Buenas, moçada!

Vamos lá para mais uma sexta-feira em nossas vidas. Por aqui a coisa vai indo bem rápido, ainda que a vontade seja de desacelerar. Mas beleza, vamos nessa.

Queria começar mostrando quatro links a respeito da cobertura do tiroteio de San Bernardino que me chamaram a atenção. O primeiro é este, do Mashable, ressaltando o papel desempenhado pelo Snapchat durante o momento de breaking news. O texto é curtinho e fala sobre por que a empresa decidiu cobrir o incidente ocorrido na Califórnia na última quarta-feira. Ao International Business Times, Mary Ritti, vice-presidente de comunicações do Snapchat, disse que eles apostaram na história porque acreditaram que o conteúdo – oriundo de uma cobertura local da região de Los Angeles – tinha relevância jornalística nacional. O post no Mashable traz ainda tweets de usuários elogiando a postura do Snapchat na oportunidade, inclusive classificando a iniciativa como uma “cobertura democratizada”.

O segundo é um link sobre como o Snapchat pode vencer a batalha pela atenção dos Millennials quando o assunto é curadoria de conteúdo. Partindo do argumento de que grande parte dessa geração não confia muito na mídia tradicional (baseado em um estudo de Harvard), o texto argumenta que a equipe de curadoria do app do fantasminha sai na frente quando a tarefa é selecionar informações credíveis sobre fatos que estão acontecendo em tempo real, como San Bernardino.

“Assistir a qualquer postagem no Snapchat dá a você a sensação de que você está lá naquele momento. Isso porque o conteúdo vem de usuários que o utilizam diariamente. Seus parceiros. Sem agenda. Sem partidarismo. Apenas um alguém testemunhando algo. Às vezes você vê celebridades ou pessoas conhecidas, particularmente em eventos, mas eu tenho a sensação de que a estratégia é colocar as pessoas comuns em primeiro lugar, e as pessoas conhecidas em segundo.”

O terceiro é este post do jornalista e professor Steve Buttry em seu blog. Ele faz uma análise minuciosa da cobertura da imprensa local nas redes sociais. Em geral, o tom é elogioso. Mas ele admite que sua opinião é um tanto tendenciosa, pois visitou San Bernardino recentemente para ensinar técnicas de live blogging a jornalistas da cidade. De qualquer maneira, o texto de Buttry é um bom exercício de reflexão sobre o que deve e sobre o que não deve ser feito em uma situação jornalística com essa. Na opinião dele, claro. Deem uma conferida lá.

O quarto é este Twitter Moments que fez um fact-checking interessante nas declarações de políticos que ofereceram orações às vítimas do tiroteio em seus tweets. Igor Volsky, um dos editores do Think Progress, selecionou várias dessas manifestações e as contrapôs com informações a respeito de doações que a National Rifle Association (NRA), organização pró-armas bastante influente nos EUA, fez a esses políticos. Ele finaliza o post dizendo que, no total, a NRA doou US$ 30 milhões a políticos na última campanha eleitoral norte-americana.

Pra encerrar este assunto, o NY Daily News fez algo parecido com a capa do jornal do dia seguinte: “Deus não conserta isso” (God isn’t fix this), diz a manchete do dia seguinte, também a respeito dos thoughts and prayers de políticos.

Adiante.

Vocês devem ter visto, mas não custa sublinhar: o Instant Articles chegou a publicações brasileiras. O anúncio foi feito pelo Facebook na terça-feira. No texto de divulgação, nada que vocês não saibam a respeito da tecnologia. Por isso, por enquanto destaco apenas os veículos que fazem parte da primeira leva: AdoroCinema, Bolsa de Mulher, Capricho, Catraca Livre, Esporte Interativo, Estadão, Exame, G1, M de Mulher, R7, Veja e Veja SP. Quando o conteúdo de alguma dessas marcas aparecer com um raio no feed de vocês, é Instant Articles.

Ainda sobre Facebook, link do Journalist’s Resource apresenta um estudo sobre como o Facebook influencia os Millennials em relação à política. A pesquisa “Community Matters: How Young Adults Use Facebook to Evaluate Political Candidates”, realizada por pesquisadores da Universidade do Havaí, comparou as opiniões formadas por estudantes universitários de dois grupos. O primeiro grupo foi formado por jovens que receberam informações sobre dois candidatos adversários por meio das mídias sociais. E o segundo, por quem se informou a respeito dos mesmos candidatos através de fontes mais tradicionais.

Em resumo, o resultado foi o seguinte, diz o texto do Journalist’s Resource:

“Este estudo sugere que os comentários gerados por usuários nas mídias sociais podem influenciar as reputações de candidatos políticos aos olhos de eleitores Millennials. ‘A partir do momento em que conversações emergem espontaneamente em espaços não-políticos … as audiências serão afetadas pela presença dos candidatos nas mídias sociais, independentemente de eles terem procurado informações a respeito’, dizem os autores do estudo.”

Outro estudo. Este, divulgado no site do European Journalism Observatory (EJO) sobre a credibilidade no jornalismo. Especificamente no contexto dinamarquês. O trabalho “Credible Journalism, A Question of Ethics and Accuracy” (Jornalismo credível, uma questão de ética e precisão), pediu que fontes indicassem erros em matérias e perguntou a jornalistas sobre o código de ética jornalística dinamarquês.

O resultado, em resumo, diz o seguinte, de acordo com o texto do EJO:

“O estudo […] concluiu que quando se trata de práticas jornalísticas básicas e diárias, conversar com fontes e produzir matérias, por exemplo, há relativamente poucos erros de apuração, tanto objetivamente quanto subjetivamente (de acordo com as fontes). No entanto, apesar disso, as fontes manifestaram desconfiança em relação à mídia, pois muitas disseram que a imprensa é politicamente tendenciosa.”

Uma pausa para duas boas notícias. O Aos Fatos e o Jornal Já conseguiram alcançar a meta proposta para suas campanhas de crowdfunding. Não deixamos a vaquinha ir para o brejo. Que massa. Parabéns a todos os envolvidos.

Falando em crowdfunding, vocês viram que o De Correspondent chegou aos 40 mil assinantes? Pois é. Neste post do Nieman Lab há alguns números dessa trajetória de sucesso que começou há dois anos. Só para vocês terem uma ideia, o De Correspondent tem uma newsletter gratuita, basta se cadastrar para receber. Só na semana passada, eles conseguiram converter 1,8% dos novos assinantes da newsletter em pagantes do serviço. Quem não quer ser De Correspondent, hein?

Post no blog do Slack sobre como a AJ+ vem usando o sistema de comunicação durante as coberturas de breaking news. O texto conta que o Slack foi implantado na redação no ano passado, mas demorou um pouco pra entrar na rotina dos jornalistas. Só que depois que funcionou, um abraço. Ninguém mais sente saudade de coordenar eventos ao vivo usando email. Jigar Mehta, responsável pelo engajamento na AJ+, disse que o Slack os fez uma redação “muito mais efetiva”.

Ainda sobre breaking news, um texto sobre a cobertura de Paris escrito por uma não-jornalista que trabalha na equipe editorial do Financial Times, mas na área de audiência. Alyssa Zeisler conta que quando as notícias de Paris começaram a emergir, ela precisou assumir a cobertura. O texto é uma reflexão “pessoal e quase etnográfica” a respeito da importância das mídias sociais em momentos como o do dia 13 de novembro. Ela conta que, pela primeira vez, notou a importância pública das redes sociais, um valor em si mesmo para o jornalismo e seu público, e não apenas como uma ferramenta capaz de direcionar tráfego e audiência a sites.

“Na sexta […], eu percebi o que elas [as mídias sociais] são: um serviço valioso para os leitores. É a melhor forma de fornecer informação ao público durante um breaking news. Os leitores podem ver as notícias imediatamente em suas redes, ao invés de ter de clicar em um artigo ou atualizar uma página. Quando a desinformação se espalha como um incêndio florestal, como aconteceu naquela sexta, e mais ainda quando vidas estão em perigo, isto é necessário.”

Seguimos com este post do blog (Re)Structuring Journalism, que se dedica a pensar novos formatos jornalísticos que estejam mais em sintonia com os nossos tempos. O texto cita este outro post, que reflete sobre como o jornalismo poderia reestruturar seu conteúdo de maneira a dar mais opções de consumo / leitura por parte dos leitores / consumidores de notícias. David Caswell, o autor deste segundo texto, argumenta que sempre tivemos o controle sobre todo o processo de produção e distribuição do conteúdo, e que ao leitor só restava a escolha de consumi-lo ou não.

O que ele sugere é que o jornalismo modifique a apresentação do que produz, de maneira a dar mais escolhas a respeito de como aquilo será consumido. Como fazer isso? Dividir o conteúdo em partículas (átomos) de notícias, permitindo que o consumo do conteúdo se dê em diversas direções e em diferentes níveis de profundidade. Quem lembra das discussões sobre o Projeto Partículas, do NYT? Pois é, me parece exatamente a mesma coisa. Um trecho do texto de Caswell:

“Transferir o controle do conteúdo de quem publica para quem consome demanda estrutura. Apenas se pedaços do conteúdo estiverem disponíveis para que o usuário exerça seu poder de decisão poderemos determinar se um conteúdo está mais em sintonia com o momento de consumo do que com o momento de criação. Esses pedaços, esses “átomos” ou “partículas” de notícias, podem incluir dados semânticos do conteúdo – entidades, conceitos e atividades capturados de forma acessível a computadores – e podem permitir a criação de novos produtos jornalísticos sobre os quais o consumidor tem controle quase total.”

Muito parecido com o Project Particles, não? Mas o autor do blog (Re)Structuring Journalism, Reg Shua, trabalha na Reuters, especificamente na área de inovação.

Pra ir fechando, sugiro esta entrevista feita pelo Internacionalismo com o Sandro Fernandes, correspondente brasileiro na Rússia. O Internacionalismo é um canal no Medium lançado no último dia 23 pelo jornalista e historiador Ivan Bomfim. A proposta é discutir o jornalismo internacional em um contexto no qual “o que existe fora incide fortemente dentro do espaço delimitado pelas fronteiras dos países, e as diferenças ficam cada vez mais borradas”. A entrevista com Sandro Fernandes é um dos materiais disponíveis. Boa notícia para quem curte jornalismo internacional.

Por fim, boas notícias sobre o jornalismo de dados brasileiro.
E pra terminar mesmo, uma sugestão de leitura: o livro Questões para um jornalismo em crise, organizado pelo professor Rogério Christofoletti.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório