Buenas, gurizada!

A newsletter da semana passada foi enviada bem cedo porque eu tinha que pegar um avião para Vitória da Conquista, onde iria ministrar curso rápido de jornalismo e redes sociais na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). O curso foi ótimo e eu só tenho a agradecer à hospitalidade conquistense. Pois bem, hoje a newsletter foi enviada bem tarde porque participei até horas atrás do 5º Encontro de Ubiquidade Tecnológica, evento organizado pelo Grupo de Estudos em Ubiquidade Tecnológica (UBITEC), vinculado à pós-graduação em Comunicação da PUCRS.

Perdoem a inconstância no horário de envio.

Dito isto, vamos lá.

Começo com o lançamento do Nexo, “um jornal digital para quem busca explicações precisas e interpretações equilibradas sobre os principais fatos do Brasil e do mundo”, segundo eles próprios. Ainda não consegui dar uma boa olhada no material disponibilizado no site. O que consegui ver foi este vídeo sobre o tamanho da crise econômica brasileira. Achei interessante. Sugiro que vocês deem uma olhada.

A quantidade de conteúdo produzido por eles já é bem significativa, se levarmos em conta os poucos dias de vida. Observando o tamanho da equipe, dá pra entender. São 25 profissionais de diferentes áreas. De jornalistas a desenvolvedores. O investimento deve ter sido alto. Segundo o Portal Imprensa, o acesso ao Nexo será gratuito no início. Depois, será fechado a assinantes a uma mensalidade de R$ 12.

Passamos do Nexo a mais uma iniciativa jornalística lançada nesta semana, a Thoughts on Media, “uma nova comunidade de publicação” no Medium. Pelo que entendi, o que é novo é uma abertura do canal a colaboradores que queiram compartilhar seu pensamentos sobre o futuro do jornalismo e da mídia, pois a Thoughts on Media EM SI já existia faz um tempinho. Bueno, de qualquer maneira, é mais um canal que está aí, à nossa disposição, seja para ler, seja para colaborar.

Um trecho que resume a ideia:

“Somos diferentes de publicações no Medium como a Matter, que faz um belo trabalho compartilhando um jornalismo editado e bem finalizado. A intenção desta publicação é ser uma comunidade de discussão. Nos entusiasma publicar histórias longas e bem acabadas – mas também nos entusiasma publicar fluxos de consciência e pedaços de pensamento.”

Aproveitem e confiram o que rolou durante a semana na Thoughts on Media.

Outra novidade interessante que surgiu esta semana foi o site do First Draft News, resultado de uma união de forças de várias iniciativas jornalísticas especializadas em fact-checking e verificação digital. A ideia é “instrumentalizar jornalistas com o conhecimento e as ferramentas necessários para encontrar e usar conteúdos gerados por usuários de maneira precisa e ética”, segundo o Journalism.co.uk.

Até então, o First Draft News funcionava como uma publicação no Medium, reunindo esse tipo de conteúdo jornalístico produzido por outros canais. O site entrou no ar num momento propício – os dias subsequentes à cobertura dos atentados de Paris, quando o jornalismo em tempo real foi mais uma vez colocado em teste pela movimentação em rede. Não só porque várias informações referentes aos ataques surgiram nas redes sociais, mas principalmente porque rolou muita desinformação durante os momentos mais críticos daquela sexta-feira 13.

Quem está por trás do First Draft News é gente grande. A iniciativa é financiada pelo Google News Lab e tem como parceiros, só pra ter uma ideia, Storyful, reported.ly, Emergent.info, Eyewitness Media Hub e Bellingcat. É para favoritar e acompanhar.

Falando em UGC, seguem aparecendo repercussões sobre a cobertura de Paris. Sugiro fortemente a leitura desta aqui, publicada no canal do Fist Draft News. Trata-se de uma análise do comportamento do jornalismo / jornalistas franceses durante a cobertura do 13/11 após as lições aprendidas em janeiro no massacre no Charlie Hebdo. Dois dos entrevistados são Samuel Laurent, editor do Decodeurs, canal do Le Monde para checagem, verificação, e jornalismo de dados, e Julien Pain, editor-chefe do canal France24 Observers, que opera de maneira semelhante.

Em um momento em que todos produzem conteúdo, Laurent falou do pânico causado por rumores espalhados pelas redes sociais durante uma homenagem na Praça da República, em Paris, como exemplo da necessidade de uma educação para a mídia. “Se você estivesse no Twitter, você veria que isso ajudou a espalhar o pânico, pois informações davam conta de tiros. Isso amplificou o pânico. É importante entender que compartilhar não é mais algo virtual. É real. Possui um efeito real, na vida real”, disse ele a Alastair Reid, um dos editores do First Draft.

Sobre o aprendizado dos veículos franceses após o Charlie Hebdo, separei um trecho do texto que considero bastante significativo. Olhem só:

“Depois de todos os rumores, hoaxes e mentiras nos ataques de janeiro passado – amplamente vistos como uma agressão ao jornalismo, à liberdade de imprensa e à liberdade de expressão – muitos jornalistas franceses foram convidados às escolas. Eles explicaram o processo jornalístico às crianças e aos adolescentes: os aspectos fundantes da mídia, o questionamento às fontes e a checagem de informações.”

Taí algo que volta e meia aparece nas discussões aqui em casa: a necessidade, hoje, de uma educação para o jornalismo e para as mídias desde a escola. Porque, né, a internet deixou de ser apenas uma ferramenta há um tempinho. Ela faz parte das nossas vidas, independentemente do uso que fazemos dela.

No caso da França, esse esforço inicial parece ter dado resultados. Um gráfico de uma pesquisa do Gallup mostra que a confiança dos franceses na imprensa aumentou nos últimos dois anos, enquanto nos EUA e no Reino Unido os índices caíram. No caso dos sites especializados, os resultados são ainda mais significativos. Os perfis no Twitter dessas iniciativas são seguidos por dezenas e milhares de pessoas. Essas iniciativas, diz a matéria do First Draft, estão “se tornando os veículos escolhidos por aqueles desiludidos com a mídia status quo, que parece não fazer nada para parar a podridão” que se espalha pela rede.

Massa. Leiam. Ou se quiserem aprender mais sobre verificação, um post do Poynter com seis dicas para trabalhar jornalisticamente nesse tipo de situação.

Aproveitem o embalo e confiram também este texto, publicado pela Storyful sob o guarda-chuva do First Draft News com detalhes sobre a busca, nas redes sociais, por informações de um dos terroristas envolvidos nas ações no dia 13, Bilal Hadfi. O material mostra como a agência agiu para encontrar dodos a respeito do jovem de 20 anos que se explodiu em frente ao Stade de France. Um tarefa de corrida contra o tempo, já que as empresas de redes sociais começaram a derrubar, um a um, perfis que poderiam ter alguma conotação pró-Estado Islâmico. (Aliás, ainda não li, mas aqui tem uma matéria da Wired sobre por que o Facebook e o Twitter não podem simplesmente retirar do ar contas do Estado Islâmico).

Ainda sobre a França, leiam este bom texto do professor da pós-graduação em Comunicação da Unisinos Ronaldo Henn sobre a constituição das identidades em rede a partir dos acontecimentos de Paris. Henn reflete como, em tragédias dessa magnitude, o nosso eu acaba se transformando em “puro efeito dramático”, pois “diante de uma multiplicidade de referências, as pessoas meio que se inventam publicamente”. Nos transformamos, diz ele, em algo performático, fingido inclusive.

Um trecho:

“[…] aquilo que compreendemos como eu são representações construídas através dos vínculos que formamos com as ofertas simbólicas que abundam ao longo de nossas vidas. Somos o que pensamos ser e, às vezes, o que fingimos ser.”

Pra finalizar o assunto Paris, se vocês quiserem retomar a discussão da semana passada, colocando mais lenha na fogueira, confiram este texto aqui. O autor, Suman Deb Roy, é cientista de dados e se interessa bastante por algoritmos capazes de analisar comportamentos sociais em rede. Pois bem, ele colocou na ponta do lápis as coberturas de Paris e de Beirute, e chegou à conclusão que, sim, Paris recebeu muito mais atenção do que os atentados na capital do Líbano, um dia antes. É interessante verificar como ele tratou a questão. Inclusive não apenas em relação à cobertura midiática, mas também em relação a atenção que o público deu para ambos os ataques. E, sim, os ataques de Paris receberam muito mais atenção do público. Só para ter uma ideia, os links compartilhados no Twitter relacionados aos ataques de Beiture, diz ele, receberam apenas 5% da atenção dos links relacionados aos ataques de Paris. Mas não quero seguir nesse assunto. Leiam lá.

Uma pausa para os gifs mais legais de 2015. Afinal, hoje é sexta. Agora, se vocês quiserem falar sério sobre gifs e jornalismo, aqui tem um artigo sobre isso.

Confesso que tenho passado batido pelas novidades no jornalismo envolvendo a realidade virtual. Acho que nem citei a iniciativa do NYT de oferecer um cardboard do Google para seus assinantes. Pois bem, se vocês, como eu, pouco leram sobre jornalismo e realidade virtual recentemente, leiam este texto do Rafael Coimbra, do Lab Mídia. Ele participou, semana passada, do EmTech, o maior evento do mundo de tecnologias emergentes, promovido pelo MIT. Lá, ele teve a oportunidade de testar a realidade virtual jornalística. No texto, ele comparilha algumas reflexões.

Por fim, o jornalismo está te matando? Dê uma resposta a ele!

Pre terminar, vocês já colaboraram com crowdfunding do Aos Fatos? Corram lá porque faltam poucos dias. Eles estão precisando da nossa força. E para os vizinhos de cidade (não que os outros não possam participar), ajudem o Jornal Já a fazer um jornalismo sobre o Cais Mauá livre de interesses do mercado imobiliário.

Fecho por aqui, mas dizendo que faltou falar sobre muita coisa que aconteceu durante a semana. :/ O bom é que o jornalismo anda movimentado. 🙂

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem!
Moreno Osório