Buenas, moçada!

A edição 79ª da NFJ está naquele ritmo de verão: um olho no que anda rolando no jornalismo, o outro na praia Sem falar no Australian Open, que hoje à noite entra no seu sexto dia. Vivemos aquele grande momento do ano em que o sujeito vai dormir assistindo a uma partida de tênis e quando acorda periga ainda estar passando mesmo jogo. Então vamos lá porque hoje é dia de pegar a estrada.

Bueno, começo com três textos curtos.

O jornalismo vive uma tensão entre escala e amor. Precisamos dos dois para sobreviver. Esta é a opinião do editor da Atlantic Matt Thompson. Em recente participação no podcast do Nieman Lab, ele contou como a Atlantic procura atender as duas demandas. Por um lado, a publicação implementou um redesign no site em busca de mais engajamento com sua audiência mais fiel; por outro, destacou a participação da Atlantic no Instant Articles, do Facebook. Tem um resumo do papo neste texto. Nada revolucionário, mas vale dar uma conferida.

Outro texto curto e direto é este aqui, de Richard Tofel, presidente da ProPublica, sobre a eterna discussão vida e/ou morte dos jornais impressos. Citando um relatório publicado em outubro passado, ele questiona aquela constatação que já beira o senso comum que diz o seguinte: quem iria deixar de consumir jornalismo impresso já o fez, e os que ficaram – em geral uma audiência mais velha – continuarão lendo em papel até que saiam de cena; esse pessoal garantiria a vida dos jornais e revistas por mais alguns anos. Apresentando dados atualizados, Tofel diz que a coisa não parece ser bem assim, já que houve uma queda considerável na circulação dos principais jornais norte-americanos nos últimos anos. Como diz o título do texto, “o céu está caindo sobre os jornais impressos mais rápido do que você pensa”. O texto está circulando bastante no Medium. Confiram.

Falando em Medium e em podcast, o Ev Williams, fundador do Medium (antes disso, do Blogger e do Twitter), participou do podcast Re/Code Decode e mais uma vez deu indícios de que as páginas na web farão cada vez menos sentido como locais de publicação. Para seguir relevantes, as marcas e as pessoas precisarão das plataformas de distribuição de conteúdo, como Twitter, Facebook e, claro, Medium, para seguirem vivas na batalha pela atenção. Porque é nelas que estarão os melhores conteúdos. Ele já havia dito algo parecido ano passado em uma entrevista, que, aliás, foi destaque da NFJ#68. Tem um teaser do que foi discutido no podcast aqui.

Seguimos adiante com mais uma iniciativa do Facebook para dominar o universo. O alvo mais recente é o mundo dos esportes. Mark e sua turma lançaram, nesta semana, o Facebook Stadium, uma ferramenta que vai permitir aos usuários acompanhar informações sobre seus jogos favoritos em tempo real. Tudo o que for publicado a respeito de uma determinada partida de futebol, por exemplo, estará reunido em um lugar específico, organizado cronologicamente. Desde informações básicas sobre o jogo até comentários dos seus amigos. Para Mathew Ingram, com a iniciativa, o Facebook joga uma granada dentro do vestiário da ESPN (e também do Twitter e do Snapchat). Na sua coluna na Forbes, Ingram explica que o Facebook Stadium vai funcionar como um app dentro do Facebook, onde o usuário vai encontrar um conteúdo muito parecido com o da ESPN, mesmo que a rede de TV ainda siga com os direitos de transmissão de grandes eventos esportivos.

“Obviamente, a ESPN não vai virar pó porque o Facebook lançou uma funcionalidade voltada aos esportes. Ela ainda tem acordos exclusivos com ligas esportivas no mínimo pela próxima década. Mas, assim como o Twitter abocanhou as bordas do mercado da ESPN apelando àqueles que não querem ter de pagar uma TV a cabo apenas para acompanhar esportes, o Facebook está tentando tirar uma lasca da posição dominante da rede de TV, pouco a pouco”.

Meio exagerada a previsão de Ingram, mas, né, estamos falando do Facebook.

Em frente com este texto publicado no blog Headlines and Deadlines sobre um tema caro e delicado: o engajamento de audiências. Alison Gow, que assina o post, fala sobre a importância das redações pensarem que os leitores devem ser o ponto de partida das histórias, e que sua influência deve permanece ativa durante e após o processo jornalístico de confecção de uma matéria / reportagem. Diz Alison:

“Para redações, trata-se de começar o dia verificando sobre qual assunto as pessoas estão falando, sobre o que elas querem saber mais, quais histórias elas estão lendo, compartilhando e comentando – e quais elas estão ignorando, e por quê. Trata-se de manter reuniões regulares com os leitores (e isso pode ser uma coisa difícil a se fazer), como, por exemplo, um editor fazendo hangouts para discutir ideias com a audiência, repórteres fazendo debates ao vivo no Periscope ou respondendo sessões de perguntas no Facebook sobre o seu trabalho, reuniões de pauta públicas […]. A ideia ao criar e sustentar práticas como essas não é porque elas estão na moda, mas porque elas levam a redação para mais perto do público.”

Falando em comunidades e engajamento, deem uma olhada neste texto do Journalism.co.uk sobre como aproveitar comunidades online para jornalistas.

Interessante este texto do European Journalism Observatory sobre um estudo que discutiu o ensino de jornalismo de dados na Europa. O trabalho verificou qual o grau de evolução da disciplina em seis países diferentes: Holanda, Alemanha, Reino Unido, Itália, Polônia e Suíça. Segundo Sergio Splendore, um dos autores do estudo, entre as descobertas está o fato de que a qualidade do ensino de jornalismo de dados tende a acompanhar o grau de institucionalização do ensino de jornalismo do país. No Reino Unido e na Holanda, por exemplo, em geral os professores têm background na área e há disciplinas nos cursos de graduação. Na Itália e na Polônia, países em que o ensino do jornalismo são “menos comuns” ou “menos competitivos”, a disciplina raramente é oferecida. Quando há, ela “segue trajetórias imprevisíveis e padrões não institucionalizados”. Os cursos disponíveis são, em geral, “oferecidos por alguma instituição pública, organização sem fins lucrativos ou por jornalistas autodidatas ou ‘importados’ do exterior”. Vale dar um conferes.

Saber o que anda fazendo o Quartz é sempre uma boa. Então leiam esta entrevista com o publisher Jay Lauf publicada no Nieman Lab. O gancho da conversa é um email enviado para os funcionários da empresa fazendo um balanço de 2015 e projetando o ano que está iniciando. Alguns números chamam a atenção: a receita do site cresceu 85% em 2015 e a audiência 65%, o que significa 16,8 milhões de usuários únicos em dezembro. Para 2016, uma das grandes novidades do Quartz é o lançamento de um app próprio, iniciativa que vai de encontro às últimas tendências de distribuição de conteúdo (centralização em grandes plataformas; usuários abrindo apenas três ou quatro apps todos os dias, e por aí vai). Lauf defende a decisão apoiando-se no futuro promissor das notificações. “Notificações são um mecanismo cada vez mais popular para ficar sabendo das notícias e informações e permanecer conectado às marcas. Os apps certamente te dão oportunidade de fazer isso”, disse o publisher ao Nieman Lab. Bueno, a ver.

Saber o que andam pensando sobre o NYT também é essencial. Por isso deem uma olhada neste texto publicado no Thougths on Media. JP Gomes, o autor, defende que toda a credibilidade jornalística que o jornal norte-americano possui não será suficiente para sobreviver em um mundo de ruído e caos informacional. Neste contexto, ele sugere que o NYT abrace uma estratégia que envolva curadoria.

“Em outras palavras, há uma oportunidade para além da bagunça: ajudar a desemaranhar a web oferecendo um combinado de notícias e de conteúdo social que forneça o máximo de significado com esforço reduzido para o leitor pode representar um caminho para o futuro do jornalismo nas nossas vidas.”

Ousado, não? Na sequência do texto, Gomes desenha uma estratégia para colocar isso em prática a partir de uma leitura do cenário midiático atual.

Vou me encaminhando para o final com este balanço que o Pew Research Center fez sobre crowdfunding em jornalismo. Olha, eu diria que as notícias são boas. Embora o crowdfunding ainda não represente uma fatia considerável do mercado jornalístico mundial – muito longe disso, aliás. Alguns números:

  • De abril de 2009 até setembro de 2015, a grana arrecadada em projetos jornalísticos no Kickstarter passou de US$ 49 mil para US$ 1,7 milhão;
  • Nesses quase sete anos, foram arrecadados US$ 6,3 milhões;
  • No final de 2009, 17 projetos haviam sido financiados; em 2010 foram 64; em 2014, 168; e nos primeiros nove meses de 2015, 173 projetos;
  • O número de pessoas que apoiaram projetos jornalísticos no Kickstarter passou de 792 em 2009 para mais de 25 mil ano passado;
  • 43% dos projetos financiados foram lançados por pessoas solitas no más.

Como destaca o Poynter, cabe ressaltar que se tratam de números apenas do Kickstarter, então o levantamento está longe de esgotar o cenário mundial. Durante o mesmo período, outras iniciativas também trabalharam com financiamento coletivo para jornalismo, tais como Spot.us, Beacon Reader e Contributoria.

Falando em Contributoria, uma dica de leitura para finalizar a 79ª edição da NFJ: A chave do casarão: a história de um dos piores presídios do Brasil, reportagem financiada pelo Contributoria e publicada no Risca Faca, com texto de Carla Ruas, ilustrações de Marcelo Armesto e fotos de Daniel Marenco. É coisa fina, leiam.

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório