Buenas, gurizada!

Tudo em cima? E esse verão? Por aqui, a coisa melhorou bastante nos último dias. Tá, olha, uma beleza: manhãs amenas, tardes quentes, céu de brigadeiro e um vento refrescando a noite. Lindo. O negócio é rumar ao estonteante litoral gaúcho. Mas antes temos uma newsletter para vencer: chegamos à segunda edição do ano.

Começamos com o texto do amigo Marcelo Fontoura publicado no Medium do Farol Jornalismo hoje pela manhã. O Marcelo explora uma das questões fundamentais para o cenário jornalístico atual: o fracasso. Ou melhor, a necessidade dele. Quando as coisas não dão certo, acumulamos mais conhecimento e experiência para chegar ao sucesso. De certa forma, um clichê. Mas nem por isso menos importante. O texto destaca o valor da falha dentro da evolução coletiva de determinada área. Uma iniciativa pode falhar, mas ela provavelmente vai deixar sementes para que outras sigam daquele ponto. O Circa, por exemplo, terminou. Mas sua maneira de estruturar o conteúdo permaneceu, e vem sendo desenvolvida em outros lugares.

Falando em empreendedorismo e startups, uma das leituras obrigatórias desta semana é este artigo publicado no Nieman Reports sobre o cenário de inovação no jornalismo brasileiro. Assinado por Fabiano Maisonnave, ex-repórter da Folha de S.Paulo, o texto contextualiza o surgimento das principais iniciativas jornalísticas independentes brasileiras nos últimos anos. Mídia Ninja, Fluxo, Brio, Jota, Agência Pública, Amazônia Real e Aos Fatos estão lá. Aliás, é da Tai Nalon, co-fundadora do Aos Fatos, uma das declarações que ajudam a refletir sobre contexto empreendedor jornalístico do Brasil, a propósito da necessidade de falhar sublinhada por Marcelo Fontoura: aqui, falhar custa mais porque não há dinheiro de investidores de risco. “Capital de risco escasso é o principal obstáculo”, disse Tai Nalon. Em outras palavras, ninguém pode se dar ao luxo de fracassar porque essa grana vai fazer falta no fim do mês. Mas nada de pessimismo. Para Rosental Alves, diretor do Knight Center, o modelo de negócio do jornalismo tradicional “está afundando tanto” que pode dar espaço para surgir algo novo, independente e sustentável.

Se o relatório do Nieman nos dá alguns motivos para termos uma ponta de otimismo, este texto do Gawker nos dá novamente motivos para querer largar tudo e abrir uma pousada na praia. Leiam, o texto é bom. E vocês vão se identificar. A começar pelo título: “The Problem With Journalism Is You Need an Audience”. Hamilton Nolan, o autor, insiste naquilo que volta e meia nos dizem, mas que não queremos acreditar: bom jornalismo não dá dinheiro. Por quê? Porque o público só gosta de lixo. O máximo que é possível fazer em termos de modelo de negócio, diz ele, é publicar centenas de clickbaits para financiar uma matéria boa. É isso ou ter um filantropo afim de investir no que ele acredita ser um bem público.

Pegando os ganchos discussão sobre audiência e novas iniciativas jornalísticas, deem uma olhada nesta matéria do Poynter sobre o bom ano do Chequeado, que aumentou seu tráfego em 750% em 2015. O crescimento se deve às eleições presidenciais e à estratégia de compartilhamento. O texto traz ainda dicas para ações nas redes sociais. Este outro conteúdo do Poynter mostra como são feitas verificações de eventos ao vivo, tais como discursos presidenciais. Interessante para saber como funcionam os bastidores dessas iniciativas jornalísticas.

Antes de seguirmos adiante, uma rápida volta à discussão sobre modelos de negócio. Deem uma olhada neste texto sobre a transição feita pelo La Presse, que enterrou definitivamente sua versão impressa. Ou melhor, quase. Desde o dia 1º, o jornal canadense de 132 anos conta com uma edição diária para iPad e uma versão impressa do jornal de sábado, que é bastante forte na América do Norte. A matéria, assinada por Frédéric Filloux, detalha a estratégia de mudança do jornal. Foram cinco anos planejando a transição e preparando a audiência. Um trabalho meticuloso que procurou estar atento às características do cenário de Montreal – e por isso dificilmente poderia ser replicado em outros lugares.

Isso me lembra um pouco a trajetória da Zero Hora, aqui no sul. A impressão que eu tenho é que, aos poucos, ela está azeitando uma estratégia de transição da marca e do conteúdo rumo (somente) às plataformas digitais. Depois de certo estranhamento inicial, parece que o plano de “dar” tablets a novos assinantes, lançado em meados do ano passado, está dando certo. Ao menos é o que diz esta matéria do Valor (paywall poroso). Segundo o texto, houve uma fila de 4 mil pessoas interessadas durante o período de pré-venda, sendo que 20% eram assinantes novos. Nada mal para um produto que não é barato: a assinatura da ZH Tablet custa R$ 109,90 por mês. A assinatura do impresso custa R$ 85,40.

Por sua vez, a Rádio Gaúcha, que pertence ao mesmo grupo, anunciou ontem seu mais novo empreendimento: um bar. Pois é. À primeira vista parece uma ideia nada a ver, mas, olha, meu palpite é que vai dar certo. O plano é oferecer aos ouvintes, especialmente os que gostam de esportes (futebol), um espaço de convivência junto à emissora e seus jornalistas. Se tem gente que liga o rádio quando acorda e fica ouvindo 29038457 horas de conversa sobre futebol, imagina agora que vai ter um bar especialmente pra isso. Inclusive espera-se que alguns programas sejam transmitidos direto do local. O Gaúcha Sports Bar deve ser aberto em março. A ver.

Bueno, enquanto uns vêm conseguindo relativo sucesso com paywall (porosos ou não) e em assinaturas (caras ou nem tanto), outros acreditam que liberar todo o conteúdo é a melhor estratégia. O La Presse, citado acima, é um deles. Outro é a Reuters TV, tema desta matéria do Nieman Lab. O texto conta por que um dos braços da gigante agência de notícias deixou de cobrar US$ 1,99 por mês por seu app. O motivo principal é para tornar a marca Reuters TV mais conhecida tanto pelo público quanto por outros veículos, que podem usar o conteúdo na faixa.

Do outro lado do Atlântico, o NYT dá sobrevida à homepage. Esta matéria conta como o jornal está melhorando a capa do site a partir do aprendizado obtido em todas as plataformas nos últimos anos. O conteúdo faz parte de uma série do Journalism.co.uk sobre “a volta” da homepage. Quem disse que ela estava morta?

Para finalizar este papo de sucessos e fracassos, vocês viram que a Al Jazeera América fechou as portas? Esta matéria do Intercept conta os bastidores.

Ok, mudando de assunto.

Vamos lá para mais uma rodada de previsões para 2016, afinal, ainda estamos em janeiro. Aqui tem cinco previsões para o ano retiradas de um relatório para 2016 do Reuters Institute for the Study of Journalism. Em resumo é o seguinte:

  • Investimento crescente em vídeo. Entre as apostas estão vídeo 360, realidade virtual, vídeos na vertical (para mobile) e livestreaming.
  • Smartphones mais modernos, novas possibilidades. Carregamento wireless, acesso a aparelhos mais velozes e popularização de notificações personalizadas são algumas das apostas para deixar o público ainda mais ligado (dependente) dos seus smartphones. E daí, consumir mais notícias.
  • Disrupção na TV: cada vez mais gente vai cancelar a assinatura da TV a cabo. Cada vez mais gente vai apostar no jeito Netflix de ver televisão.
  • O boom do podcast vai continuar. Especialmente se o Spotify entrar no jogo.
  • Novas possibilidades de compartilhamento nas mídias sociais. À medida em que os gigantes se consolidam mais e mais, os publishers aumentam sua capacidade de distribuição. Além disso, o relatório aposta no emotional sharing (leia-se: emojis) e em funcionalidades que ajudem a verificar informações falsas, tais como botões que denunciem boatos e notícias falsas.

Além disso, seria 2016 o ano dos robôs de chats? Esta matéria do IJNet lista algumas das iniciativas a respeito e especula se (e como) o jornalismo poderia aproveitar essa tendência (ou ao menos não ficar fora). Segundo o texto, o mercado de plataformas de conversação deve se expandir, e junto com ele surgirão robôs que “vivem” dentro delas e ajudam seus usuários. Seria o ano da Samantha?

Para além das previsões, também podemos ter desejos para o ano que começa, certo? Então leiam os desejos do professor da UFSC Rogério Christofoletti para 2016. Escolhi um que tem a ver com o que foi discutido nesta edição e outro cujo assunto é recorrente na NFJ:

Alternativas

Que neste ano os projetos jornalísticos alternativos prosperem e encontrem formas próprias para se autosustentar. O financiamento coletivo tem sido apontado como um caminho, mas envolvimento dos públicos, gestão eficiente e perenidade dos apoios são desafios para gestores e jornalistas, que nesses casos ocupam as mesmas cadeiras. Atuar em escalas hiperlocais, investir em relacionamentos duradouros com as audiências e se distanciar dos meios convencionais também precisam estar no horizontes desses empreendedores.”

Não ao caminho único

Em 2015, o cada vez mais poderoso Facebook fechou acordos com influentes meios para difundir seus conteúdos diretamente naquela rede social. Em uma frase: terceirizaram a distribuição das notícias, diante do gigantesco sucesso do newsfeed de Mark Zuckerberg. Pode ser prático para as redações, mas ninguém pode negar que é perigoso demais demonstrar ser tão vulnerável e recorrer a uma única solução. Meu desejo é que as organizações jornalísticas encontrem outras formas de distribuir seus conteúdos para além do Facebook, porque concentrar não é necessariamente bom… Que em 2016 as plataformas de difusão e circulação tenham menos importâncias que os conteúdos e seus públicos. Uma app é apenas uma app.”

Assino embaixo.

Adiante.

Matéria do Poynter de grande utilidade: How to preserve your work before the Internet eats it. Taí uma preocupação constante minha, especialmente depois que cursei uma disciplina de mercado cinematográfico durante o mestrado. Aprendi que é muito caro e difícil manter uma cópia digital de um filme ao longo dos anos. Mudam os softwares que a leem, mudam os hardwares que a preservam. E nada garante que o arquivo não esteja corrompido quando alguém tentar abri-lo. Uma cópia em película exige apenas um lugar com boas condições de armazenamento.

Dá pra fazer um paralelo com o jornalismo (e com nossa memória digital como um todo: um dos meus maiores pesadelos é que um dia, do nada, meu acervo de fotos desapareça). A matéria assinada por Kristen Hare explora o paradoxo do mundo digital: a facilidade de acessar informações do mundo inteiro é diretamente proporcional ao esforço necessário para mantê-las acessíveis ao longo do tempo.

E no caso do jornalismo, o desafio é maior para manter o conteúdo em sua forma original. É bizarro abrir uma matéria de 2006 com um layout de 2012. Isso acontece muito porque os CMSs não estão preparados para preservar a memória dos conteúdos na íntegra. Preserva-se o texto, mas e a “diagramação”? Em geral, vai para o ralo quando o layout obsoleto é substituído por outro mais novo.

O texto do Poynter apresenta uma iniciativa do Donald W. Reynolds Journalism Institute e da University of Missouri Libraries, o Journalism Digital News Archive. O objetivo do JDNA é “criar e apoiar sistemas sustentáveis para preservar conteúdos jornalísticos nativos digitais”, nas palavras do site. Ao Poynter, Edward McCain, idealizador do projeto, e Dorothy Carner, chefe das bibliotecas do curso de jornalismo da universidade, estão tentando criar uma disciplina voltada para o “arquivo digital pessoal” de jornalistas. Olha, que vontade de cursar essa disciplina.

Por fim, o texto ainda traz dicas para que a gente crie o nosso próprio arquivo.

Genial.

E essa história do Daily Telegraph instalar detectores de movimento e de calor embaixo das mesas dos jornalistas para verificar se eles estão trabalhando? A ideia genial durou pouco: foi só o BuzzFeed publicar uma matéria e todos os equipamentos foram retirados. Que momento. Que genialidade. Para-béns.

E pra terminar, um app da Adobe para criar cards para redes sociais. Parece massa.

Ah, antes de ir, uma dica de leitura: Who Controls Your Facebook Feed, na Slate. AINDA NÃO LI, mas lerei. Depois conto pra vocês o que eu achei. Fechado?

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório