre automação no jornalismo. O post traz aspas de Andreas Graefe, pesquisador associado ao centro da Columbia University, sobre a expansão do jornalismo a áreas relacionadas à tecnologia, como a programação. “Algoritmos analisam dados, encontram histórias interessantes e fornecem um primeiro rascunho, então os jornalistas os enriquecerão com análises mais profundas, entrevistas com pessoas-chave e reportagens”. Diz o post que Graefe está escrevendo um “guia para o jornalismo automatizado”, a ser lançado em novembro.

Antes de fechar, uma notícia boa de São Paulo: o Fluxo lançou o projeto Jornalismo em Fluxo, “uma série de diálogos, entrevistas, artigos, encontros para discutir o estado da nossa mídia”. O primeiro encontro deve rolar nos próximos dias.

Ficaremos de olho.

E ainda quatro coisinhas rápidas, que há tempos não apareciam por aqui:

Feito? Bueno, fechamos mais uma newsletter com mais de 12 mil caracteres, para desespero do Sérgio Spaguolo. Vai ver a NFJ é de fato um produto anti-internet, como classificou o Rafael Moro Martins, do Livre.jor. Quem sabe um dia muda?

Ou não. 😉
Ah, peraí. Quase esqueci de falar no ONA, o encontro do Online News Association, que tá rolando em Los Angeles. Eu não tive tempo de destrinchar a programação. Mas o Poynter tem algumas dicas. Vários eventos podem ser acompanhados online.

Tá, agora era isso.
Bom fíndi e até a semana que vem!
Moreno Osório