Buenas, moçada!

Tô meio atrasado, eu sei, mas só queria dizer que tô num fuso diferente. É sério.

A edição de hoje foi enviada do campus da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande, onde não tem horário de verão. Tô aqui desde quarta para o 13º encontro da SBPJor. No fim da news faço breves comentários sobre o que me chamou a atenção nesses três dias de evento. Até lá, a NFJ segue seu curso normal. Quer dizer, antes de começar, um pequeno anúncio:

Chegamos à NFJ#70 com uma novidade: um botão para doações. Ele está lá no final da newsletter. Clicando nele, abrirá uma nova aba com uma página do PayPal em que vocês poderão doar – se quiserem – qualquer quantia ao Farol Jornalismo.

A NFJ é gratuita e gostaríamos que continuasse assim, só que, como vocês devem imaginar, produzi-la dá um certo trabalho. É difícil mensurar em horas, já que as leituras se diluem ao longo da semana, mas há um ano e meio minhas sextas-feiras são dedicadas quase integralmente à newsletter. Bueno, fiquem à vontade. De agora em diante o botão vai estar à disposição. Feito? Agradeço desde já. 🙂

Ok, vamos nessa.

Começo convidando vocês a ler o texto do Sérgio Spagnuolo, editor do Volt Data Lab, publicado no Medium do Farol Jornalismo. Sérgio, que se dedica ao jornalismo de dados, levanta uma discussão relevante ao sugerir que veículos de imprensa divulguem os dados utilizados para produzir suas reportagens e/ou infográficos.

Leiam um trecho:

“Grandes veículos jornalísticos acostumaram-se ao padrão impresso de divulgação de suas fontes. Para eles, basta colocar no pé de cada infográfico o nome da fonte, de preferência pequeno. Isso é um comportamento já praticamente arcaico no mundo do jornalismo de dados digital. Jornalistas precisam compreender o poder das referências em suas reportagens, e isso inclui divulgar tabelas utilizadas, dados brutos e links para fontes originais.”

Leiam lá.

Ótimo material sobre o futuro do jornalismo produzido pelo Ezra Eeman, fundador do Journalism Tools, e publicado em duas partes (1 e 2) no Thoughts on Media, no Medium. Eeman reuniu nos dois artigos 12 tendências da profissão, sobre as quais ele sugere 40 questões para que pensemos a respeito. Está (quase) tudo lá.

De jornalismo mobile a curadoria de conteúdo, de novas plataformas de distribuição a jornalismo cidadão, de ferramentas úteis para jornalistas a formas de medição de audiência. Em cada um dos tópicos são expostas dúvidas relevantes e genuínas. As respostas, claro, Eeman não tem. Ninguém, na verdade. E a graça é justamente essa: as questões funcionam como caminhos possíveis a serem seguidos. Ao escolher qualquer um dos tópicos para pensar, precisaremos de alguma forma responder as perguntas relacionadas a ele, e assim vamos moldando o jornalismo.

O título do material é “Is Your Newsroom Future Proof?“. O que de cara me lembra desta música. Deixem ela rolando aí enquanto vocês leem o resto da newsletter.

Uma das perguntas que Eeman faz a respeito do jornalismo cidadão, por exemplo, é qual vai ser o papel do público nos processos jornalísticos, agora que todos podem produzir conteúdo. Sabemos que ainda não há respostas definitivas. Talvez nunca as tenhamos. Talvez o que tenhamos que fazer é prestar atenção nas circunstâncias. São elas que moldarão o papel das “pessoas até há pouco conhecidas como audiência”, nas palavras de Jay Rosen.

Esta entrevista do IJNet com a jornalista síria Zaina Erhaim é um exemplo. Cobrindo a guerra desde Aleppo, ela vem treinando jornalistas cidadãos (principalmente mulheres) para informar ao mundo o que está acontecendo no país, já que a natureza do conflito tornou praticamente impossível a atuação de profissionais.

Uma das respostas de Zaina ao IJNet:

“Eu treino muitas dessas pessoas para se tornarem jornalistas cidadãos porque jornalistas profissionais não conseguem entrar no país. Então o que eu estou tentando fazer é treiná-las para que elas desenvolvam as habilidades que elas obtêm na prática, transformando-as em jornalismo. Trata-se do básico do jornalismo – como escrever notícias, como apurar, como permanecer objetivo em situações como essas, apenas valores jornalísticos muito gerais.”

Adiante mas ainda sobre ferramentas para o jornalismo, deem uma conferida neste post do blog do curso de jornalismo da Folha com trechos da palestra que Ernest Sotomayor, da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, deu na redação do jornal. Pra quem acompanha os rumos da profissão, a fala dele não tem nada de revolucionária. Mas é sempre interessante que alguém reafirme algumas coisas que não podem ser esquecidas. Como esta: tecnologia é apenas uma ferramenta.

Um trecho:

“Nós ensinamos os alunos a fazer boas reportagens e a saber quando a tecnologia pode ser útil. As ferramentas das mídias sociais, por exemplo, ajudam na interação com os leitores. Ajuda a fazer com que as pessoas continuem lendo suas histórias e a conseguir informações a partir dessas pessoas. […] Tecnologia é só uma ferramenta. É preciso saber usá-la de maneira inteligente.”

Falando em treinamento, este link do Observatório Europeu de Jornalismo fala sobre um estudo realizado na Alemanha sobre as dificuldades que o ensino de / treinamento em jornalismo enfrenta para seguir o desenvolvimento da profissão.

E aproveitando o gancho das listas, confiram esta lista de leituras para quem quer desenvolver um pensamento crítico a respeito da tecnologia. Ela foi disponibilizada pela pesquisadora do Tow Center Sara Watson. O projeto de Sara, aliás, vai muito ao encontro do que disse Emily Bell, diretora do Tow Center, em um importante discurso dado um ano atrás no Reuters Institute for Journalism – tema da NFJ#22. Na oportunidade, Emily ressaltou o papel crítico que o jornalismo precisa exercer em relação à tecnologia, de modo a moldar sua evolução às nossas necessidades, e não o contrário. A lista de Sara é uma boa chance para colocar isso em prática.

Adiante.

Esta matéria do Poynter sobre crowdfunding para financiar iniciativas jornalísticas de checagem de fatos traz dicas interessantes para quem quer colocar uma campanha de financiamento coletivo na rua. O site entrevistou Mevan Babakar, do Full Fact, iniciativa britânica que este ano conseguiu arrecadar 33 mil libras (mais de R$ 192 mil). Entre sugestões dadas por ela estão: tentar tornar o produto do “fact checking” o menos abstrato possível (no caso do Full Fact, eles propuseram criar uma “central eleitoral”, onde os fatos das eleições gerais britânicas seriam checados); lançar a campanha perto da época de pagamento de salários; fazer uma pré-campanha para sentir o clima, tentando alcançar 10% do pretendido antes do crowdfunding ir a público; e contar com o apoio de pessoas conhecidas na divulgação.

Falando em crowdfunding e em iniciativas de checagem de dados, não esqueçam do brasileiro Aos Fatos, que está com uma campanha na praça. E ainda sobre crowdfunding, deem uma olhada (e contribuam, se for o caso) na bela iniciativa do jornal Já, de Porto Alegre. O Já, que faz um jornalismo de resistência na capital gaúcha, principalmente em relação à cobertura da cidade, está buscando recursos para produzir uma série de reportagens sobre o Cais Mauá. A revitalização do antigo porto de Porto Alegre vem causando rusgas entre o consórcio de empresas (que quer construir um shopping no cais) e um grupo da sociedade civil organizada (composto por artistas, arquitetos, sociólogos, jornalistas) que busca uma solução que atenda a população, e não apenas aos interesses do mercado imobiliário.

E adiante.

Uma breve notícia do front de batalha pela busca por novas métricas que possam substituir as infames page view (PV) e unique visitor (UV). Diz esta matéria do Poynter que a NPR, nos EUA, está desenvolvendo o Carebot, um índice que vai cruzar várias métricas existentes (inclusive PV e UV) para tentar saber o quanto as pessoas se importam com determinado conteúdo. A ideia é usar dados de empresas de análise de audiência, como Chartbeat e Google Analytics, e de redes sociais, como Twitter e Facebook, em busca de um valor mais equilibrado e justo. A fórmula que vai dar gosto a essa mistura está sendo desenvolvida pela equipe de Brian Boyer, editor visual da NPR. Se a coisa engrenar, o Carebot pode virar uma ferramenta open source, ou seja, livre a quem quiser utilizá-la.

Mudando de assunto.

Vejam que interessante este post da Jane Friedhoff sobre mais um projeto da equipe de pesquisa e desenvolvimento do NYT (duas semanas atrás eu havia comentado sobre o Particles). Trata-se do projeto Membrane, uma tentativa de transformar o conceito de comentar um conteúdo jornalístico, direcionando o leitor a uma intervenção construtiva, que gere uma discussão proveitosa em torno de determinada matéria ou reportagem. Leiam o trecho abaixo e vocês entenderão. É longo, mas vale a pena. E não deixem de conferir o artigo original, pois, além do texto, há gifs que reproduzem a interação possibilitada pelo Membrane.

“Por publicação permeável, nós nos referimos a uma nova experiência de leitura na qual os leitores poderão “dar um retorno” através do próprio meio para fazer perguntas contextuais específicas ao autor. Membrane empodera os leitores com duas novas habilidades: Primeiro, eles podem destacar qualquer parte do texto em uma matéria, selecionar uma pergunta (por exemplo “Por que isso?”, “Quem é este?”, “Como isso aconteceu?”), e submeter a questão à redação, pedindo ao repórter que deixe aquele ponto mais claro. A segunda é que eles podem navegar pelas questões já feitas e respondidas pelo repórter, o que dá a eles o benefício de aproveitar uma discussão que já ocorreu. Quando uma pergunta é respondida, o leitor recebe uma notificação, fazendo com que ele saiba que a redação está preocupada com seu feedback. Dessa forma, as matérias jornalísticas se tornam um canal através do qual as respostas fluem e relacionamentos são construídos.”

Parece massa, hein?

Indo para o fim, confiram este texto do Sérgio Lüdtke publicado no Pulse. Lüdtke propõe uma reflexão a respeito dos paywalls em um contexto classificado por ele como “economia da dádiva”, uma dimensão em que “os usuários colaboram sem esperar necessariamente algo em troca além da possibilidade de usar também, quando e como quiserem, aquilo que foi produzido ou já modificado pelos outros”.

Nesse cenário, Lüdtke sugere que, se os paywalls precisarem existir, que eles sejam transparentes. A transparência traz autenticidade, o que é essencial para que o público aceite as regras da economia de mercado em um contexto de “economia da dádiva”. Isso por um lado, aproxima o leitor do veículo. Por outro, no caso dos paywalls porosos, à medida em que a empatia cresce, a empresa oferece tijolos para o leitor construir um muro que vai, vejam só, separá-lo do veículo.

Bom, disse lá no inicio que esta newsletter foi enviada direto do campus da UFMS, em Campo Grande, onde está acontecendo o 13º encontro da SBPJor. Queria fazer um comentário en passant sobre algumas coisas que me chamaram a atenção. Primeiro, na conferência de abertura, na quarta à noite, o britânico James Curran falou sobre jornalismo e democracia. Pois é, tema amplo. O raciocínio dele passou pela decadência das democracias frente às vontades do mercado financeiro internacional e a tentativa do jornalismo de se adaptar a este contexto. Neste cenário, Curran destacou a importância da estarmos atentos ao papel que o (jornalismo de) entretenimento possui na formação da opinião da sociedade civil. Especialmente no que tange o reforço de esteriótipos culturais e sociais.

Na quinta pela manhã, na mesa “As novas fronteiras do jornalismo”, a professora da USP Roseli Fígaro destacou o fato de o jornalismo não estar conseguindo cumprir o que diz a Constituição brasileira a respeito do direito à informação, no sentido de abraçar essa premissa como sua instituição. O jornalismo ligado a esse contrato, disse Roseli, é sempre adjetivado como “popular”, “alternativo”, “independente”. Quem deveria ganhar adjetivos é o outro jornalismo, disse ela. Um jornalismo que deixa de lado os valores de justiça social, entregando seus valores éticos e deontológicos às forças do mercado, dando voz a clientes e não ao público.

Diz Roseli Fígaro:

“Um jornalista mais fragilizado na sua forma de trabalho atua para clientes”.

Roseli chama a atenção para a gravidade da situação. Mas também destaca os “novos arranjos políticos e organizacionais” do chamado jornalismo independente. “Mas precisamos deixar de chamá-lo de independente. Que jornalismo diferenciado é este? Isso é jornalismo. […] É preciso assumir-se como discurso da sociedade que preza o estado democrático de direito – onde há o direito à informação.”

E é isso.

Três rápidas antes de ir:

Bueno, vou lá porque minha semana ainda não acabou. Mas estou FOCANDO na final do Masters 1000 de Paris, domingo. Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório