Bom dia, moçada!

Hoje é cedinho.

Antes de qualquer coisa, uma correção. Na NFJ da semana passada, na discussão sobre o texto Tech Is Eating Media. Now What?, falei que a Amazon é a dona do jornal Washington Post. Bueno, não é. O dono é Jeff Bezos, fundador da Amazon. Como me alertou o assinante Sergio Filho, pode parecer uma trivialidade, mas não é. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Obrigado, Sergio, pelo toque.

Ok, vamos nessa.

Quer dizer, na real nem sei bem por onde começar. Desde que enviei a NFJ#71, parece que passou um ano, de tanta coisa que aconteceu desde sexta passada.

Não cheguei nem perto de conseguir acompanhar os desdobramentos dos ataques em Paris (semana e fim de ano complicados, mais notícias no fim da newsletter). Falo das notícias em si, mas também das repercussões sobre a atuação do jornalismo, que é o que nos interessa mais. Pelo que vi, duas questões permearam as discussões. Primeiro, o questionamento, por parte do público, à demasiada atenção dada pela imprensa aos acontecimentos da capital francesa quando comparada à dispendida em outros atentados, como o de Beirute, ocorrido um dia antes. Segundo, reclamações, também por parte do público, da pouca cobertura ao episódio de Mariana – que já vem sendo considerado a maior tragédia ambiental brasileira – comparada à avalanche noticiosa sobre a tragédia na França.

Enquanto a primeira questão é global, a segunda é local. Ambas expõe um ponto-chave para o jornalismo nos últimos anos: a necessidade de prestar contas ao seu público. Não que antes isso não fosse uma preocupação. Mas agora o público está de fato falando / reclamando. E em tempo real. Mas isso vocês estão cansados de saber. Quero dizer é que o papo tá interessante. Embora às vezes tenhamos que nos esforçar para conseguir enxergar o que está atrás do bate-boca.

Foi isso, aliás, que tentou fazer Max Fischer, do Vox, neste texto em que ele se pergunta se foi o jornalismo ou se foram os leitores que ignoraram o atentado em Beirute ocorrido um dia antes. Ele demonstra uma vontade genuína de tentar entender a raiva da audiência ao acusar a mídia de dar mais atenção a um atentado do que a outro. Ou, no caso, de dar atenção somente a Paris, e nenhuma a Beirute.

No início do texto, Fischer mostra um tweet que, segundo ele, teria sido um dos mais retuitados na última sexta, no qual o autor diz que a imprensa não cobriu os atentados no Líbano. Uma foto de uma grande explosão ilustra a postagem, que teve mais de 57 mil RTs (até sexta). De cara, a credibilidade da reivindicação ao apontar sua fragilidade narrativa. Faz isso de duas formas. Primeiro, diz que a foto em questão não é de agora, e sim de 2006, durante a ofensiva de Israel ao Hezbollah. Segundo, joga no colo dos leitores um monte de links de outros veículos sobre a cobertura do atentado em Beirute.

É uma maneira de dizer, ei, leitor, cala a boca e vai te informar melhor antes de ficar falando merda nas redes sociais. Mas, claro, ele foi muito mais sutil e educado:

“É difícil, como jornalista, não ver ironia nas pessoas repreendendo a mídia por não cobrir o atentado em Beirute compartilhando um tweet com tantas imprecisões – as pessoas só saberiam que aquela foto não é verdadeira se tivessem acompanhado a cobertura que, de forma raivosa, elas insistem em afirmar que não existe.”

Já acabou, Jessica?

Não. Fischer fala também daquela voz interna que todos nós, jornalistas, já ouvimos, especialmente os que já trabalharam em portais de internet, quando produzimos um conteúdo sobre algum assunto sério: “ninguém vai ler isso”. Em seguida, diz que as pessoas têm a tendência de “começar uma narrativa que elas acreditam ser verdadeiras, e depois buscam fatos que a comprovem”. Em geral, falham em fazer isso. Justamente porque não são jornalistas, e não conseguem (ou às vezes de fato não querem, esculhambando tudo de propósito) apoiar sua narrativa em fatos.

A foto do Líbano é um exemplo, diz Fischer.

Mas a narrativa tende a ser verdadeira. E ela diz o seguinte: “o mundo dá menos atenção ao sofrimento de não-ocidentais”. O que é absolutamente correto, diz ele. Fischer se diz simpático à irritação do público. E busca um discurso que tenha coerência por trás das manifestações imprecisas e injustas dos leitores:

“A verdadeira questão por trás dessa crítica não é a mídia. É a impressão de que o mundo ignora o trauma de Beirute, assim como ignora traumas similares em todo o planeta se eles ocorrem nos lugares errados; de que o mundo não oferece a mesma compaixão às vítimas que vivem às margens dos países ocidentais ricos.”

This is entirely correct, como diz Fischer. E o que podemos fazer sobre isso?

Não sei.

Mas vamos buscar subsídios para tentar entender a situação. Para isso deixem-me recorrer a uma citação de Mark Deuze no texto Journalistic Drama, que já andou aqui pela newsletter, mais especificamente, a NFJ#28:

“Considero os jornalistas como profissionais bem intencionados, ambiciosos e trabalhadores – funcionando dentro de um jornalismo que é domínio de uma restrita elite social, que, em função de sua própria homogeneidade, já não critica completamente a si própria. Isso se reflete no modo espasmódico que o jornalismo lida com a sociedade multicultural – tanto na redação como no noticiário.”

Talvez um primeiro passo seja de fato estabelecer um diálogo com o público. Se vai funcionar, também não sei, mas é o que está ao nosso alcance. Ainda que não seja muito fácil pra nós. É difícil dialogar de igual para igual com um sujeito (o público) que repassa boatos e usa uma foto de 2006 para ilustrar um atentado da semana passada. Mas não tem outro jeito. É isso que Álisson Coelho, meu colega de doutorado na Unisinos, argumenta neste texto publicado no canal do Farol Jornalismo no Medium. Ele pesquisa justamente a interação entre jornais / jornalistas e leitores. E o “problema”, diz ele, é uma questão cultural da profissão:

“Do que pude perceber através de entrevistas e observação das rotinas de produção dos jornais, nenhuma redação é imune ao zumbido das redes. Os jornais já têm equipes para monitorar esses feedbacks, mas o uso que se faz desse contato ainda é restrito. E notei algo que de certa forma me chateia como repórter. O dar de ombros à opinião dos leitores é, em muitas vezes, uma opção dos profissionais da redação, e não diretriz instituída pela empresa. É um problema cultural dos próprios jornalistas.”

No fim do texto, Álisson faz um comentário a respeito de a Zero Hora ter anunciado, em um post no Facebook, que estava recebendo muitas críticas por não dar, segundos os leitores, a atenção devida à tragédia de Mariana, e que uma equipe do jornal estava viajando a Minas Gerais “sem data para retorno”. Embora a ZH não relacione as críticas dos leitores ao envio dos jornalistas à cobertura do rompimento da barragem, é difícil não chegar à conclusão – como chegou Álisson – de que os ombudsman de Facebook conseguiram algum tipo de resultado com o gritedo.

Taís Seibt, jornalista e professora da UFRGS, endossa esse argumento neste texto, também publicado no nosso Medium. Ela reflete sobre a atenção dada pelo jornal às duas tragédias (Mariana e Paris, tomando o cuidado de não compará-las diretamente). Em ambas a ZH enviou seus correspondentes. Mas olhou primeiro para a Europa, ainda que a tragédia de Minas Gerais já tivesse uma semana quando Paris viveu o terror do dia 13. O que está em discussão é, portanto, o tempo de reação do jornal: “Mariana veio primeiro e já tinha dado tempo de sobra para ser enquadrado jornalisticamente como um fato relevante quando o terror assombrou Paris”, escreveu ela. De fato, na semana passada e durante o começo desta, Mariana só esteve na capa do jornal, segundo constatei, no dia 7 (sábado) e no dia 13, enquanto no Facebook já era possível recolher alguns relatos de moradores e especialistas da área dando a dimensão da maior tragédia ambiental do país.

Os leitores perceberam isso e gritaram. A ZH ouviu e prestou contas.

Uma conclusão óbvia na metade da newsletter é que está muito mais difícil fazer jornalismo hoje, com toda essa gente falando. Mas vamos nessa, nosso trabalho é tentar estabelecer algum tipo de comunicação entre as pessoas. E isso é foda.

Não foram poucas as vezes em que falei aqui sobre abrir o jornalismo. Escancarar (ainda mais) nossos critérios e processos para que o público os entenda e tenha condições de interferir com mais propriedade no nosso trabalho, se for o caso. Foi o que o Washington Post fez neste texto sobre os critérios de noticiabilidade na cobertura de Paris assinado por Brian J. Phillips, professor do Centro de Investigación y Docencia Económicas (CIDE) e pesquisador de terrorismo.

O artigo é direto e didático. Explica por que os atentados de Paris receberam mais atenção da mídia enquanto ninguém dá bola para as explosões quase diárias que acontecem em outros lugares do mundo. Para fazer isso, ele responde à pergunta: o que é notícia? Então, Phillips define notícia da seguinte forma:

“Primeiro, ‘notícia’ é geralmente considerado algo especialmente inusual. O truísmo jornalístico aponta que “um cachorro morder um homem” não é notícia, mas que “um homem morder um cachorro” é. Não se trata de um julgar se uma mordida de um cachorro importa; trata-se de um julgamento sobre o que é surpreendente.

Segundo, veículos de notícias são influenciados por seus consumidores. Seres humanos são especialmente interessados em eventos que os afetam pessoalmente. Se os leitores / espectadores desses veículos sentirem que um acontecimento possui implicações para eles, este evento receberá uma cobertura mais importante do que eventos com menos probabilidade de afetar a vida da audiência.”

A partir disso, ele enumera os critérios de noticiabilidade que fizeram Paris chamar tanto a atenção da imprensa mundial: a capital francesa é destino principal de turistas; civis se tornaram alvos de táticas chocantes; talvez o Estado Islâmico esteja abrindo um novo front de batalha; o ataque foi complexo e coordenado.

Hoje a newsletter vai ser mais longa.

Aqui tem um link do Huffington Post que reúne outros links sobre o tema. A discussão segue naquela vibe: “Dizer que a mídia não cobre outros atos de terrorismo é mentira, basta dar um Google. São vocês, leitores, que não leem nada, e só se importam quando acontece algo em uma cidade como Paris.”

De novo: This is entirely correct. Mas segue me interessando a dúvida de Fischer, ou melhor, o interesse pela irritação das pessoas. Sabemos que o mundo é injusto e que, sim, choramos as mortes de um mais do que as mortes de outros. Talvez possamos conduzir a linha de raciocínio a partir da constatação de que isso não é natural, não foi simplesmente dado. Essa narrativa foi construída. Ao longo de muito tempo, mas foi construída. Vários tipos de sujeitos sociais participam dessa construção. É algo que transcende o jornalismo. Mas não nos impede de nos fazermos a seguinte pergunta: qual é a nossa responsabilidade, como meios de comunicação, na construção dessa realidade? E como podemos agir para melhorá-la? Essa talvez seja a questão. Pode ser que seja isso que o público está tentando nos dizer ao nos xingar, ironizar e apontar o dedo para o nosso trabalho.

É mais ou menos isso que sugere o professor de jornalismo da Universidade de Estocolmo Christian Christensen ao questionar o critério “proximidade” como o fiel da balança. Ele diz que, sim, as pessoas não estão lendo as notícias sobre Beirute, Bagdá ou qualquer outro lugar que, em geral, fica envolvo em uma “névoa obscura” até que algo catastrófico aconteça. Mas isso tem um motivo. Ele acredita que esse motivo diz mais sobre o produto do que sobre o público ao qual ele é destinado.

Leiam um trecho em que ele se pergunta por que as vítimas dos inúmeros atentados ocorridos diariamente viram estatísticas, enquanto os de Paris têm suas histórias conhecidas – o que ajuda o público a estabelecer uma relação de proximidade:

“Eu não conheço as pessoas em Paris, assim como eu não conheço as pessoas em Bagdá ou em Beirute. Mas alguns se tornam mais do que estatísticas, enquanto outros permanecem como números. É uma escolha, e essa escolha vem se repetindo. Assim, o desinteresse dos consumidores de notícias nesse tipo de cobertura talvez tenha algo a ver com o repetitivo enquadramento impessoal desses eventos em comparação a acontecimentos “mais próximos de casa”, onde os fatos são colocados em um contexto pessoal, fazendo com que as histórias engajem mais e tenham um senso de conexão maior a longo prazo.”

Ainda no mesmo assunto, não podemos perder de vista o papel das redes sociais, em especial o Facebook, na impressão que as pessoas têm da cobertura midiática.

Peguei este trecho escrito pela londrina Emma Kelly, repórter do Daily Star Online, em mais um texto em resposta à “falta de cobertura” de outras tragédias:

“‘Por que a imprensa não cobriu *insira o país aqui*?’ parece ser uma versão curta de ‘Por que essa história não foi compartilhada extensivamente no meu Face?'”

Pois é. Mas isso é outra história. Deixo com vocês este post da BBC sobre a explosão de audiência agora de uma matéria sobre o ataque a uma universidade queniana publicada em abril. Segundo a BBC, as pessoas compartilharam ou porque acreditavam que se tratava de mais um ataque (leitor que não olha a data da matéria, que típico), ou porque queriam criticar a cobertura ocidental em Paris.

Deixando o Facebook para outra hora, deem uma olhada neste texto, na verdade uma carta ao mundo escrita por Sarah Jameel, uma estudante de odontologia cingalesa. Dirigindo-se especialmente a Paris e a Beirute, Jameel conta como foi crescer no Sri Lanka, um país que tem 365 dias de sol ao ano e sobre o qual nada sabemos. Ao menos até ler sua carta. Nela, Jameel, relata como foi viver em um país que viveu em guerra civil durante 30 anos após ter se libertado da colonização portuguesa, francesa e inglesa. Até completar 18 anos, quando o conflito terminou, o terror fez parte do seu cotidiano. Aprender a se proteger era ensinado na escola.

Um trecho:

[…] eu fiz parte de uma geração que nasceu e cresceu durante a guerra, e, embora eu nunca tenha estado no front de batalha, os efeitos de três décadas de atrocidades em massa farão parte da minha infância para sempre. Viver em uma cidade cosmopolita como Colombo não significava estar segura, então eu sei como é ir para a escola todos os dias e não saber se eu voltaria em segurança para casa, ou se meus pais voltariam do trabalho inteiros.”

A carta de Jameel dá rosto a uma pessoa que sofreu com o terrorismo durante 18 anos da sua vida. Ela é uma estudante de odontologia que escreve em inglês e cita Harry Potter no seu texto. Podia ser qualquer um de nós. Embora o seu cotidiano como cingalesa esteja bem longe da nossa experiência ocidental.

Só que não foi por meio do jornalismo que eu cheguei ao relato de Jameel. Foi através de uma plataforma de publicação. Com isso, não quero dizer que a imprensa ocidental (já que não tenho conhecimento linguístico para explorar a mídia cingalesa) não possa me oferecer este conhecimento. Pode. Mas o fato de eu chegar a esta narrativa a partir de uma tecnologia e o texto ser assinado por uma estudante de odontologia diz algo sobre o nosso querido jornalismo. Ou tô viajando?

Olha, daria pra seguir falando sobre a atuação do jornalismo nos atentados de Paris por mais 15 mil caracteres, mas vou parar por aqui. Até porque não consegui ler todo o material que separei. Semana que vem talvez eu fale um pouco sobre os rumores que se espalharam em tempo real durante a cobertura do dia 13.

Ok, não me aguento. Espero que vocês, sim, aguentem mais algumas centenas de caracteres. Deem uma olhada apenas neste aqui, escrito pela Claire Wardle, sobre a necessidade do jornalismo agir mais nesse tipo de situação. Segundo ela, algumas matérias no estilo “xx rumores sobre os ataques em Paris que você não deveria acreditar” não são suficientes. E que plataformas como Twitter, Snapchat e Facebook talvez devam se preocupar com isso também, afinal, elas têm, sim, responsabilidade editorial em relação à curadoria que realizam.

Pra fechar de vez, leiam um trecho do texto que se relaciona com a discussão que permeou toda esta edição da NFJ, a construção de uma visão do mundo:

“Nessas situações, informações falsas têm o potencial de impactar o pensamento das pessoas a respeito das outras pessoas, a respeito de outras raças, de outras religiões. Isso é mais do que assegurar que jornalistas verifiquem o conteúdo antes de publicar. Isso é sobre fazer o que for possível para assegurar que informações falsas perigosas sejam contidas o mais rápido possível.”

Sexta que vem voltamos à programação normal. E com mais repercussões sobre a tragédia de Paris, provavelmente. Agora vou ali pegar um avião para Vitória da Conquista, onde darei um curso sobre jornalismo e redes sociais da Universidade Estadual do Sul da Bahia (UESB) no sábado e no domingo. Espero que seja um final de semana produtivo. Aliás, como foram os quatro sábados do curso Jornalista 3.0, que conduzi em parceira com o Alexandre de Santi, da agência Fronteira, na PUC aqui do Rio Grande do Sul. Tá puxadinho, mas tá massa. Depois disso, é montar a árvore de Natal e esperar 2016 chegar tranquilito no más. Feito?

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório