Buenas, moçada!

Que tal? Foi meio pesada essa semana, hein? Mas beleza, as coisas se ajeitam.

Em um momento em que é preciso observar atentamente o trabalho do jornalismo (e perceber o quanto é difícil exercer a nossa profissão com a responsabilidade que ela exige), gostaria de começar sugerindo a leitura deste texto, publicado no Nieman Lab. Ele foi escrito por um professor da Universidade do Sul da Califórnia chamado Mike Ananny. Simpatizo com as ideias de Ananny desde que ele escreveu sobre o comportamento do jornalismo em eventos de breaking news, a propósito do desastre que foi a cobertura das explosões na maratona de Boston, em 2013.

Pois bem, desta vez Ananny escreveu sobre o papel do ombudsman na era das mídias sociais. O gancho do texto é a saída de Margaret Sullivan do cargo de “public editor” do NYT. Ela vai assumir uma coluna de mídia no Washington Post. O professor da Annenberg School for Communication and Journalism aproveita a substituição para fazer um apelo ao NYT por meio de uma carta aberta. Em resumo, ele sugere que cabe ao jornal americano – talvez o maior símbolo do jornalismo no mundo – atualizar as funções do ombudsman. Se a responsabilidade de quem ocupa este cargo é fazer uma crítica ao jornalismo ao mesmo tempo em que mostra aos leitores como ele funciona, hoje, para fazer isso, diz ele, é preciso saber falar “uma nova linguagem sobre a ética nas plataformas, que são parte jornalismo profissional, parte desenvolvimento tecnológico, mas sempre valores públicos”.

“Isso significa que um ‘public editor’ deve se responsabilizar por uma mistura que envolve jornalistas, empresas de mídias sociais, engenheiros responsáveis por algoritmos e audiência fragmentada – sendo capaz de explicar aos leitores o que é esta mistura e por que ela é importante. Este ‘public editor’ deve dominar as tensões e as negociações do jornalismo empreendedor, mas também deve ser um especialista em relação às fronteiras do jornalismo, política das plataformas, ética dos algoritmos, e a emergência da ‘liminal press‘, que fica em algum lugar entre o jornalismo tradicional e o design de software.”

Em um momento em que “não se sabe bem onde a redação termina e a audiência começa”, reinventar a função do ombudsman, argumenta Ananny, significa estar atento ao que é fundamental para o interesse público por meio da reafirmação da importância do jornalismo. Algo que o “Facebook não pode ou não vai fazer”.

Um tópico recorrente na NFJ, vocês sabem, é a relação entre jornalismo e tecnologia, especialmente no âmbito da perda do controle, por parte do jornalismo, de aspectos que sempre fizeram parte do ciclo da notícia. A distribuição talvez seja o mais preocupante. Foi o assunto (novamente) da semana passada, quando abordei mais um discurso de Emily Bell. Atentos que são, vocês devem ter percebido que por trás da carta aberta de Ananny ao NYT está uma preocupação semelhante: a (re)afirmação do que é o jornalismo e por que ele é importante em um momento em que as definições se tornam difusas. O próximo texto que eu gostaria de sugerir a vocês também pode ser lido a partir de um ponto de vista parecido.

É este aqui, uma matéria, também do Nieman Lab, sobre o novo empreendimento de Philip Balboni, fundador do site GlobalPost, baseado em Boston, vendido ano passado ao conglomerado WGBH. Um dos saldos do negócio foi os direitos sobre as newsletters do veículo, que ficaram nas mãos de Balboni. Ao perceber que ele ainda teria algo a oferecer à profissão após 49 anos de trabalho, decidiu lançar uma newsletter independente, a Daily Chatter. A ideia do serviço é oferecer um panorama do mundo em dois minutos – o tempo necessário para ler o email. A assinatura custa US$ 12 por ano. Quem assinar agora, ganha 90 dias grátis.

Mas o que eu gostaria de chamar a atenção em relação ao empreendimento é a filosofia por trás da escolha do formato do conteúdo. “Eu fiquei entusiasmado com a possibilidade de trabalhar em algo sustentável, que não dependa de todas as coisas que estão além do controle dos jornalistas atualmente, como a tecnologia por trás da publicidade e as mídias sociais. No GlobalPost, eu percebi essa perda de controle sobre muitas coisas que são importantes para o seu sucesso”, disse Balboni ao Nieman Lab. Ele acha que, hoje, “a publicação, a receita e o crescimento da audiência estão na mão de outros”, no caso, as grandes plataformas.

Balboni escolheu ter o maior controle possível sobre o seu produto. Mesmo que, para isso, precise focar em um nicho, o que automaticamente limita o crescimento do empreendimento. O objetivo da Daily Chatter é chegar a uma parcela da população “altamente educada, de todas as idades e de diferentes níveis financeiros”. O restante da matéria traz mais detalhes sobre como a newsletter é feita e como a experiência de Balboni no GlobalPost pode ajudar na empreitada.

Mas e quem não pode ser nicho, como um grande player mundial? Ainda com o controle como questão de fundo, confiram esta matéria aqui, também do Nieman, sobre a Lantern, a nova ferramenta de audiência do Financial Times. Segundo disse ao Nieman Renée Kaplan, chefe de audiência e engajamento do jornal, o objetivo é tornar as métricas mais compreensíveis para a redação, auxiliando as decisões editoriais. Ok, até aí não temos grandes novidades. Também não há nada revolucionário quando ela sublinha que a Lantern vai ajudar o editorial e o comercial a se entenderem melhor, permitindo que tomem decisões em conjunto.

Mas tem uma fala dela que eu gostaria de destacar. Me parece que ela resume o desafio que esses gigantes do jornalismo precisam encarar para seguir existindo em um cenário em que a volatilidade às vezes parece eufemismo para caos.

“Quanto mais todas essas pessoas consigam ver e entender como a redação interpreta essas coisas, mais útil vai ser para chegar a um denominador comum em relação a um entendimento e a uma definição dos problemas, desafios e oportunidades que enfrentamos. Assim, nós conseguimos ter um plano conjunto mais focado sobre como encarar esse cenário, e o que precisamos fazer, porque está claro que a quantidade de formas de chegar aos leitores, assim como as plataformas disponíveis, só vão aumentar. Nós temos uma quantidade limitada de recursos para desenvolver o que desejamos, então o plano é saber como podemos trabalhar juntos e ter certeza em relação ao que estamos investindo.”

Do outro lado do Atlântico, a CNN também busca um norte. Segundo esta matéria do WSJ, a emissora norte-americana vai investir US$ 20 milhões na “expansão digital”. O foco está em três áreas: vídeos para web, mobile e expansão global.

Leiam este trecho, com aspas de Andrew Morse, vice-presidente editorial da CNN:

“‘O mundo mudou’, ele disse. ‘Escala não é mais suficiente. Nós não podemos lutar a última guerra. A guerra da homepage no desktop – nós já vencemos.’ Ele disse que o modelo de jornalismo digital que tenta ‘replicar um serviço de notícias’ está caindo em desuso, no momento em que empresas nativas digitais experimentam outros tipos de jornalismo. ‘Nós precisamos ser ágeis e habilidosos digitalmente’.”

Tarefa árdua, senhor Morse.

Falando em vídeo, um rápido parêntese. Confiram nesta matéria do BBC Academy como ninguém sabe direito como lidar com a geração do YouTube (e outros canais de vídeo). O texto é sobre um evento promovido pela Royal Television Society (RTS) para tentar descobrir por que adolescentes assistem tanto ao YouTube. Essa frase é meio que brincadeira, mas define bem o desafio do encontro. Segundo Charles Miler, o autor do post, o painel passou uma impressão de que “todo mundo acima de 25 anos fica perdido quando se trata de vídeo online”. O texto também não é muito esclarecedor, mas talvez tenha sido esse o resultado do encontro. Mas sempre dá pra aproveitar alguma coisa. Mesmo que não relação ao jornalismo diretamente. Lendo o post, descobri o Copa 90, considerado a Vice do futebol. Vejam o vídeo de apresentação do canal. Parece massa. E tem um grande nome: Copa 90. Deu saudade daquela copa em que ninguém fazia gol. Só Lineker e Toto Schillaci.

Voltando ao que interessa, confiram nesta matéria do IJNet como o Washington Post vem tentando aplicar a estratégia da Amazon no jornalismo, que é mais ou menos a seguinte: “a ideia é obter o maior número de pessoas que provem o seu produto (no jornalismo, a distribuição é feita por meio das redes sociais), levá-las a pagar por um desses produtos, e, depois, fazê-las voltar para comprar outros produtos de maior valor. Em cada fase, o número de clientes é menor, mas eles vão gastar mais”.

Segundo o IJNet, o Post vem sendo criticado por assumir uma postura parecida com a do Buzzfeed, apostando muito em listas e em manchetes chamativas. Mas parece estar funcionando. O jornal diz ter passado o NYT em termos de tráfego nos últimos meses. Me chamou a atenção um posicionamento do editor digital do jornal, Emilio Garcia-Ruiz, que se assemelha muito ao de Andrew Morse, da CNN: o modelo tradicional de jornalismo, da primeira página e da homepage, não funciona mais no mundo digital, o que justificaria apostar num modelo baseado no compartilhamento.

Beleza. Mas não esqueçamos a questão do controle. O próprio texto do IJNet chama a atenção para a recente fala de Emily Bell, destaque da última NFJ.

E já que falamos bastante sobre negócios hoje, confiram este texto do colega Sérgio Spagnuolo, editor do Volt Data Lab, em que ele se pergunta como, afinal, ganhar dinheiro com jornalismo. Escrito em inglês para o canal do curso de inovação em jornalismo da CUNY no Medium, as palavras do Sérgio soam quase como um desabafo. Ele diz que quer, sim, ganhar alguma grana com jornalismo, mas quer seguir fazendo jornalismo. E não brand content, ou qualquer outra coisa que se assemelhe levemente com jornalismo. É difícil, mas ele fez uma escolha.

“Se o Volt quisesse focar apenas em branded content, cursos ou consultoria – o que seria ok, aliás -, não estaria fazendo jornalismo. Seria uma empresas de serviços, o que não é o que queremos. Volt quer fazer jornalismo mesmo, mas precisa sobreviver como uma empresa. Como não somos grandes o suficiente para apostar em publicidade de escala, nem estamos inclinados a produzir branded content, decidimos um modelo onde nossos assinantes – redações e ONGs – pagam pelo conteúdo. Ser eles vão pagar um valor razoável para republicar, explorar, ter acesso ao texto, ao código e aos gráficos, e enviar sugestões e interagir conosco, vamos saber mais para frente. Nós estamos apostando que alguns publishers o farão. Ou nós iremos achar outro modelo de negócio que funcione para fazer jornalismo.”

Acompanharemos. Seja no Daily Chatter, na CNN, no Washingont Post ou no Volt.

Adiante e indo para o fim.

Deem uma conferida neste breve relato sobre uma oficina com o jornalista Juan Cruz, do El País, sobre ser jornalista, durante o Congresso Internacional de Língua Espanhola (CILE), que está rolando em San Juan, Porto Rico. Cruz usou uma frase interessante para definir a nossa profissão. “O jornalista deve ser o capitão do leitor”. No caso, ele se refere à capacidade que o profissional precisa ter para conduzir o leitor por meio das palavras. “Quanto melhor dominarmos a linguagem, melhor pontos de vista daremos ao leitor. A escrita é a arma fundamental do jornalista”, disse Cruz, segundo o site do FNPI. Tomando a liberdade de deslocar essa frase para um contexto mais familiar à NFJ, talvez possamos ser também um capitão que usa sua capacidade profissional para conduzir o leitor através da tempestade informacional em que estamos cada vez mais metidos. O que me leva a pensar sobre a importância crescente do gatewatching no jornalismo de hoje.

Enfim, para terminar

Duas rápidas. Vocês viram que o Guardian vai demitir 250 (100 do editorial) para “reestruturar partes menos rentáveis da empresa”? Pois é. E um condensado de links e tweets sobre a Apple abrindo o News para a geral (“publishers of all sizes”).

E mais outra rápida. Mashable registra reações após o Twitter tornar padrão a timeline baseada em algoritmos. E parece que o Instagram quer entrar na onda.

Falou? Vamos nessa porque há uma noite de sexta pela frente.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂