Buenas e feliz ano-novo!

Bem-vindos ao terceiro ano da Newsletter Farol Jornalismo. Passa rápido, hein. Que coisa. Tudo em cima por aí? Se divertiram nas festas de fim de ano? Eu me diverti. Ressaca das grandes. Ainda tô me recuperando, inclusive. Essa primeira semaninha do ano tá devagar, quase parando. O ritmo da NFJ também. Tenho algumas ideias para 2016. Mas até essa preguiça (merecida, BTW) do verão passar, seguimos com a fórmula que vocês tão acostumados: um condensado de links, resumos e pequenas análises do que acontece no jornalismo a cada semana.

Feito? Vamos lá.
A primeira edição do ano tá olhando pra 2016 mas com um pé em 2015. Como a última NFJ do ano passado foi dia 18, não consegui repercutir as previsões para o ano seguinte publicadas ainda em dezembro. No meio de balanços e tendências, repercuti alguns assuntos que foram notícias nos últimos dias.

Começo com um deles:

A história do Twitter querer ampliar o limite de caracteres por tweet para 10 mil.

Esta matéria do re/code dá alguns detalhes. A ideia da empresa é que o tweet continue sendo visualizado em até 140 caracteres na timeline, mas com a possibilidade de o usuário ler o restante do seu conteúdo (em até 10 mil cc) clicando em uma espécie de leia mais. Uma das consequências previsíveis é diminuir o tempo de engajamento das pessoas. Quanto maior é o conteúdo, menos provável que elas o consumam em sua totalidade. E pelo mesmo motivo também há a tendência de que o número total de tweets consumidos por cada usuário caia.

Mas o CEO Jack Dorsey parece estar querendo mudar. O motivo de tamanha revolução segue o mesmo: a necessidade de aumentar a base de usuários. Ainda mais que as últimas novidades lançadas pela empresa não parecem ter surtido efeito. Esta matéria do Mashable traz comentários de Dorsey a respeito. Ele diz que o Twitter vem observando o comportamento dos usuários, e que muitos deles tiram screenshots de textos e os publicam como imagens. “E se esse texto”, descreveu Dorsey, “de fato fosse um texto? Um texto que pode ser buscado. Um texto que pode ser sublinhado. Isso é mais útil e poderoso. O que faz o Twitter ser Twitter é a sua natureza conversacional rápida, pública e ao vivo. Nós sempre vamos buscar fortalecer essas características. Para cada pessoa no mundo. Para cada língua.”

Will Oremus, da Slate, tem uma posição interessante a respeito dessa possível mudança: possibilitando tweets de até 10 mil caracteres, o Twitter está criando o seu próprio Instant Articles. Vou deixar que o próprio Oremus explique:

“Vejam, as pessoas já postam conteúdos com mais de 10 mil caracteres no Twitter. Eu faço isso todo o tempo, assim como também o perfil da @slate, assim como fazem muitos usuários do Twitter. Eles fazem isso compondo um tweet de 140 caracteres que inclui uma URL encurtada que direciona o leitor à história completa, que provavelmente está hospedada em algum outro site. […] O “Beyond 140″ [o nome interno do projeto] derrubaria a necessidade de o texto inteiro ser publicado em outro site. Toda a história a ser contada pode ser hospedada no Twitter.”

Como diz o título do texto de Oremus, o Twitter não está aumentando o limite de caracteres, está “construindo uma parede” em volta dos conteúdos que são publicados em seus domínios. E também como ele diz, quem curte o Twitter não deveria se preocupar tanto, mas sim quem defende a internet aberta. Pois é.

Conhecemos essa história.

Falando nisso, leiam este texto publicado no Scripting News que usa a mudança no Twitter para falar da open web. Mais especificamente, da necessidade de cuidarmos dela. Dave Winer, o autor, sustenta seu raciocínio dizendo que ainda há tempo para que o jornalismo não se transforme em um information silo. Information silo é um jargão da informática cujo significado remete a sistemas que são incapazes de conversar com outros, seja devido a um problema, seja porque foram desenvolvidos para funcionar assim. Winer diz que o jornalismo tem sorte, pois ainda há tempo para agir antes que as portas dos silos sejam trancadas. Ele dá duas sugestões.

Primeiro, parar de oferecer nossa criatividade a empresas de tecnologia com “modelos de negócio vagos”. Ele diz se referir ao Medium. “Eu sugiro fortemente que uma fundação ou universidade abrace um projeto para fornecer a facilidade e a elegância do Medium sem a necessidade de ficar trancado na plataforma”, escreveu Winer. Segundo, construir sistemas de distribuição capazes de competir com Facebook e Twitter. Vocês podem até rir, diz ele, mas o Netflix só cresce. “As empresas de tecnologia são boas em fazer barulho, e elas fazem porque funciona. Mas o Facebook ainda não se estabeleceu na indústria de notícias. Ainda há tempo, se houver vontade, de reunir diversos sistemas de distribuição abertos”, escreveu.

Na mesma onda, sigam com este texto do Rafael Coimbra, no Labmídia. Trata-se de uma lista de livros sobre os rumos da internet (e da tecnologia). As dicas são para quem quer ir além do senso comum de que a internet é, nas palavras dele, “uma entidade independente, sábia, soberana, democrática, incapaz de fazer mal a alguém”. Depois das sugestões de leitura, ele fecha assim: “Nós, cidadãos, não podemos ficar passivos diante do progresso. À medida que a ‘Internet’ cresce muita gente toma conta dela e interfere em nossas vidas. Precisamos nos dar conta de como a “Internet” está sendo formada e discutir pra onde queremos ir.” Isso aí.

Aproveito o papo para sugerir a leitura deste texto publicado no Journalism.co.uk e no Medium. Neal Mann, professor honorário da Universidade de Sheffield, começa fazendo uma provocação. Segundo ele, quando nós, jornalistas, falamos de inovação na área, não estamos, na real, falando de inovação. Leiam um trecho:

“A inovação que nós abordamos no jornalismo não é o tipo de inovação desenvolvida para mudar radicalmente a maneira como as pessoas se comportam, são apenas tentativas reacionárias de curto prazo para tentar entregar conteúdo em plataformas já utilizadas pelos usuários”.

Mann fala das inovações desenvolvidas na área dos veículos sem motorista, máquinas que conduzem a si próprias sem grandes intervenções humanas. Essas são mudanças, diz ele, que não vão ao encontro dos usuários. Ao contrário: conduzem os usuários a uma nova maneira de viver e sentir o ato de dirigir.

É essa a postura que falta ao jornalismo, segundo ele. O que é justificável, afinal, a inovação estratégica nunca foi o forte do jornalismo, quando comparado a outras indústrias. Passamos décadas atrás de deadlines curtíssimos determinados por ciclos noticiosos e vendas de anúncios. Mas não dá mais para ser assim.

“A internet das coisas e a automação trarão grandes oportunidades para os publishers se engajarem com seus usuários. Empresas de tecnologia, como Facebook e Google, com seus Instant Articles e AMP, já estão em vantagem, oferecendo soluções a questões referentes a mobile que muitos publishers negligenciaram. […] Agora, mais do que nunca, quem ficar focado em soluções a curto prazo ficará pelo caminho. Atualmente, as empresas de tecnologia estão resolvendo os problemas dos publishers; os publishers de sucesso serão capazes de resolver os problemas para essas empresas, oferecendo conteúdo e contexto.”

Volto ao texto do Rafael Coimbra para roubar sua frase final, que, aliás, é do McLuhan: “Nós moldamos as tecnologias, depois as tecnologias nos moldam.”

Se o Rafael fala que a internet somos nós, me arrisco a dizer que o jornalismo somos nós.

Adiante.

Agora uma rodada de previsões para 2016 do Nieman Lab. Selecionei algumas que me chamaram mais a atenção. Aliás, uma crítica que eu faço ao belo especial do Nieman Lab é que ele é tão extenso, com tantas opiniões diferentes, apontando para lados diversos, que é possível achar alguém dizendo que, sei lá, 2016 vai ser o ano do fortalecimento do jornal impresso. É muita previsão para um ano só.

Mas tá bem, vamos a algumas.

Mario Garcia, analista de mídia e professor da Columbia, acredita que 2016 é o ano update or die das homepages. O desafio é tornar a página de um artigo / matéria cada vez mais uma porta de entrada do leitor.

Um parêntese. Mario Garcia e equipe, por sinal, estão por trás do redesign no site do Poynter. A principal novidade anunciada é, vejam só, um esforço para transformar todas as páginas em uma porta de entrada para o leitor.

“Não é segredo que muitos dos usuários chegam aos sites por meio das redes sociais, e o Poynter.org não é exceção. Com o novo visual e filosofia de apresentação das histórias, nosso objetivo é fazer com que o site seja tão atrativo que aqueles que chegaram em busca de um artigo permanecerão no site por talvez dois ou três outros textos. Fazendo isso, o Poynter está dando exemplo, já que, como sabemos, reter novos visitantes é uma das muitas dificuldades das redações.”

Fecha parêntese.

Kaeti Hinck, diretora de design no Institute for Nonprofit News, defende que as empresas que neste ano não priorizarem inclusão e diversidade perderão suas melhores cabeças.

Jan Schaffer, diretora executiva do J-Lab aposta no jornalismo como uma relação em construção: “Jornalismo como uma relação em desenvolvimento pode criar uma proposição diferente de valor. E pode produzir um jornalismo melhor e mais significativo do que o jornalismo como um ato de relatar e distribuir”, escreveu.

Na mesma linha, Molly de Aguiar, cofundadora do Local News Lab, vê 2016 como o ano em que as “pessoas vão investir – tempo, dinheiro, energia – em organizações que produzem notícias e informações relevantes, úteis e valiosas para suas vidas, fazendo-as se sentirem parte de algo maior do que elas próprias”. Ou seja, o jornalismo precisa “entender que sua sustentabilidade depende da construção de relações com pessoas reais”.

Para Valerie Belair-Gagnon, da Yale Information Society Project, e Taylor Owen, professor da University of British Columbia, veremos em 2016 um aumento das discussões a respeito das narrativas jornalísticas proporcionadas por drones e por realidade virtual. “As questões para jornalistas e pesquisadores serão quais serão as percepções produzidas por essas tecnologias e de que maneira elas afetarão aqueles que as consomem?”

Após um pouco de projeção para 2016, um rápido olhar para o ano passado. Esta matéria do blog de jornalismo na BBC aponta 2015 como um grande ano para o vídeo online. “Houve importantes passos em relação à tecnologia, ao storytelling, ao uso das plataformas e, mais importante, a respeito de como gerar receita”, diz o texto. David Hayward, que assina a matéria, destacou cinco pontos que resumem os avanços ao mesmo tempo que projetam o futuro do vídeo no jornalismo digital.

  1. Quem produz vídeos online têm apenas 3 segundos para fisgar a atenção do usuário. É um número importante quando 8 milhões de vídeos são assistidos todos os dias no Facebook.
  2. Saber escolher, configurar e usar o equipamento certo é capaz de transformar um telefone celular em um redação mobile.
  3. Fazer vídeo não significa mais produzir uma versão e distribuí-la em diversas plataformas: cada plataforma requer uma versão diferente da história.
  4. Há um futuro promissor para vídeos em 360º e conteúdos de realidade virtual.
  5. O anúncio tradicional está morto, diz Hayward. O negócio agora é colocar parte do seu esforço editorial em native advertising.

Mais uma listinha, agora dos dez artigos mais populares do Journalism.co.uk, sempre uma boa fonte de dicas e recursos para jornalistas. Na íntegra:

  1. Um mapa para achar as manifestações #JeSuisCharlie mais próximas.
  2. 20 ferramentas e recursos que todo jornalista deveria experimentar.
  3. Extensões do Google Chrome para jornalistas.
  4. Cinco apps para gravar entrevistas.
  5. NPR lança ferramentas open source para mídias sociais.
  6. Os princípios-chave do novo site do Guardian.
  7. Como o Guardian está construindo uma homepage para a era das mídias sociais.
  8. 7 dicas para estudantes em busca de experiência.
  9. Um app de gravação automática para Android.
  10. Ferramentas de busca de fotos no Instagram para jornalistas.

Falando em ferramentas, este texto do Poynter defende que as ferramentas são o futuro das notícias. Ren LaForme, que assina o artigo, cita o desafio que o jornalismo enfrenta de capturar a atenção dos leitores / usuários para assuntos que importam. Segundo ele, por mais que sejam desenvolvidas soluções para fazer as páginas carregarem mais rápido, o formato de artigo não vai salvar a lavoura. O lance é apostar em novos formatos narrativos. É aí que entram as ferramentas. Ele cita, por exemplo, o caso de um pequeno jornal norte-americano que usou a TimelineJS em uma matéria que ganhou o Pulitzer. Não é novidade que há vários tipos de ferramentas disponíveis lá fora, sabemos disso. É hora de utilizá-las.

Então vamos a mais uma lista, agora do IJNet, pra finalizar a primeira NJF do ano: 11 ferramentas para verificação digital e fact-checking para usar em 2016.

Feito?
Era isso então.
Bom final de semana e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório