Buenas, moçada!

Enquanto esperamos a great pumpkin, vamos à edição #69 da NFJ.

Antes de tudo, uma correção. Semana passada falei do projeto Particles, do NYT, especificamente deste texto, publicado no blog da equipe de pesquisa e desenvolvimento do jornal. Quem assina o artigo é Alexis Llyod, uma mulher, e não um homem, como dei a entender no texto. Agradeço ao Pedro Burgos pelo toque.

Pra começar, deixem eu contar pra vocês que a nossa publicação no Medium está oficialmente aberta a colaborações. Digo oficialmente porque já publicamos textos de outras pessoas, mas sempre a convite nosso. Agora, todos podem submeter seus textos. A ideia é incentivar a discussão sobre jornalismo em um canal que vem se mostrando um dos mais interessantes para a troca de ideias.

Para submeter, primeiro é preciso entrar em contato para que a gente adicione o colaborador como writer, o que autoriza a enviar textos. Os conteúdos serão avaliados de acordo com sua relevância e correção. Daremos preferência a artigos que abordem tendências da profissão e a relação entre jornalismo e tecnologia.

O primeiro texto publicado no nosso canal é assinado pelo Pedro Sigaud Sellos, diretor executivo do departamento de comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS) e coordenador do Master em Jornalismo: Gestão Estratégica de Empresas de Mídia. Sigaud Sellos faz um diagnóstico da indústria e propõe três caminhos “que possam oferecer uma rota de escape” ao círculo vicioso no qual o jornalismo está metido. Leia o texto e colabore com o nosso canal no Medium.

Adiante.

Seguimos com esta entrevista com o gerente de produtos do Instant Articles, Michael Reckhow, publicada no Nieman Lab. Na conversa com Laura Hazard Owen, Reckhow fala bastante sobre aspectos técnicos da funcionalidade do Facebook, sobre a relação com os publishers e sobre o futuro do Instant Articles.

Sua fala é marcada por uma preocupação constante em se colocar a serviço dos veículos jornalísticos: “Nós consideramos os publishers que trabalham conosco como clientes para os quais nós precisamos oferecer ajuda sobre como conseguir distribuição e como desenvolver os negócios”. Quando perguntado sobre a concentração de poder que o Instant Articles dá ao Facebook, ele diz o seguinte:

“Nós conversamos muito com os publishers a respeito do que eles querem do Facebook. Eles nos dizem que querem alcançar e engajar novas audiências. […] Com os produtos que estamos desenvolvendo para eles, seja o Instant Articles ou outro produto relacionado a notícias, nós estamos tentando criar produtos que supram ambas as necessidades. É o que nós podemos fazer como plataforma: ser receptivo ao que os publishers querem de nós”.

Avançando no assunto, este texto publicado no Wall Street Journal repercute a entrevista do Nieman Lab chamando a atenção para uma possível diminuição do tráfego dos sites à medida em que o Instant Articles ganha terreno. Jack Marshall, o autor, cita o fato de que, por carregarem mais rápido, os usuários tendem a preferir os conteúdos do Instant Articles, o que, por sua vez, os deixam melhor ranqueados no algoritmo do próprio Facebook. Isso faz com que, claro, links que direcionam as pessoas para outros sites apareçam cada vez menos no News Feed dos usuários.

Avante.

Interessante texto da Zeynep Tufecki sobre trauma vicário, apuração jornalística e a relação entre censura e busca pela verdade nas informações que circulam online.

A reflexão dela é pertinente. Tufecki sublinha o fato de que os responsáveis pela censura sempre atacaram os filtros para colocar em prática sua política. Em geral, os jornalistas, eventualmente a academia. Hoje, atacam a circulação e as narrativas descentralizadas presentes nas redes sociais dizendo que “nada é confiável”. Usando a Turquia como exemplo (ela é turca), a socióloga diz que é comum observar o trabalho de “jornalistas” pró-governo (as aspas são dela) verificando e corrigindo erros em tweets de outros jornalistas e de eventuais opositores, sendo que a maioria desses erros não é importante. Enquanto isso, diz ela, o governo intensifica a pressão para censurar a mídia de massa.

Ela diz:

“O método é este: encontre um erro, mesmo se for um erro menor em um universo de fatos, e diga que todo aquele meio não é digno de confiança e que todas as denúncias da oposição são falsas. […] Fazer circular má informação é uma tática antiga de quem quer suprimir a verdade. Agora, com a multiplicação dos canais de informação, a máxima ‘maus discursos podem ser combatidos com bons discursos” virou de cabeça para baixo. “Bons discursos são combatidos, e afogados, em um mar de maus discursos, e ainda são tachados de ‘hoax’ e ‘photoshop’.”

E segue:

“No momento em que se determina que algo é um hoax, isso é utilizado para negar uma verdade inconveniente. Muitas pessoas normais estão desistindo de tentar discernir os fatos mergulhados em um gigantesco mar de aparente ficção”.

Um breve parêntese. Por isso a importância de iniciativas como o Aos Fatos, que, aliás, está com uma campanha de crowdfunding na praça. Fecha parêntese.

Ela segue o texto dizendo que, para tentar fazer emergir os fatos, passa muito tempo verificando imagens fortes, não raro enfrenta o questionamento de pessoas que duvidam da veracidade de determinadas informações que circulam nas redes. Muitas vezes, ela verifica fotos de crianças, como a de Aylan, o menino sírio fotografado afogado em uma praia turca. Tufecki diz achar que as pessoas que a questionam não querem saber de fato se esta ou aquela imagem são reais. E sim estão questionando o fato de ela estar tentando – indiretamente, claro – ajudar aquelas pessoas, fazendo a verdade a respeito da situação delas emergir.

“Todo o trabalho de verificação digital é parte de um maquinário de desculpas a respeito de por que nós não deveríamos ajudar aquelas crianças.”

Ou seja, diz ela, o mundo ama as crianças, desde que sejam as crianças certas.

Tufecki descobre que, ao trabalhar com checagem digital nesses contextos, ela acaba sendo usada por um maquinário que questiona não porque tem dúvidas reais, mas porque quer deslegitimar um discurso que não é o seu. Ao perceber isso, ela chama a atenção para outra face do trauma vicário. Uma face que não está ligada ao conteúdo das imagens, mas sim a uma verdade mais profunda e que diz respeito à incapacidade das pessoas de enxergarem a alteridade.

Leiam.

Leiam também este texto sobre uma mesa do evento news:rewired, que aconteceu em Londres, reunindo nomes da verificação digital e de conteúdo gerado pelo usuário (UGC). O texto é um apanhado de tópicos que giram em torno do tema eyewitness media. Um deles, aliás, é o trauma vicário. Outra aspecto abordado por eles foi uma discussão que apareceu aqui algumas edições atrás, a propósito do tiroteio em Oregon, nos EUA: a abordagem em tempo real pelas redes sociais de jornalistas a testemunhas que estão vivenciando eventos traumáticos.

Se vocês não lembram dessa discussão, deem uma olhada na NFJ#65.

Sobre a cobertura de Oregon, Beth Colson, produtora da AP, disse que a abordagem da AP foi diferente. Antes de tentar entrar em contato com testemunhas via redes sociais, eles esperaram que o atirador já estivesse fora de ação. “Nós não queremos colocar as pessoas em perigo. Precisamos pensar antes de contatá-las e lembrá-las a respeito da segurança. É muito mais do que dizer ‘se cuidem'”, disse.

A matéria aborda essa questão para refletir como está se dando a construção (ou destruição) da confiança entre veículos jornalísticos e o seu público nas redes.

Diz o texto publicado na First Draft no Medium:

“Todo o trabalho duro para conseguir engajamento da audiência pode ir por água abaixo simplesmente porque os repórteres estão fazendo o seu trabalho, seguindo as mesmas regras de sempre. Então, as organizações de notícias precisam chegar a uma solução juntas, disse Bell [Fergus Bell, um dos fundadores da Online News Association, e que participou da mesa], antes que essas fontes disponíveis online abandonem os jornalistas para sempre.”

Ainda sobre o resultado da conferência, tem este material do Journalism.co.uk com o que pode e o que não pode (dos and dont’s) nas coberturas social newsgathering.

Adiante.

Volta e meia algum jornalista lança uma pergunta nas redes em busca de depoimento e/ou considerações dos seus colegas a respeito desse tema. Essa prática é muito comum entre os sites de metajornalnismo dos EUA, como o Poynter. Recentemente, a jornalista Melody Kramer perguntou a várias pessoas – em várias plataformas diferentes – qual havia sido primeiro contato delas com o conceito de notícias. Neste texto ela traz alguns depoimentos. Interessante ver como hábitos e contextos da infância influenciam o nosso comportamento para vida toda.

Bobinho, mas legal.

Mudando de assunto, deem uma olhada neste texto publicado no blog do Núcleo de Estudos em Jornalismo da UFBA sobre a dissertação de mestrado de Marcia Veiga da Silva, que fez uma análise das rotinas produtivas do jornalismo sob um viés feminista. Eduardo Francisco, o autor do texto no blog, diz que o trabalho “ganha importância por suprir duas lacunas: discute as relações de poder que permeiam o gênero na produção jornalística e é um estudo de newsmaking”.

Marcia passou 11 semanas observando a produção de um importante programa telejornalístico brasileiro (o nome e a emissora não foram revelados).

Diz Eduardo Francisco:

“[…] a autora defende teoricamente (com as teorias do jornalismo e dos estudos feministas pós-estruturalistas) e demonstra a maneira com que a cultura e os valores sociais atravessam a construção jornalística através da subjetividade dos profissionais. […] A tese de Silva é de que os valores sociais da cultura heteronormativa permeiam a produção jornalística pela subjetividade dos jornalistas e, assim, auxiliam na produção e reprodução desses valores, que acabam por contribuir na sustentação da hierarquia social prevista pela heteronormatividade.”

A dissertação virou livro. Uma leitura mais do que propícia para os tempos atuais.

Pra ir finalizando, textinho da Atlantic sobre trabalhar em casa. Working From Home: Awesome or Awful? lista alguns prós e contras de fazer homeoffice a partir de alguns estudos sobre o tema. Como é de se esperar, não há uma resposta definitiva sobre se trabalhar de casa é melhor ou não do que bater ponto no escritório. A conclusão momentânea é que esse tipo de relação profissional ainda está na sua infância. Trabalhadores e empresas ainda precisam aprender muito para azeitar a noção de homeoffice. Dividir o tempo entre o escritório, o lar e algum espaço coletivo porém mais neutro, como um coworking, pode ser um bom começo.

Uma última coisa. Que horas vocês costumam ler a NFJ? Embora eu quisesse muito saber quais são os hábitos de vocês envolvendo a newsletter do Farol Jornalismo, foi uma pergunta retórica para mostrar a Twelve Thirty Six, ou 1236.ca, uma newsletter enviada todos os dias da semana às 12h36, óbvio, por um grupo de comunicação de Toronto, no Canadá. A ideia é aproveitar a hora de almoço, momento em que todo mundo dá uma parada no que está fazendo, para atualizar os leitores sobre o que anda acontecendo na cidade. Segundo disse Marc Weisblott, editor da newsletter, ao Nieman Lab, a tática vem dando certo: 80% de quem abre o email, o faz em até 40 minutos após o envio. E a taxa média de abertura é de 60%.

Pra fechar, apenas uma coisa rápida:

Feito. Partiu sexta-feira.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório