Buenas, moçada!

Segunda semana que a NFJ é enviada com atraso. Peço desculpas.

Conforme comentei semana passada, escrevi para o caderno PrOA, do jornal Zero Hora, um artigo sobre o Festival piauí GloboNews de Jornalismo, que aconteceu há duas semanas, em São Paulo. Como foi publicado no domingo, só dei uma pequena amostra na NFJ#67. Bueno, quem quiser ler o texto na íntegra, ele está aqui.

Leiam este post publicado no blog da equipe de pesquisa e desenvolvimento do NYT sobre o futuro do formato da notícia. Alexis Llyod, o autor do texto, questiona o fato de as discussões atuais estarem girando em torno da noção do que lá fora se entende como article: um bloco de conteúdo para o qual podem convergir diversos formatos. Ele diz que pensamos a forma das notícias assim porque até há pouco tempo esta era a única maneira de publicá-las. Mas hoje isso não faz mais sentido.

Especialmente em relação à temporalidade e ao armazenamento de informações.

Até hoje, produzir um conteúdo jornalístico (quase) sempre é um processo de reconstrução praticamente do zero – em relação à sua “materialidade”, no caso. O ritmo ainda ditado pela lógica jornalismo impresso, que a cada novo dia produz um jornal de dezenas de páginas. Mesmo que o conteúdo seja digital.

“Criar produtos jornalísticos para o cenário de mídia de hoje e de amanhã significa considerar escalas de tempo das nossas reportagens de maneiras mais inovadoras. As informações precisam se acumular; documentos precisam oferecer modos de reagir a novas apurações ou informações; e nós precisamos considerar o comportamento de consumo dos nossos usuários como algo que funciona em cadências diferentes, não apenas como uma simples atualização diária.”

O parágrafo acima pode não parecer fazer muito sentido, mas à medida em que Lloyd desenvolve suas ideias, as coisas vão ficando um pouco mais claras.

Em relação à maneira como produzimos (escrevemos) nossos materiais, ele acredita que talvez tenhamos que rever esse processo (escalas de tempo) de modo a transformar o conteúdo jornalístico em algo passível de ser buscado e extraído (searchable and extractable). Assim ele conseguirá ser armazenado (e lido) de maneira mais inteligente pelos nossos CMSs e banco de dados. Esses sistemas vão “acumular” o que já foi produzido e nos oferecer essa produção em forma de material contextual para os materiais jornalísticos ainda a serem publicados.

Tecnicamente, nada exatamente revolucionário. Quem acompanha a evolução da web semântica ou esforço do próprio NYT para construir um CMS mais inteligente, quem lembra do lançamento do Vox ou tem uma mínima noção do poder de um material bem tagueado, sabe do que este texto trata. Mas a discussão segue.

E é isso que Lloyd propõe ao lançar essas cartas na mesa. Para ele, o debate sobre o futuro das notícias / jornalismo envolvendo Instant Articles e o News da Apple já nascem meio anacrônicos. Deveríamos debater / questionar o futuro dos formatos. E aí ele mostra o que R&D Lab do NYT anda fazendo: um projeto chamado Particles.

“Nosso Editor project, por exemplo, verifica como determinadas formas de metadados granulares podem ser criados a partir de sistemas colaborativos que dependem fortemente de aprendizado da máquina, mas também de inputs editoriais. De maneira mais geral, trata-se de uma abordagem em que nós criamos sistemas que se encaixam no fluxo de trabalho existente na redação, e não reinventá-lo.”

Resumindo, a ideia é pensar as notícias e reportagens como um conteúdo formado por partículas de informação. Esses pedaços podem formar uma notícia em determinado momento. Em outro, um desses pedaços pode ser requisitado (por um sistema inteligente) para um conteúdo distinto. Pode ser um infográfico, uma suíte do mesmo assunto ou uma linha do tempo da cobertura que ele faz parte.

Transformando um article em particles, cria-se um interessante potencial de contextualização para conteúdos jornalísticos. À medida em que o material vai sendo produzido, o CMS vai oferecendo conteúdos (partículas) relacionados àquele assunto. Como diz Lloyd, o futuro da notícia como formato vai ser uma mistura entre o efêmero e o evergreen: enquanto o jornalista relata o que está acontecendo, o sistema ajuda a contextualizar esses eventos, tornando-os mais perenes.

Lendo sobre o Particles talvez vocês tenham se lembrado do Circa. Pois é, eu lembrei. Pra quem tem memória de peixinho dourado, como eu, o Circa era uma start-up de jornalismo cuja grande inovação foi transformar as notícias em átomos de informação. Ele fechou em junho deste ano. O tema foi abordado na NFJ#51. Agora, talvez vocês tenham lembrado do Quartz e a sua API. É isso também.

Bueno, leiam o artigo sobre o Particles.

Abre parênteses. Aos 50 do segundo tempo, quando eu estava prestes a apertar SEND, vi o colega aqui do sul Marcelo Fontoura chamar a atenção para este texto do Athony de Rosa, que foi editor do Circa, sobre o Particles. Ainda não li, mas deixo como mais uma referência. A dica é quente: o Marcelo passou um tempo acompanhando o trabalho do Circa in loco, inclusive escreveu sobre na NFJ. Se o assunto render, pode ser que volte na semana que vem. Fecha parênteses.

Falando em DISRUPÇÃO, leiam também este artigo do Sérgio Lüdtke em que ele faz uma crítica ao posicionamento dos grandes veículos jornalísticos brasileiros em relação ao modelo de negócio, gestão de conteúdo, integração da redação e potencial oferecido (e não aproveitado) pelas empresas de mídia. Um trecho:

“Os jornais tomaram o caminho errado quando optaram pela integração das Redações como base para uma convergência de mídias. E insistem nele. São culturas e modos de operação demasiadamente distintos para tentar tratá-los da mesma maneira. A integração não se efetiva, no máximo uma operação se submete à outra. Água e óleo só parecem misturados enquanto você chacoalha. Na primeira pausa, a água volta para o fundo. E é assim no final do dia da Redação.”

Uma das coisas que Lüdtke defende é que, por uma questão de gestão, os jornais deveriam focar nos “diferenciais da publicação e abrir mão do que é apenas acessório”. É exatamente o que diz Jeff Jarvis nesta entrevista publicada pela Folha usando o caso do vestido preto-azul-branco-dourado como exemplo:

“Esse caso é exemplar. Todo mundo pensou que precisava ter a sua versão dessa história, porque estava dando muita audiência, e todos começaram a publicar exatamente a mesma coisa. Isso não funciona. Deveríamos nos adaptar à ideia de que, num caso assim, o melhor é apenas publicar o link da história original. A internet não recompensa aqueles que fazem igual. A internet premia a personalização. Meu lema é ‘faça só o que você faz melhor e passe o link do resto’.”

Adiante.

Vocês já me viram escrever algumas vezes sobre o Slack, uma plataforma de comunicação com grande potencial de servir como uma redação virtual. Uma das muitas funcionalidades do Slack é automatizar processos e serviços. Alguns já vêm por default, como a ligação entre serviços da web ao estilo IFTTT. Também é possível criar formas próprias de automação. Para isso é preciso manjar um pouco de programação, claro. Mas aos poucos vão surgindo soluções prontas mas não menos complexas. Uma delas é o Howdy, um robô cuja principal função é ser tipo garoto de recados do escritório. No sistema, ele aparece como se fosse uma outra pessoa, dá até pra conversar de boa com ele, sem códigos. É só dar um comando que ele vai até cada integrante do grupo e pergunta como está o andamento do trabalho. Ao final de uma rodada de perguntas, ele reúne tudo e entrega para uma pessoa ou disponibiliza para o canal inteiro. Reunião de pauta já era. Viva o Howdy!

Pausa para uma besteira: um perfil da AP no Twitter publicou acidentalmente uma foto de um GATO VESTIDO DE PIRATA no lugar de um link com uma notícia sobre a cobertura de uma possível invasão do email do diretor da CIA por hackers.

Que coisa maravilhosa.

Falando nisso, textinho do Washington Post justamente sobre isso: quando veículos de notícias publicam coisas acidentalmente. Um dos cases é justamente do WP. Uma confusão na hora de apertar botões do publicador (quem nunca?) colocou no ar uma matéria afirmando que o vice dos EUA, Joe Biden, iria concorrer para ser o candidato democrata para as eleições do ano que vem. Até aquele momento, ele não tinha dito que sim nem que não. Depois disse que não.

Acontece que no meio do caminho, redatores do WP abriram uma daquelas matérias redigidas para CASO ele dissesse que concorreria para embedar um vídeo. Na hora de sair, apertaram publicar. Mesmo que eles tenham demorado apenas três minutos para retirar o material do ar, o estrago já tava feito. Como diz o texto, na internet, três minutos equivalem a toda uma tarde de domingo de folga.

Ok, chega de besteiras.

Na semana passada falei sobre este texto do Andy Carvin sobre jornalistas que trabalham com UGC sofrendo com traumas vicários. Esta semana o assunto seguiu em pauta. Agora com este texto aqui, publicado na First Draft, no Medium. Trata-se de alguns resultados preliminares de uma pesquisa que está sendo feita pelo Eyewitness Media Hub a respeito do tema. Leiam. Dá pra ter uma boa ideia da relevância de uma discussão que ainda passa longe das nossas redações.

Um trecho retirado de um depoimento de um editor entrevistado:

“Você testemunha muito mais traumas com UGC. Você está exposto a um material visual mais intenso hoje do que um cameraman atuando em Sarajevo na década de 1990, porque esse tipo de material está vindo de todos os lugares.”

E adiante.

Matéria do Nieman Lab tenta entender o que um editor mobile faz. Shan Wang, a autora do texto, reuniu depoimentos de jornalistas cujos cargos possuem “mobile” no nome e perguntou quais são as responsabilidades e como é a rotina de trabalho de cada um deles. Os depoimentos são de jornalistas da Bloomberg, BBC, Wall Street Journal e Guardian. Em comum, os relatos sugerem a necessidade de uma postura transversal dentro da estrutura editorial. Isso pode significar desde ir na reunião de pauta ou conversar com o correspondente responsável pela cobertura in loco da crise de refugiados, até manter uma relação estreita com quem desenvolve os aplicativos móveis, preocupando-se com a experiência do usuário.

Deem uma olhada neste OP-ED do NYT escrito por um professor de jornalismo da Universidade de Oregon. Em Who’d Be a Journalist, Héctor Tobar narra as glórias e as agruras da profissão a partir do exemplo de um estudante local. Em um texto curto, Tobar nos lembra porque estamos nessa, apesar de tudo. Um trecho:

“Na nossa sociedade polarizada, a confiança do público na imprensa é a menor de todos os tempos, segundo uma pesquisa recente do Gallup. No meio político, alguns nos acusam de espalhar insidiosas ideias liberais (no Brasil, mais ligadas à esquerda), enquanto outros nos chamam de lacaios a serviço de uma conspiração de direita. O pior são as pessoas que acham que somos os idiotas capazes de fazer um menino chorar ou de chutar um imigrante na busca por uma história.”

Bueno, indo para o final.

Durante a semana o Poynter lançou uma rede internacional de fact-checkers. Os objetivos principais do projeto é pesquisar formatos e tendências para a checagem de dados, fornecer treinamento online e offline para quem trabalha na área e eventualmente liderar algum esforço internacional de checagem de dados.

Junto da notícia do lançamento, o Poynter publicou alguns outros textos sobre fact-checking. Este aqui é um deles, sobre a necessidade de fazer um “chamado às armas” para as comunidades de jornalistas e de profissionais da computação.

Por quê? Alexios Mantzarlis, autor do texto, explica:

“A premissa por trás […] é que o trabalho humano de checagem não é capaz de vasculhar zettabytes de conteúdo sem a ajuda da tecnologia. É preciso que se crie ferramentas que expandam o alcance da checagem e que se tenha consciência de que só uma parcela da checagem é passível de ser feita manualmente”.

Pra terminar, um texto sobre um dos grandes desafios do jornalismo atualmente: desenvolver estratégias de engajamento com o público. Esta matéria publicada na First Draft traz algumas experiências desenvolvidas no master em Social Journalism da CUNY, em Nova York. São cases interessantes para se refletir como o jornalismo pode se envolver com as pessoas, criando um senso de comunidade que às vezes não parece ser possível quando se observa uma caixa de comentários de qualquer matéria publicada na rede. Vale a pena. Leitura animadora para começar o fíndi.

E pra fechar, aquelas coisas rápidas que há tempos não apareciam.

Bueno, era isso então.
Bom final de semana e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório