Buenas, moçada!

Eis que chegamos a mais uma sexta-feira em nossas vidas. Aqui em Porto Alegre, mais uma sexta-feira de chuva. É o 27º dia de chuva nos últimos dois meses na capital gaúcha, segundo meus registros meteorológicos particulares. E a previsão é que siga chovendo no mínimo até terça que vem. Que chova. Eu vou me escapar para São Paulo, onde acompanharei o festival piauí GloboNews de jornalismo. Aliás, se alguém estiver por lá e quiser trocar uma ideia sobre jornalismo (ou qualquer outra coisa) ao vivo e em cores, entre em contato. Beleza?

(Falando em festival da piauí, recomendo esta entrevista com o jornalista Seymour Hersh, um dos convidados do evento.)

Então vamos em frente porque hoje tem história.

Começo convidando vocês a ouvir a edição #63 do podcast Ainda Sem Nome, apresentado pelos amigos Caio Cesar Oliveira e Felipe Menhem e com participação minha. Conversamos um pouco sobre o Farol Jornalismo, sobre distribuição de conteúdo e sobre algumas das novidades apresentadas na semana que passou pelos grandes players da tecnologia: Twitter Moments e Google AMP.

Ouçam enquanto leem a newsletter, que tal?

Já que falamos de Twitter Moments e Google AMP, comecemos por eles.

Imagino que vocês já tenham lido algo e saibam o que é o Moments. Se não sabem, uma definição em uma frase: uma seleção feita pelo Twitter de conteúdos (tweets, vines, gifs) relacionados a eventos relevantes. Ou, nas palavras do próprio Twitter: Moments, o melhor do que está acontecendo no Twitter em um instante.

À primeira vista, trata-se de mais um movimento do Twitter para popularizar a plataforma e atrair novos usuários. Com o Moments, mesmo quem não tiver uma timeline azeitada vai poder acompanhar o que estiver acontecendo no Twitter.

Beleza, mas é mais do que isso. Com o Moments, o Twitter começa a delinear um esboço de postura editorial. Porque, ao fazer escolhas, mesmo que essas escolhas sejam em relação a conteúdos de terceiros, a empresa atua/interfere – mais claramente do que antes – na maneira como seus usuários enxergam e interpretam as coisas que acontecem no mundo.

Sugiro que vocês deem uma olhada nos guidelines and principles do Moments. O que eles chamam de princípios e diretrizes, eu chamaria de política editorial, ainda que rudimentar. Destaco o posicionamento a respeito do “viés” no Moments.

“Cada momento deve ser livre de vieses. Nós usaremos decisões guiadas por dados para escolher tweets a respeito de tópicos controversos, destacando os que já estão tendo o maior engajamento no Twitter. Sobre tópicos que refletem debate público, nós selecionaremos tweets que representam todos os lados do argumento ou história, quando for viável. O Twitter não vai se posicionar, mas sim refletir a discussão da maneira como ela aparece na plataforma.”

Tá bem. Só o fato de usar o verbo refletir para descrever sua forma de atuação denota um posicionamento editorial baseado em uma objetividade inexistente. Portanto, construído a partir de um argumento frágil.

Mas vamos combinar que o Twitter nunca admitiria algo diferente.

Esta matéria do Nieman Lab traz aspas de Andrew Fitzgerald, chefe da equipe de curadoria do Moments. Ele diz que, embora a empresa tenha contratado editores para a nova funcionalidade, o Moments não vai criar um “produto noticioso” (news product) propriamente dito. Mas os editores “usarão técnicas encontradas em redações digitais”, diz o texto assinado por Justin Ellis. Como diz a matéria do IJNet sobre o assunto, esses editores vão “decidir o que – ou quem – tem valor notícia e o que não tem”. O texto destaca ainda o trecho dos guidelines que fala que a equipe vai selecionar o conteúdo partindo do princípio do que melhor serve à audiência, e não para beneficiar anunciantes, parceiros ou interesses comerciais do Twitter.

O Poynter destacou outros pontos do guidelines.

Recomendo também esta boa matéria do NYT sobre o Moments. O texto diz que, com o lançamento dessa nova funcionalidade, talvez o Twitter finalmente encontre aquilo que a empresa vem procurando desde a sua fundação: uma razão de ser. Em outras palavras, com o Moments, o Twitter será capaz de mostrar para o público em geral o que os usuários mais fieis há muito já sabem: que o Twitter é o lugar para saber o que está acontecendo no mundo. A diferença é que agora o Twitter (e alguns veículos de notícias que também poderão criar Moments) quer pegar as pessoas pela mão para mostrar como isso é importante e interessante.

Antes de seguirmos adiante, gostaria de destacar um trecho do texto do NYT.

“Dizendo de outro modo, o Moments tenta oferecer um contexto por fora da confusão que é a timeline principal. Se o Twitter que você conhece é equivalente a um fluxo contínuo de factóides, o Moments é mais parecido com um jornal – as declarações organizadas em histórias compreensíveis para a maior parte das pessoas, que não estão interessadas em saber como o molho é feito.”

Se o Twitter vai oferecer uma funcionalidade que atua como um jornal, organizando e contextualizando acontecimentos, não seria essa funcionalidade um produto noticioso, ou, dizendo de outra forma, jornalístico?

Apesar de tensionar a posição do Twitter, acho que o Moments só tem a acrescentar à cobertura jornalística digital – e à tarefa de separar o que é notícia do que é ruído. Mas sabendo que essa separação tem, sim, o viés do Twitter – e aqui não há juízo de valor em relação ao que eles entendem como notícia -, me parece interessante que veículos e jornalistas sigam fazendo a sua própria curadoria, montando listas e trabalhando diariamente na manutenção das suas timelines. É esse, muitas vezes árduo, trabalho que vai garantir maior independência editorial.

Hum, 5 mil caracteres só sobre o Moments. Vamos adiante?

Vou ser mais sucinto em relação ao AMP, até porque não li o suficiente sobre e trata-se de uma novidade muito mais técnica do que propriamente jornalística. Assim como o Moments, imagino que vocês já devem ter lido alguma coisa a respeito do Accelerated Mobile Pages (AMP), iniciativa do Google para, vejam só, acelerar a navegação em conteúdos mobile. A ideia é fazer com que a web mobile deixe de ser a worldwide wait, como diz o diretor-executivo do Washington Post nesta matéria da Fortune. Trata-se de uma resposta do gigante Google ao Instant Articles (Mark disse que um dos maiores objetivos do Articles era acelerar a navegação, lembram?), e ao Apple News. Leiam o que diz na página do AMP:

“O projeto Accelerated Mobile Pages (AMP) é uma iniciativa para melhorar a web mobile e aumentar o ecossistema de distribuição. Se o conteúdo é rápido, flexível e bonito, o que inclui anúncios atraentes e eficazes, nós podemos preservar o modelo de publicação da web aberta, bem como os fluxos de receita, tão importantes para a sustentabilidade e a qualidade do que é publicado.”

O AMP logo ganhou o apelido de Instant Articles do Google. O que até faz sentido, mas com uma grande diferença: o AMP é aberto. A ideia é que qualquer desenvolvedor possa implementá-lo em suas aplicações mobile. O código, aliás, foi publicado no GitHub para que programadores possam dar seus pitacos.

Enquanto aguardamos mais novidades, vocês podem ir lendo o que já saiu sobre o AMP. Selecionei alguns links: Journalism.co.uk, Guardian, Mathew Ingram e Nieman Lab. Aliás, esta do Nieman Lab vale a pena ler. Joshua Benton faz uma boa análise do AMP e logo de saída já se diz com um pé atrás. Basicamente, diz ele, porque o projeto do Google pode moldar o HTML para que a linguagem funcione de acordo com que a empresa achar mais adequado para acelerar o conteúdo mobile. Isso incluiria banir tags (iframe, por exemplo) e restringir códigos JavaScript e CSS.

Benton:

“Sim, publishers não precisam adotá-lo (o AMP), e, sim, é um projeto open source, e, sim, o ganho de performance é muito real e muito substancial. Mas os publishers também podem escolher adotar o Instant Articles e o Apple News. O ponto é que isso é outra parada no caminho que leva à impotência dos publishers – outro caso em que as companhias de tecnologia estão ditando as regras.”

O destaque no verbo escolher é do próprio Benton. Vocês entenderam. Leiam lá.

Vamos adiante.

Outra grande novidade da semana veio do Medium. Na verdade, não uma, mas sim várias novidades foram anunciadas pelo fundador da plataforma, Ev Williams. Há uma versão em português publicada no Medium Brasil pelo Leandro Demori.

Um trecho:

“Estou orgulhoso de onde estamos, mas, como eu gosto de dizer: Há sempre um outro nível. Outro nível de polimento e poder para o nosso produto. Outro nível de amplitude para nosso conteúdo. Outro nível de diálogo e discussão. E um outro nível de progresso. Hoje, estamos anunciando uma série de atualizações para levar o Medium para o próximo nível e no processo torná-lo mais poderoso, mais divertido, mais democrático e mais essencial.”

Em resumo, são seis as novidades: novos apps, a possibilidade de usar mentions nos textos, implementações no CMS, uma API pública e um novo logo.

A que mais me chamou a atenção foi a API. Ela permite a publicação cruzada de conteúdo, ou seja, publica automaticamente no Medium um texto que foi publicado em outro lugar, como um blog, ou escrito em outro editor de texto. Aqui dá pra entender como a API funciona a ver a lista de editores e CMSs que já possuem ligação com o Medium. Um deles é o WordPress, através de um plugin.

Decidi aproveitar a novidade para dar fôlego extra à newsletter. Bom, vocês sabem que todas as edições também estão disponíveis no site do Farol Jornalismo. Pois a partir de agora, toda vez que eu subir uma edição lá, o texto também ficará disponível no nosso canal no Medium. Mas, né, o ritmo de publicação no site é outro. Só os assinantes recebem a NFJ religiosamente às sextas-feiras. 🙂

Falando em Medium, deem uma boa olhada no projeto Ghost Boat, iniciativa da Matter para investigar o que aconteceu com um barco com 243 refugiados que simplesmente desapareceu no Mediterrâneo no último verão europeu. Não afundou, não virou. Desapareceu. “É incrivelmente incomum um barco sumir sem deixar pistas”, diz o editorial que apresenta o projeto. “Mas há pistas”, segue o texto. A Matter quer investigá-las, mas não quer fazer isso sozinha: a investigação é aberta, qualquer um pode ajudar. Confiram. Dá pra ler a primeira reportagem aqui.

Láá na edição #57 da NFJ, comentei sobre um projeto do Eyewitness Media Hub (EMH) a respeito do chamado trauma vicário (vicarious trauma), ou seja, traumas indiretos, ou estresse pós-traumático sofrido de maneira indireta. Pois bem, nesta edição volto ao assunto com este texto do Andy Carvin, editor do reported.ly.

Carvin relata que durante a cobertura do assassinato de dois jornalistas em frente às câmeras, nos EUA, em agosto, ele publicou no Twitter um frame do vídeo com o ponto de vista do atirador, um pouco antes de ele puxar o gatilho. No tweet, Carvin informava que aquele conteúdo era autêntico. Assim que a imagem foi postada, seus seguidores começaram a reclamar da foto. Carvin deletou o tweet e pediu desculpas aos seus seguidores. Esse episódio fez ele se dar conta de uma coisa:

“Poderia ter sido apenas um caso de julgamento editorial questionável, mas logo eu me dei conta de que era mais do que isso. Eu me tornei tão acostumado a verificar vídeos violentos muitas e muitas vezes ao longo dos últimos anos que nunca me ocorreu que aquele frame pudesse ser considerado perturbador daquela forma para alguém. Para mim, era apenas uma evidência, verificada de maneira fria, como se eu estivesse apurando a fala de um político. E isso me assustou.”

Na sequência do texto, Carvin sugere que jornalistas e organizações jornalísticas reflitam a respeito de um trauma vicário específico dos tempos atuais: o trauma de quem busca e verifica conteúdo nas redes sociais. “Há pessoas que passam por isso e não admitem, mas esses vídeos vão se somando, e podem deixar marcas na psique. O trauma vicário pode acontecer a partir da exposição de um único evento, mas para muitos de nós ele acontece ao longo do tempo”, escreveu Carvin.

Falando em coberturas traumáticas, segue a repercussão sobre o caso do Oregon, assunto da semana passada. No Quartz, uma matéria defende que está na hora de mudarmos a maneira como cobrimos tiroteios. Corinne Purtill, a autora do texto, sugere que sejam omitidos alguns detalhes relacionados ao atirador, pois esse tipo de material jornalístico pode servir de inspiração para outro maluco que queira se tornar celebridade matando pessoas. Ela diz que adotar um comportamento como esse vai de encontro à missão jornalística de contar às pessoas o que elas têm o direito de saber. Mas considerando que não divulgar certas informações pode resultar em menos tragédias, ela não vê problema em revermos nossos princípios.

Bueno, vamos terminar.

Queria só sugerir mais um texto. Este: Estou cansado do jornalismo “à moda antiga”, sobre a armadilha de se apegar à máxima “no passado é que era melhor” para pensar o jornalismo. Como já estou cansado de escrever, e a sexta-feira chama, vou colar um trecho que, no meu entender, diz muito sobre a discussão:

“O problema está sempre em ver as coisas como preto e branco:
Jornalismo à moda antiga: paladinos da notícia.
Jornalismo digital: instagram da Kim Kardashian.

Há uma enorme área cinza entre eles. Nem todo jornalismo do passado é Watergate, nem todo do presente é o Caetano Veloso estacionando no Leblon. Tomar os grandes momentos como uma representação fiel de um contexto mais amplo é a armadilha do saudosismo. Lembramos as grandes vitórias do Santos, os golaços de Pelé, nunca o 0 a 0 em uma noite fria de quarta-feira na Vila Belmiro, na qual nem ele, nem Pepe, nem Coutinho, nem Zito e nem Pagão conseguiram marcar um gol na Ferroviária de Araraquara.”

Leiam lá. Daqueles textinhos bons de encerrar a semana.

Aquelas velhas coisas rápidas.

Por fim, mais uma vez deixem eu lembrar do curso que o Farol Jornalismo e a agência de conteúdo Fronteira vão promover entre outubro e novembro. No ‘Jornalista 3.0: como criar oportunidades e contar histórias na era digital’ discutiremos alternativas para o atual momento da profissão, exploraremos iniciativas inovadoras e apresentaremos técnicas e ferramentas para empreender no jornalismo. Ainda há vagas. Mas POUCAS. Mais informações aqui.

Ah, e na próxima quarta-feira, dia 14, às 19h, eu e o Alexandre de Santi, da Fronteira, participaremos no próximo Meetup de jornalismo digital e inovação, na Famecos, na PUCRS. A ideia é bater um papo sobre empreendedorismo no jornalismo. Apareçam! É de graça e dá pra se inscrever aqui.

Feito? Me voy renovar o mate e assistir à chuva, que segue caindo firme por aqui.
Bueno, era isso então.
Bom final de semana, BOM FERIADO (pra quem tem) e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório