Abriram o email? Então, tomem essa, de bate-pronto:

“Algo realmente dramático está acontecendo no cenário midiático, na esfera pública e na indústria do jornalismo, quase sem que a gente perceba e certamente sem o nível de debate e de escrutínio necessário. Nosso ecossistema midiático mudou mais dramaticamente nos últimos cinco anos do que talvez em qualquer momento dos últimos quinhentos. Estamos testemunhando um enorme salto na capacidade técnica – realidade virtual, vídeo ao vivo, robôs de notícias inteligentes, mensagens instantâneas, e aplicativos de chat. Nós estamos testemunhando mudanças massivas no controle e nas finanças, colocando o futuro do nosso ecossistema de publicação nas mãos de poucos, que agora controlam o destino de muitos.”

Buenas, moçada!
Desculpem abrir a newsletter assim, jogando essa bomba no colo de vocês. Mas quando a Emily Bell escreve, é preciso prestar atenção. Sou meio arredio a tietagem, mas, olha, são poucos os que têm a capacidade dela para traçar diagnósticos do jornalismo atual. Quem acompanha a NFJ sabe. Não foram poucas as vezes em que ela foi citada aqui. No fim de 2014 (meu deus, já faz tudo isso), por exemplo, um discurso que ela fez no Reuters Institute for Journalism ganhou uma edição especial. Na NFJ#54 destaquei outra fala da diretora do Tow Center for Digital Journalism. Sem falar em várias outras referências em outras edições.

Enfim, bem-vindos a mais uma edição da Newsletter Farol Jornalismo. Mais uma sexta-feira em nossas vidas. Tempo abrindo, clima ameno. Vamos nessa.

Continuamos, na verdade, destrinchando o texto de Emily Bell publicado no site da Columbia Journalism Review (texto, aliás, que é um discurso proferido por ela em um evento em Cambridge). Nem preciso dizer que recomendo fortemente a leitura.

Nessa última manifestação, Emily Bell seguiu sua tradicional linha de raciocínio: fez um diagnóstico baseado em críticas ao poder que as empresas de tecnologia possuem hoje em dia e alertou para a necessidade de o jornalismo discutir sobre essa situação, e não simplesmente aceitá-la como algo natural.

Após o primeiro parágrafo, traduzido acima, ela recupera alguns dados recentes sobre o uso de dispositivos móveis, sublinhando a dimensão que as redes sociais têm em nossas vidas; fala sobre os recentes produtos voltados ao jornalismo desenvolvidos pelos grandes players, ou, como ela se refere, “quatro cavaleiros do apocalipse” (Google, Facebook, Apple e Amazon); e analisa o comportamento do jornalismo diante deste cenário, principalmente para conseguir fechar as contas.

Sobre este último aspecto, ela resume em três as alternativas disponíveis hoje para a imprensa comercial. A primeira é apostar tudo em plataformas no estilo Instant Articles, especialmente para conseguir fugir da briga dos gigantes em relação a ad-blocks. A segunda é tentar viabilizar receitas fora dessas plataformas. Neste caso, o modelo mais tradicional é a assinatura. Porém, trata-se de uma solução que não funciona muito bem em economia de escala, pois, para conquistar assinantes, é preciso haver empatia e proximidade entre público e veículo. Ou seja, é um modelo que funciona melhor na mídia de nicho. Por fim, a última alternativa é apostar em publicidade que não se parece com publicidade. A tal publicidade nativa.

Para Emily Bell, decidir como distribuir o conteúdo é a parte mais difícil do negócio para os publishers tradicionais atualmente. Segundo ela, há muita gente entusiasmada com o Instant Articles ter triplicado, às vezes quadruplicado, o tráfego. “A tentação para os publishers de ‘se jogar’ nas plataformas de distribuição, fazendo jornalismo apenas para a web social, está ficando maior”, escreveu.

Mais um trecho:

“Na verdade, nós sabemos pouco, ou quase nada, sobre como cada empresa está organizando as notícias. Se o Facebook decide, por exemplo, que conteúdos em vídeo vão ter desempenho melhor que as histórias em texto, nós não sabemos disso até que eles nos digam, ou até que percebamos a mudança. É um mercado desregulado. Não há transparência sobre o funcionamento interno desse sistema.”

Outro:

“Há enormes benefícios em termos uma nova classe de pessoas tecnologicamente hábeis, financeiramente de sucesso e altamente ativas, como Mark Zuckerberg, assumindo funções e poderes econômicos que antes estavam nas mãos de alguns dos sensatos, politicamente conservadores e ocasionalmente corruptos gatekeepers do passado. Mas nós devemos estar atentos, também, para o fato de esta mudança cultural, econômica e política ser profunda.”

[…]

“Nós estamos entregando o controle de partes importantes de nossas vidas pública e privada a um número muito pequeno de pessoas, que não foram eleitas e se não nos devem explicações.”

[…]

(…) é necessário haver ao menos alguma concordância de que a responsabilidade nesta área está mudando. As pessoas que desenvolvem essas plataformas não as fizeram com o intuito de assumir as responsabilidades de uma imprensa livre. Na verdade, eles estão alarmados com o fato de isso ser o resultado de uma engenharia bem sucedida.”

No fim do texto, Emily Bell sugere que fazer jornalismo pode se transformar em um fim que não visa o lucro. Afinal, se dependermos das plataformas, que precisam se ajoelhar ao pessoal do 1% de Wall Street, estaremos condenados a produzir somente listas, gifs e publicidade nativa para sempre.

Isso me lembrou o texto de Farhad Manjoo sobre o Twitter, destacado na newsletter da semana passada. Manjoo argumenta que talvez o Twitter precise desistir de tentar ser o Facebook e focar na importância do seu serviço para o público, quem sabe se transformando em uma atividade sem fins lucrativos.

Para terminar, Emily sugere que é possível que as empresas jornalísticas adotem uma postura de “estúdios que gerenciam diferentes talentos, histórias e produtos em vários aparelhos e plataformas.”

Leiam o original!

Antes de seguir, uma questão de ordem prática. Volta e meia alguém reclama que a newsletter não chega na caixa de entrada do Gmail. Pois é, faz um tempinho que o Google classificou a NFJ como promoção ou algo do tipo. Desde então, a newsletter chega por padrão na caixa / aba “Promoções”, e não na “Pessoal / Principal”. Se vocês quiserem mudar, é possível. Basta ir em “configurações” — “filtros” e criar um filtro orientando que todas as mensagens enviadas por contato@faroljornalismo.cc sejam direcionadas para a caixa / aba Principal. Vai ser criada uma regra assim:

Resultados correspondentes: from:(contato@faroljornalismo.cc)
Faça isso: Categorizar como Pessoal

Feito? Adiante.

Falei em Twitter ali em cima. Então sigam com esta reportagem da Fortune sobre – vejam só – os desafios enfrentados pelo Twitter. Especificamente, por Jack Dorsey, seu CEO. A matéria é uma longa análise da situação da empresa, e do que Dorsey vem pensando em fazer para alavancar o seu crescimento. Diz a matéria que ao menos ele tem apoio interno para encarar a jornada. Mas que o problema ainda passa por uma velha questão que ainda assombra: o que é, mesmo, o Twitter?

Ainda sobre o desafio existencial do Twitter, esta matéria da The Atlantic é uma boa pedida. No começo do texto, o autor, Douglas Rushkoff, diz mais ou menos o seguinte: é nada menos que um milagre o Twitter conseguir mais de US$ 500 milhões de receita (no último quadrimestre de 2015) por uma pequena aplicação que permite às pessoas enviarem mensagens de 140 caracteres uns para os outros.

Mas não é o que pensam os seus investidores, que estão esperando receber 100, às vezes 1000 vezes mais do que colocaram na empresa. Para isso, diz Rushkoff, o Twitter precisa crescer. Porque esse pessoal não está no jogo pela “disrupção”, porque o Twitter é um serviço interessante para o público, servindo como um termômetro do planeta, como já dissemos várias vezes aqui. Eles apostam no Twitter simplesmente porque querem nadar em MAÇOS de verdinhas. E isso, diz o texto, “condena os fundadores de uma empresa a, acima de tudo, crescer.”

Sobre essa condição, Rushkoff faz um comentário interessante, que serve não apenas para pensarmos na situação do Twitter – um serviço diretamente ligado ao jornalismo digital -, mas também para desnaturalizarmos serviços que surgem como grandes inovações, mas cuja lógica de Wall Street as transforma em corporações cegas a outras lógicas que não seja a do dinheiro. Confiram este trecho:

“Este é o motivo de uma empresa como o Uber não poder se satisfazer em simplesmente ajudar as pessoas a pegar caronas. Ela precisa, na verdade, estabelecer um monopólio no setor de táxis que possa ser o “pivô” para outras iniciativas verticais, como serviços de entrega, logística, transporte robotizado. O Airbnb não pode simplesmente ajudar as pessoas a encontrar um lugar para ficar, pois precisa colonizar cidade após cidade, desregulando um setor inteiro. Uma plataforma de rede social como o Facebook precisa se transformar em um empresa que minera e vende dados; um app de mensagens como o Snapchat precisa tentar se transformar em um serviço de notícias; mesmo um gigante como o Google precisa aceitar que seu inspirador ciclo de inovações deve ficar de lado em função dos lucros que a empresa pode gerar como uma nova holding, o Alphabet.”

Fugi um pouco do jornalismo. Então vamos voltar.

Olhem que legal. A agência Pública vai abrir uma casa para nós, jornalistas! Ela fica em Botafogo, no Rio de Janeiro, e a programação inicia no próximo dia 19. A ideia, diz o texto do site da Pública, é que a Casa Pública seja “um centro para a produção, fomento, discussão e apoio ao jornalismo independente e inovador no Brasil a na América Latina”. O foco das atividades está dividido em três frentes: eventos, visita / residência de jornalistas estrangeiros e laboratórios de produção jornalística com foco em tecnologia. Massa, hein? Acho que tem tudo pra dar certo.

Outra coisa legal que rolou no jornalismo brasileiro durante a semana foi a ação #7minutos1denuncia, promovida pelo Estadão no Twitter. Neste texto (paywall) o jornal dá alguns números da iniciativa. Diz o Estadão: “Em 24 horas, a hashtag #7minutos1denuncia teve 28,2 mil menções, segundo dados do próprio Twitter. Nesse período, as 205 denúncias foram retuitadas mais de 23 mil vezes”.

Um dos ouvidos pela matéria foi o professor Fábio Malini, autoridade no Brasil em análise de redes sociais. No dia 9, Malini escreveu o seguinte no seu perfil no Facebook: “#7minutos1Denuncia‬ 25 mil tweets, mobilizando quase 6 mil usuários do Twitter. Retweets somaram 23 mil. Só isso evidencia que o “espalhar em massa”, ação de sujeitos diferentes (incluindo aí grupos feministas), alcançou o objetivo do Estadão em propagar a indignação contra a alta estatística de violência contra a mulher. Um exemplo seguro de jornalismo e transmidialidade.”

Segue o baile. Deixem eu voltar um pouco ao texto da Emily Bell para falar deste aqui, publicado no Digiday, sobre como o Vox, NYT e Quartz estão utilizando estratégias de produto para pensar o jornalismo. Ao falar sobre as empresas jornalísticas apostarem em assinaturas para viabilizar o negócio, ela diz que “em um mundo onde o conteúdo é altamente distribuído, isso é de longe mais difícil de se conseguir do que quando há um vínculo com produtos físicos”.

Pois bem. Vejamos o que diz o texto do Digiday.

Primeiro, o Quartz. O texto cita o novo app da empresa, lançado recentemente, como exemplo de como os produtos do Quartz resultam do trabalho conjunto de vários setores diferentes. A equipe de cinco pessoas responsável pelo app contou com gente das áreas de engenharia, design, editorial e comercial.

No NYT, o desafio é deixar para trás a mentalidade do papel. Parece primário, mas a lógica que impera no jornal é, segundo o Digiday, pensar no usuário (user-first) e no mobile (mobile-first). A evolução do app NYT Now é o exemplo dessa mudança de pensamento. No começo ele simplesmente transferia para o mobile as versões publicadas em formato artigo. Agora, ele oferece mais interação, matérias resumidas, manchetes adaptadas e bullets para facilitar a leitura em telas pequenas.

Já no Vox, o conceito de produto foi ampliado. Ao invés de tratar apenas o que o usuário consome, como um artigo, um vídeo, um gráfico, eles incluem na definição, por exemplo, a performance dos servidores (responsáveis pelo carregamento do site) e das equipes de dados e analytics, responsáveis por fornecer informações para marcas que usam o CMS da empresa e insights para a equipe editorial.

Falando em produto, outra notícia fundamental da semana foi a carta do diretor do El País à redação. Nela, Antonio Caño fala sobre os desafios enfrentados por uma empresa jornalística atualmente (muitos deles citados pela Emily Bell) e o que o jornal espanhol faz para enfrentá-los. Vale a pena ler, pois são vários os aspectos. Escolhi um trecho em que ele fala das mudanças pela qual vai passar a estrutura física redação, agora um espaço multidisciplinar onde equipes trabalharão a informação para que ela circule em diversos canais diferentes.

“Será uma redação sem escritórios, aberta à colaboração e à troca de ideias, na qual as equipes se misturarão para construir novas histórias. A partir de agora, no coração da planta principal será instalado um moderno espaço aberto dedicado à criação e à coordenação de informações e sua distribuição nos diferentes canais. O centro dessa redação contará com uma moderna ponte de comando, na qual haverá perfis jornalísticos, de desenvolvimento tecnológico, de edição gráfica e de vídeo, de design, de produção, de medição de audiência, de redes sociais, de SEO [otimização de sites] e de controle de qualidade. A partir dali serão criadas novas narrativas e novas formas de comunicação que continuarão a manter este jornal na vanguarda do jornalismo global.”

Enquanto isso, no Reino Unido, um novo jornal impresso é lançado. Tá certo.

Indo pro fim, deem uma olhada nesta matéria da CJR sobre um sujeito que criou um app para que jornalistas cidadãos vendam materiais para veículos de um jeito fácil e rápido. O usuário do Verifeye Media Pro Camera que testemunhar algo pode subir conteúdos a partir do seu próprio telefone (por enquanto, o app só está disponível para iPhone) e em instantes ter seu material comprado por alguma empresa jornalística. O conteúdo precisa ser aprovado por um editor, mas grande parte da verificação é feita automaticamente a partir de dados do próprio dispositivo do usuário e dos metadados do arquivo enviado. Uma pequena revolução na verificação digital e na distribuição de conteúdo gerado por usuários.

Pra finalizar, um bom lugar para ler análises jornalísticas feitas por gente interessante sobre os últimos acontecimentos políticos da república.

Bueno, era isso então. Vou ali ver o Masters 1000 de Indian Wells.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório