Buenas, gurizada!

Outubro chegou e a pressa é grande porque outubro já tá acabando e Natal taí, então, sem perder muito tempo, começo direto com uma aspa:

“O público pode dizer que não quer os detalhes sórdidos; os números de audiência dirão que o público está mentindo. O público talvez diga que valoriza mais a precisão do que a velocidade, e que é uma monstruosidade tentar entrar em contato com testemunhas logo após a tragédia; o amplo e voraz consumo de breaking news e a tendência que esse tipo de notícia se espalhe rapidamente apontam para o contrário. O público certamente irá ligar na CNN enquanto a notícia estiver em desenvolvimento, e então falará mal de repórteres que especulam o que pode ter acontecido porque os fatos ainda não são claros, e em seguida trocará de canal para ver se outra emissora está noticiando algum fato novo.”

O trecho acima é do jornalista Barry Petchesky e é parte deste texto, publicado logo após o tiroteio que deixou dez mortos no Oregon, ontem. Recomendo. Petchesky lembra que já passou uma véspera de Natal perguntando a uma mãe que recém havia perdido um filho como ela se sentia – e como ele odiou fazer isso – para refletir sobre a natureza da cobertura nos dias atuais. Ele faz referência aos repórteres e produtores que inundam o Twitter de testemunhas com perguntas e tentativas de contato (no texto, um print screen mostra as mensagens de vários jornalistas para uma das pessoas que presenciaram o massacre em Roseburg). É horrível, ele diz, mas não é algo novo. Perguntar a estranhos o que se passou é algo que vem acontecendo há muito tempo, diz ele. O que mudou foi a maneira como isso é feito.

“Se houve alguma mudança nos anos recentes, é que, agora, o público – a quem os repórteres contam para obter relatos em primeira mão – pode assistir a crueza do processo cujo objetivo é informá-lo a respeito do que está acontecendo no mundo ao seu redor. As pessoas podem até não gostar, mas eu garanto que o comportamento delas não irá mudar. Quando conveniente, mostrarão virtuosidade, expressando aversão ou altivez; mas depois lerão e assistirão as reportagens.”

Recomendo o texto.

Na mesma linha, recomendo também o que publicou o Gawker. Sam Biddle, o autor, parece mesmo estar respondendo às críticas recebidas em tempo real durante a cobertura de ontem. O tom é duro e um tanto sarcástico. Em resumo, ele diz mais ou menos o seguinte: sabe esses tweets perguntando a testemunhas o que está acontecendo? Pois é, isso se chama apurar, e não quer dizer mau jornalismo.

Leiam como ele abre o texto.

Imagine o seguinte: o Twitter é inundado de mensagens que mostram a explosão de um ônibus em uma rodovia interestadual, deixando no céu uma nuvem em forma de cogumelo visível a quilômetros de distância. Quantas pessoas estão feridas? Ou mortas? O que causou a explosão? Ninguém sabe, já que todos os repórteres decidiram dar às vítimas e testemunhas um tempo, respeitando o período necessário para que todos superem o trauma antes de perguntar algo a respeito.”

Parece que Biddle tava meio puto da vida quando escreveu o texto. Menos elegante do que o de Petchesky, mas a questão de fundo é a mesma: ao contrário do jornalismo door-knocking, quando ninguém acompanhava os repórteres batendo nas portas das testemunhas em busca de relatos sobre acontecimentos, hoje o público enxerga (e participa) os bastidores do jornalismo. Quais as implicações para o jornalismo? O nosso comportamento deve mudar por saber que o nosso trabalho pode ser escrutinado desde a primeira pessoa ouvida até o ponto final da matéria?

Falando em Twitter, vocês viram que a empresa lançou um guia para políticos?
E falando em políticos, assistam ao discurso do Obama sobre o tiroteio em Oregon. Como sempre, uma aula de oratória e um belo trabalho de ghost writing.

Os dois textos sobre as mortes no Oregon conversam com este aqui, escrito pelo professor do departamento de mídia e comunicação da London School of Economics Charlie Beckett e publicado no European Journalism Observatory.

Beckett fala sobre ética no jornalismo em tempos de profundas transformações na profissão. Usa o exemplo da crise dos refugiados na Europa para dizer que desenvolver parâmetros éticos bem fundamentados seria uma boa resposta do jornalismo a um cenário de complexidade e incerteza. “Construir relações sustentáveis de confiança e relevância com o público é a melhor forma de fazer as pessoas pagarem…” (pelo conteúdo, imagino, embora a frase fique em aberto).

Beckett finaliza assim:

“Construir confiança significa ter de trabalhar mais para oferecer um serviço, e não apenas empurrar conteúdo goela abaixo. Desenvolver uma ética significa proteger sua marca das pancadas oriundas das redes quando suas ações não estiverem alinhadas com os valores que você diz respeitar. Reputação não é mais assunto de relações públicas, é elemento fundamental para o sucesso do negócio.”

Quem quiser seguir no assunto, o Poynter dedicou alguns posts ao assunto. Aqui tem vários tweets polêmicos e aqui tem boas práticas para cobrir breaking news.

E como muitas vezes cobrir um breaking news depende de verificação digital, convém dar uma olhada neste post do Craig Silverman no Medium com 4 técnicas básicas de apuração na web a partir dos exemplos de Elliot Higgins, do Bellingcat.

Bueno, adiante.

Vocês conhecem o WePress? O WePress é um app (iOS only) para jornalistas venderem pautas e publishers procurarem jornalistas para as suas. O Journalism.co.uk fez uma resenha do aplicativo. E os criadores escreveram este texto no Medium explicando o objetivo do WePress. Em resumo, a ideia é que profissionais ligados ao jornalismo (de repórteres a fotógrafos, passando por tradutores, editores e até fixers) possam oferecer seus serviços e sugerir pautas. É uma espécie de rede social misturada com plataforma de crowdfunding para jornalistas. Já tem bastante gente por lá. Para participar, é preciso fazer um cadastro e esperar pela aprovação. Tive a minha de ontem pra hoje.

O Journalism.co.uk também falou recentemente sobre outro app útil para jornalistas, o Umbrella (só Android, por enquanto), cuja ideia principal é ser uma fonte de informações de segurança para profissionais atuando em áreas e/ou situações de risco. “Umbrella oferece dicas e check-lists para ajudar repórteres, ativistas de direitos humanos e outros profissionais que se preocupam com espionagem ou trabalham em áreas perigosas e precisam gerenciar suas comunicações, ajustes de viagens e operações em solo”, diz o texto do assinado por Catalina Albeanu.

A ideia de fornecer segurança a repórteres em trabalho de campo é também o objetivo do app Reporta, segundo esta matéria do IJNet. A diferença é que este aplicativo é voltado para jornalistas mulheres. Tanto é que foi lançado pela International Women’s Media Foundation (IWMF). São três as funcionalidades básicas: criar um sistema de segurança em que a usuária fornece informações para dizer que está bem (checkins, frequência de contato, áudios, vídeos), um serviço de mensagens personalizadas que avisam se um colega está em risco, e uma mensagem de SOS que é disparada com apenas um toque no telefone.

Mudando de assunto.

Na newsletter 63 falei bastante sobre centralização da distribuição de conteúdo a partir das iniciativas da Apple e do Facebook. E teve ainda a questão da morte das webpages e dos apps na NFJ#64. Como o assunto é polêmico, ele segue rendendo.

Compartilho com vocês o texto escrito pelo Sérgio Spagnuolo, do Volt Data Lab, sobre a vida e morte das webpages. No caso dele, sobre a vida. O Sérgio acredita que as páginas pessoais não terão um fim trágico. Ele sustenta o argumento em três pilares: código, marca e endereço (URL). O primeiro fala sobre a flexibilidade que as iniciativas jornalísticas têm ao optar por desenvolver seu próprios produtos e suas próprias plataformas – a despeito de toda a facilidade oferecida pelos grandes players. Os dois últimos centram o raciocínio na dupla autonomia e concorrência. É a ideia ter casa própria (URL) e não fazer propaganda para marcas de terceiros.

Falando em construir plataformas próprias ou usar a de terceiros, deem uma olhada nesta matéria do Nieman Lab sobre o projeto Esquire Classics, da revista Esquire. O texto conta como a publicação digitalizou todo o seu acervo e o disponibilizou em uma plataforma própria – cujo acesso se dá por uma assinatura mensal ou anual. Ao mesmo tempo, parte do conteúdo vem sendo adaptado a plataformas massivas, como Medium ou YouTube, como é o caso da série What I’ve Learned.

Ainda sobre plataformas, distribuição, blogs e páginas pessoais, também tem este texto do Benedict Evans. Ele argumenta que sempre vai existir algum problema (ou algum filtro), seja optando pelas plataformas, seja optando pela open web.

Um trecho:

[…] sempre há um juízo de valor no que o Facebook e o Google (ou Medium) te mostram. Um filtro é uma decisão. Algumas pessoas se preocupam com isso, embora eu tenda a achar que a competição (lembram do MySpace? Microsoft?) oferece proteção. Mas, sério, trata-se sempre de realocar o problema. Você pode achar melhor estar na web, mas então você vai precisar informar a sua URL às pessoas, ou confiar no indexador do Google, aí as pessoas vão precisar achar você nas buscas, ou confiar no Facebook, aí as pessoas vão precisar dizer para o algoritmo do Facebook que elas querem ver você. […] Então, a open web tem os mesmos problemas subjacentes que qualquer plataforma proprietária – eles só aparecem de maneiras diferentes. […] Sempre haverá um filtro.”

Adiante.

Semana passada, falei do fim do app do Atavist ao comentar sobre o futuro sombrio para os apps nativos. Pois bem, leiam este texto do Breno Costa, editor do Brio, sobre a tentativa do Brio em se tornar o Atavist brasileiro – e o seu fracasso. Mas, como o próprio Breno diz, não lamente o insucesso de mais uma iniciativa jornalística. O Brio segue vivo, mas agora no Medium. Eles abriram mão de uma plataforma própria, que, segundo eles, consumiu muitos recursos e não funcionou.

Leiam um trecho:

“Tecnologia deve ser algo a parte. O BRIO, porém, ficou refém de códigos, testes, especificações, buffers de segurança, assets e outros termos que nada têm a ver com o jornalismo. Em termos de tecnologia, a montanha que pretendia criar uma rede para colocar em contato direto produtores de conteúdo de todo o mundo, disponibilizar de maneira livre um sistema de autopublicação, integrado com um protocolo de curadoria jornalística avançado, bom… a montanha pariu um rato.”

Bueno, aproveitem que o conteúdo está aberto e prestigiem o Brio no Medium lendo Sobre a Sede, uma reportagem em sete atos (já foram publicados cinco).

Seguindo.

Deixem eu lembrar do curso que o Farol Jornalismo e a agência de conteúdo Fronteira vão promover entre outubro e novembro. No ‘Jornalista 3.0: como criar oportunidades e contar histórias na era digital’ discutiremos alternativas para o atual momento da profissão, exploraremos iniciativas inovadoras e apresentaremos técnicas e ferramentas para empreender no jornalismo. Mais informações aqui.

Antes de sair correndo rumo à noite de sexta, deem uma olhada nos concorrentes brasileiros no News Challenge, do Knight Center, um concurso que vai dar uma grana aos projetos jornalísticos melhor avaliados pelo público e pela fundação. Reproduzo os links reunidos pela Natália Mazotte em um post no Orbital Mídia.

Partiu sexta-feira? Então 1, 2, 3 e: FIGHT!

Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório