Buenas, moçada!

Que tal vão as coisas? Por aqui, ânimos renovados depois de um mês de pausa na NFJ. Agora, é engatar a segunda marcha e encarar um 2016 cheio de possibilidades. Não faltam ideias para ampliarmos as conversas sobre os rumos da nossa profissão. Espero que pelo menos algumas delas possam sair do papel.

Mas temos o ano inteiro para falar sobre isso. Por enquanto, seguimos com a tradicional síntese de sextas-feiras do que anda acontecendo no Brasil e no mundo no jornalismo, especialmente quando relacionado à tecnologia. Afinal, entramos no terceiro ano da newsletter firmes e fortes, avançando devagar mas com constância, apostando quase unicamente em resultados orgânicos. Ou seja, o crescimento da NFJ depende da propaganda boca a boca de vocês. Por isso, cada novo assinante é comemorado. Porque sei que ele chegou até aqui por algum tipo de indicação.

Falando em indicação, começo fazendo uma autopromoção. Talvez muitos de vocês tenham visto que a Agência Pública lançou ontem um mapa do jornalismo independente no Brasil, e o Farol Jornalismo está lá. O que me enche de orgulho.

Foram listadas organizações, nas palavras da Pública, que “nasceram na rede, fruto de projetos coletivos e não ligados a grandes grupos de mídia, políticos, organizações ou empresas”. São dezenas de iniciativas (aproximadamente 100, pelo que observei) que vêm oxigenando o jornalismo brasileiro. Tem muita gente boa. É legal ver vários projetos bacanas que eu já vinha acompanhando. E mais legal ainda conhecer dezenas de outros que nunca tinha ouvido falar. Sinal de que há muita gente buscando alternativas para o jornalismo no país. Enfim, deem uma olhada e guardem o link. É um guia essencial para acompanhar visões alternativas de mundo que não aquelas ligadas aos grandes grupos de imprensa.

Em fevereiro, o blog do Knight Center publicou este texto justamente sobre um estudo que mapeou o estado do jornalismo digital independente na América Latina. A pesquisa aponta, segundo o texto do Knight, que houve uma explosão, nos últimos anos, de iniciativas nativas digitais fazendo jornalismo de qualidade aqui e na nossa vizinhança, mas que ainda há desafios em relação à “sustentabilidade financeira tirando partido da tecnologia digital e da interação com comunidades”.

Antes de passar para o próximo assunto, me permitam fazer duas outras autopromoções rápidas. Primeiro, estamos perto de 2 mil likes na nossa página no Facebook. Curtam, se ainda não o fizeram, e indiquem para os seus amigos e colegas. Segundo, uma das ideias para 2016 é transformar o botão de doações do PayPal, disponível permanentemente no fim da newsletter, em algum tipo de campanha de financiamento mais efetiva. Buscar formas de manutenção será essencial para que as demais ideias saiam do papel. Agora sim, podemos seguir. 🙂

Ah, não, peraí. Tem também o texto mais recente com o selo do Farol Jornalismo publicado na revista Página 22: “Mudar para continuar vivo”. Leiam lá!

Ok, bora.

Creio ainda estar em tempo para fazermos projeções para 2016. Pois bem, aqui tem um material interessante produzido no mestrado em inovação no jornalismo da New York University (NYU). O News Literacy 2016 está dividido em 11 seções. Cada uma delas aborda um tópico maior, como automação no jornalismo, modelo de negócio e jornalismo mobile, por exemplo. O que achei interessante é o texto introdutório do especial. Apenas um parágrafo resume todo o material e sugere um panorama de 2016 para o jornalismo, na visão dos alunos da NYU.

Achei que poderia ser legal traduzir esse parágrafo, mantendo os links para o conteúdo original, exatamente como aparece na capa do especial.

“Enquanto o consumo de notícias se transfere para o mobile e os publishers perdem o controle da distribuição, modelos de negócio precisam se desenvolver nesse ecossistema mais amplo. Empresas de mídia mais atentas estão focando mais em produtos, explorando personalizar o fluxo de informações e buscando soluções para deixar a rotina de trabalho nas redações mais inteligentes. Enquanto isso, jornalistas percebem que dados podem ajudá-los a encontrar histórias melhores, e estão virando amigos da automação. Eles estão entendendo que os usuários podem contribuir na produção de notícias, que se você não pode abraçar a escala é melhor apostar no nicho, e que apostar na explicação pode atrair mais pessoas às notícias.”

Tem bastante material para ler.

Olha, preciso dizer que já no início do mês de fevereiro o Quartz já deu checked em quase todos os tópicos levantados pelo pessoal da NYU com o lançamento do seu novo app para iPhone. Sei que a notícia não é exatamente nova (de 11 de fevereiro), mas precisei trazê-la à discussão porque me pareceu bem massa.

A premissa do app é simples: conversar com o usuário sobre as últimas notícias. A interface simula o chat do aplicativo de mensagens da Apple, e é através da interação que o leitor vai descobrindo quais são as novidades no mundo (dos negócios, principalmente). A cada mensagem enviada, o app disponibiliza opções para o usuário interagir. Em geral, dá pra pedir um aprofundamento maior do fato ou pular para a notícia seguinte. Se for o caso, dá pra clicar na mensagem para ler a matéria relacionada, seja ela do próprio Quartz ou de outro veículo.

Olha, com esse app, o Quartz demonstra 1) entendimento de mobile, apostando em um formato promissor de jornalismo nesse ambiente; 2) personaliza o fluxo de informações na rede, apostando na interação (embora indireta) para oferecer seu conteúdo, seja através de produção própria ou curadoria; 3) demonstra estar se apropriando da automação, deixando o trabalho dos robôs mais transparente, fazendo, assim, jornalismo ganhar mais protagonismo; e 4) segue apostando no nicho da economia, embora, cá pra nós, seu noticiário seja bem amplo.

A Wired e o The Verge publicaram duas boas resenhas sobre o app. O texto do The Verge, aliás, diz que o conteúdo do app é de responsabilidade da mesma equipe que produz a newsletter diária do Quartz, um dos maiores sucessos da empresa.

Ainda sobre o tema “conversar notícias”, o jornal Correio, da Bahia, testou uma forma de interação entre leitores via WhatsApp. Mas ao contrário de práticas mais usuais, como usar o aplicativo como lista de distribuição, a publicação baiana experimentou apostar na conversação entre a própria audiência. Algo que o Guardian também andou testando recentemente (o jornal britânico, aliás, lançou recentemente um laboratório de inovação em jornalismo mobile). O teste foi feito durante um jogo do Bahia pela Copa do Nordeste. A ideia era que os integrantes do grupo, convidados pelo jornal, compartilhassem informações e comentários a respeito da partida entre eles. O perfil do Correio, antes de ser o poderoso detentor das informações, se comportou como qualquer outro integrante. Quem participou gostou da iniciativa, segundo uma matéria publicada no site do jornal.

Deixem eu voltar rapidinho para a história do laboratório de jornalismo mobile do Guardian. Na última quarta, eles publicaram um texto em que listam 5 áreas para ficar de olho. Os tópicos surgiram de workshops, discussões e observação dos padrões de uso da tecnologia mobile. É em cima deles que a equipe do jornal britânico pretende trabalhar. São os seguintes: cobertura ao vivo, vídeo, entrega contextualizada, conteúdo interativo e notificações. Para mais detalhes, leiam aqui.

Adiante.

Me deem licença, mas preciso comentar mais um texto publicado no início de fevereiro. Este, de Farhad Manjoo, no NYT. Manjoo fala sobre o Twitter, assunto recorrente aqui na NFJ. Ele aborda as recentes tentativas – em geral fracassadas – da empresa para agradar seus investidores, mas sob um viés diferente: sugere que o Twitter deveria desistir de querer ser uma gigante do Vale do Silício, a exemplo de Facebook e Google, e assumir uma postura menos megalomaníaca, se contentando em valer “apenas” um punhado de bilhões de dólares.

Mas o que me interessou no argumento de Manjoo foi, na verdade, o que essa mudança radical de objetivos empresariais poderia significar para, diz ele, a “rede social mais importante do mundo”. Foco em um produto mais voltado ao serviço, assumindo de vez o perfil que ele já possui: “uma rede em tempo real acessível que se tornou o centro nervoso de jornalistas, políticos, ativistas e agitadores do mundo inteiro, e que, para melhor ou pior, demonstrou uma capacidade inigualável de influenciar coisas reais no mundo real”, nas palavras do autor do texto.

Ele sugere que talvez o Twitter tenha um “futuro mais promissor como uma empresa privada e independente; como uma divisão sustentável de algum conglomerado de mídia ou tecnologia; ou mesmo como uma iniciativa sem fins lucrativos”.

Mais um trecho:

“Mesmo se o Twitter pretende permanecer como uma corporação pública – porque não parece muito bom para investidores torná-lo privado – está na hora do senhor Dorsey [CEO do Twitter] transformar as expectativas em relação ao que a companhia pode se tornar. O Twitter deveria pensar a si próprio e se projetar para os investidores mais como uma utilidade pública do que como um negócio que nunca para de crescer, e que ainda nutre esperança de se aproximar do valor de mercado do Facebook.”

[…]

“Em outras palavras, o Twitter deveria deixar claro que há limites para o escopo das suas ambições de negócio, e que seu rumo está mais ligado a um viés filosófico para o bem do serviço do que à ambição de crescer a qualquer custo.”

Interessante, não?

Já que um dos temas desta edição é automação, sugiro a leitura de dois posts de Frédéric Filloux. O analista de mídia francês aborda o tema de duas maneiras.

No primeiro texto, projeta como, na opinião dele, deveria ser um robô cuja função é ser um assistente pessoal para notícias. Ele imagina uma conversa entre ele e o seu celular, onde “vive” esse robô. Através das informações obtidas pelo diálogo, a máquina seria capaz de sugerir notícias, organizar leituras e inclusive comprar revistas ou reportagens, caso seu “dono” autorize. Faz tudo isso a partir de um cruzamento de dados com vários serviços utilizados pelo usuário.

No segundo, ele vai além da imaginação, explicando como deveria funcionar esse “conversational bot”. Um robô que, segundo ele, estaria a anos-luz da Siri, cuja memória é de um peixinho dourado, nas palavras de um cientista citado no post.

Para seguir no assunto, sugiro este material do Nieman Lab. O texto é uma compilação de estudos e reportagens recentes sobre o uso de bots no jornalismo. As projeções de Frédéric Filloux estão lá. Assim com o relatório do Tow Center sobre automação no jornalismo. O mote desse compilado foi uma reportagem publicada na Motherboard, da Vice, uma espécie de dossiê sobre robôs. A conferir.

Pra ir fechando, deem uma olhada neste outro texto do Nieman Lab. Ele aborda um estudo que defende um relacionamento mais estreito do jornalismo com a audiência e com a tecnologia, dois atores cada vez mais fundamentais no que entendemos como produção de notícias. Está na hora, defende o trabalho, de o jornalismo deixar de lado uma postura por demais autônoma e assumir um comportamento mais sistêmico, em que o resultado do que produz é fruto de uma integração com atores em princípio exteriores ao próprio jornalismo. Complexo, sim, mas fundamental.

Acho que é isso, pessoal.

Aquelas coisas rápidas antes de ir. Hoje são três:

E uma coisa não tão rápida: esta publicação dedicada às tendências em jornalismo em língua portuguesa, lançada em conjunto pela revistas Dispositiva (PUC-MG) e Estudos de Jornalismo, do GT Jornalismo e Sociedade da associação portuguesa Sopcom. Peguei essa dica no blog do professor Rogerio Christofoletti. Aliás, lá também achei este aqui, que parece bem promissor: 32 maneiras de trazer dinheiro ao jornalismo, uma lista criada por alunos de um master em jornalismo espanhol.

Bueno, era isso então. Bom estar de volta.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório