Buenas, moçada!

Mais uma sexta-feira em nossas vidas se encaminhando pro fim. No momento em que vocês leem, é provável que eu já esteja tomando uma cerveja num dos copos que mantenho sempre no congelador, esperando a hora de ir pro show do Vitor Ramil que vai rolar hoje, aqui em Porto Alegre, no festival El Mapa de Todos. Sobre o festival, recomendo este post do blog Pampurbana, do amigo João Vicente Ribas, jornalista e historiador que acompanha os movimentos da cultura latino-americana com dedicação. Por uma latino-América para além dos estereótipos, acessem lá.

Bueno, embora meu foco esteja no momento em que vocês leem a newsletter, no meu tempo presente ainda há uma newsletter a ser escrita. Portanto, vamos nessa.

Começo com um dos textos mais comentados no meio jornalístico durante a semana: Tech Is Eating Media. Now What?, publicado por John Herrman, co-editor do The Awl. Herrman desenvolve o argumento de que a tecnologia está devorando a mídia ao refletir sobre o que talvez seja um dos grandes desafios desse casamento recente mas já cheio de DRs: a relação entre duas distintas maneiras de existir. De um lado, uma classe cuja atividade é escrutinar a vida e o trabalho dos outros (especialmente quando o que os outros fazem tem relação com o público); de outro, profissionais que não curtem ver seu trabalho (nem o trabalho dos seus colegas) escrutinado por quem eles consideram outsiders. Em resumo é isso.

Herrman inicia o texto dizendo que, em geral, o domínio da tecnologia vem sendo criticado, seja como algo arrogante ou descarado, seja como algo considerado inevitável. Ele insere sua abordagem e seu raciocínio em uma terceira via:

“Há, claro, uma terceira aproximação a essas críticas e os resultados oriundos delas. De modo a entender as promessas que possam ser mantidas, se possível. Ou as ameaças que são, senão iminentes, ao menos genuínas. Para menos aceitar ou rejeitar, e sim tomar tudo isso como algo muito sério.”

Essa é, em geral, a pegada de quem procura manter a sanidade crítica em meio a um contexto de transformações. Talvez o maior expoente dessa postura seja Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism. No discurso que fez quase um ano atrás no Reuters Institute for the Study of Journalism, ela clamou tanto por uma postura crítica do jornalismo em relação à tecnologia como a necessidade – e os desafios – de as duas áreas se aproximarem. A fala dela está disponível aqui.

Essa relação, diz Herrman, de fato não vem sendo fácil. E, na opinião dele, está encrespando. Especialmente à medida em que a tecnologia vai DEVORANDO a mídia. Ele cita o caso NYT vs Amazon como exemplo. Vocês devem ter visto a matéria do Times sobre como é trabalhar na gigante de Jeff Bezos. Digamos que a reportagem está longe de passar a mão na cabeça da Amazon. Obviamente, a empresa não curtiu muito e saiu em defesa dos seus interesses. Uma dessas defesas foi feita pelo Jay Carney, ex-porta-voz da Casa Branca e atualmente vice-presidente sênior da Amazon para, digamos, questões corporativas mundiais, na tradução livre. Carney usou o Medium para responder ao NYT, questionando o tipo de jornalismo feito pelo Times, sugerindo que o repórter foi “desleixado”.

Ao levar a questão para o Medium, defende Herrman, fazendo com que o editor-executivo do jornal também publicasse sua resposta lá, a Amazon “assumiu o controle da conversação, se não para si, ao menos para longe das mãos do Times”.

Para Herrman, a coisa é séria:

“Isto é mais do que uma resposta ou uma negação [do conteúdo da matéria]. É uma tentativa de repúdio institucional – uma inoculação contra futuras coberturas não apenas de uma publicação, mas de todas elas”.

Para ele, esse comportamento da indústria de tecnologia – que, no caso da Amazon, também possui nada mais, nada menos que o Washington Post – aguça a crise existencial da mídia em um momento em que ela depende desses grandes players para distribuir seu conteúdo. O que, também sabemos, vem transformando a relação dos anunciantes com os publishers. A preocupação de Herrman – e o caso da Amazon demonstra isso – é que essa mudança pode fazer com que todo o jogo midiático / jornalístico passe a funcionar com as regras dos novos dos da bola.

E aí a coisa enfeia.

Como o texto circulou muito, também surgiram várias respostas a ele. Uma delas foi escrita pelo professor Clay Shirky. Ele sustenta que “uma fonte chave para a ansiedade da atual transição” é o papel dos anunciantes. Segundo Shirky, a maneira como as coisas eram até tudo mudar nunca funcionaram para eles.

“A essência da relação era que os anunciantes precisavam de determinadas publicações, mas as publicações não precisavam de determinados anunciantes. Isso permitiu que jornais e TVs em todo o país cobrassem demais dos anunciantes, mas também, e isso é grave, não garantissem a eficácia do anúncio.”

O lance mudou de figura quando o AdWords, do Google, entrou na jogada, escreveu Shirky. Com a ferramenta oferecida por um parceiro atento às demandas dos anunciantes, foi possível perceber o fracasso que era – em termos de eficácia – anunciar do jeito antigo. Pagando menos, tiveram resultados melhores.

Então é o seguinte:

“Imagine que você seja dono de uma Grande Plataforma. No fim do dia, se você tivesse que decidir um conflito entre um anunciante, que faz com que você ganhe dinheiro, e um veículo de notícias, que não faz você ganhar nada, o que você faria? Um ambiente jornalístico onde o publisher […] tem um incentivo para tratar anunciantes como parceiros valiosos, e não reféns econômicos, é o novo problema.”

Ainda no campo econômico, tem essa outra resposta, escrita por Chris Mohney.

Adiante.

Lembram do Hossein Derakhshan? Ele é um blogueiro iraniano que escreveu “A web que temos que salvar” após ter sido libertado da prisão no Irã. Ele ficou seis anos preso por suas atividades online. Na saída, descobriu que a web que ele conhecia não era mais a mesma com a ascensão das redes sociais. Falei sobre este texto na NFJ#56. Pois ele publicou mais um, também no Medium, mas agora no Thoughts on Media. A premissa é a mesma. A diferença é que agora ele se pergunta se o Google vai ser capaz de salvar a internet dos links – a web ameaçada pelo império Facebook e sua batalha por se tornar sinônimo da própria internet.

Falando em Facebook, vocês viram que o Mark lançou um app de notificações? É o Facebook entrando no ramo dos aplicativos de breaking news, mas, né, daquele jeito Facebook de ser: abocanhando tudo. Usando o Notify, o usuário pode receber notificações sobre vários assuntos diferentes, de notícias à previsão do tempo, de esportes a imagens antigas daquele dia na história. Cada um desses assuntos possuem fontes específicas. Notícias cabe à CNN e à Fox News, por exemplo. O post de anúncio do aplicativo diz que, além das “estações” – que é como eles tão chamando os canais – pré-programadas, “o Notify sugere outras estações de acordo com o perfil do usuário no Facebook. Tá certo. Ainda não consegui testar porque não está disponível na App Store brasileira. Ou não rola pro meu iPhone 4. Sei lá.

Adiante com alguns links sobre verificação e fact-checking.

O primeiro é um artigo assinado pelo web designer Chris Blow sobre a importância de se pensar o design de iniciativas de checagem de fatos e verificação digital. Ele defende a importância do aspecto visual do conteúdo que busca separar fatos de ruídos e desinformação, especialmente nas redes sociais. O texto é resultado de uma apresentação feita no encontro da ONA deste ano e é um pouco longo. Mas é interessante para conhecer iniciativas (pontuais ou sistemáticas) de checagem de fatos e verificação. Além, claro, da análise em relação aos seus aspectos visuais.

Para seguir na questão do design, leiam este texto do Eliot Higgins, do Bellingcat, sobre como as plataformas Checkdesk e Silk vêm ajudando não só a verificar UGC, mas também a apresentá-lo visualmente durante processos de verificação.

Aqui, um texto sobre o potencial a ser desenvolvido nas escolas de jornalismo a respeito da verificação digital, da apuração de conteúdos gerados por usuários e da checagem de fatos. Josh Stearns, o autor, perguntou a vários professores de jornalismo norte-americanos sobre o atual status desses assuntos nos currículos das faculdades em que lecionam. Três coisas me chamaram a atenção nas respostas. Primeiro, a dificuldade de ensinar verificação digital. O bom é aprender a partir de exemplos práticos, estudos de caso. Segundo, a falta de conhecimento dos professores. Terceiro, o fato dessas práticas, quando ensinadas, muitas vezes estarem divididas entre as disciplinas de apuração e produção e as de ética.

Uma frase de Stearns que resume a questão:

“A pesquisa foi pequena e carente de cientificidade, mas, baseando-se nos seus resultados e nas entrevistas que eu conduzi, é claro que, enquanto muitos estudantes estão tendo a possibilidade de discutir a respeito de conteúdo gerado por usuários (UGC), poucos têm a oportunidade de receber um bom treinamento sobre os desafios éticos e técnicos, bem como as oportunidades desse tipo de conteúdo”.

Pra terminar o bloco sobre verificação e fact-checking, conselhos da Storyful para verificar material coletado nas redes sociais. Bom começo para começar a praticar.

Falando em Storyful, este texto do Nieman Lab conta como a agência está usando o Slack para se comunicar com seus clientes, inclusive distribuindo conteúdo através do comunicador. Como tem muita gente usando o Slack (mais de 1,25 milhão de usuários diários), ficou mais fácil para a Storyful avisar seus clientes sobre algum breaking news (sua principal atividade) por ele, e não mais por um dashboard externo. Um robô faz a integração e avisa quando algo acontece em tópicos que o usuário seleciona, como eleições nos EUA ou notícias sobre o clima, por exemplo.

Premissa simples e interessante a dessa materinha do Poynter: como as pessoas que não trabalham com jornalismo consomem notícias? Melody Kramer vem perguntando para algumas pessoas sobre seus hábitos informativos. Algo que ela sugere que, nós, trabalhadores da mídia, façamos em nossos círculos próximos.

O texto traz algumas respostas. Particularmente, achei os entrevistados bastante preocupados com informação e muito hábeis na hora de manejar as ferramentas e / ou canais disponíveis. Às vezes até demais. Teve até gente que disse usar RSS para ler notícias! De qualquer maneira, sublinho a premissa. Seria bom fazer essa pergunta de vez em quando para pessoas fora do círculo jornalístico, não acham?

Pra ir finalizando.

Não sei se vocês viram, mas durante a semana publicamos mais um texto no canal do Farol Jornalismo no Medium. Assinado pelo colega Igor Carrasco, que atualmente está fazendo um mestrado em futuro do jornalismo na New York University, “ZH Tablet, aposta e incógnita” discute as novas iniciativas do jornal Zero Hora para tentar migrar seus leitores / usuários do papel para o digital. Confiram!

E ainda, vocês viram que foi lançada nesta semana a Agência Mural de Jornalismo das Periferias? A agência é a evolução de um blog hospedado na Folha de S.Paulo desde 2010 que cobre a periferia de São Paulo a partir de uma “visão de dentro”, como disse a Natalia Mazotte neste post no blog do Knight Center. Capitaneado pela jornalista Izabela Moi, o conteúdo é produzido por uma equipe “muralistas” – que é como são chamados os correspondentes locais, a maioria estudantes de jornalismo -, com o objetivo de “dar espaço a novas vozes na grande mídia e refletir a complexidade de regiões desconhecidas para a maior parte dos leitores”.

Por fim, hoje temos algumas coisas rápidas.

Bueno, era isso então. Talvez eu abra uma cerveja AGORA. Ou daqui a pouco.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório