Buenas, moçada!

Tudo em cima por aí? Por aqui, devagarinho, como todo feriado deveria ser: chuva lá fora, Miami Open na TV, mate daqui a pouco e um vinhozinho à noite.

Começo com uma discussão recorrente na NFJ: o uso de conteúdos gerados por usuários durante eventos de breaking news. Este artigo publicado ontem no Guardian por Martin Belan, editor de mídias sociais e novos formatos do jornal britânico, questiona o comportamento do jornalismo após os ataques registrados em Bruxelas na terça-feira. Mas trata-se de um questionamento sincero, de quem sabe o quanto é difícil encarar os dilemas éticos que uma situação extrema impõe à prática jornalística, especialmente quando a cobertura se dá em tempo real.

Assim como em outros acontecimentos semelhantes, jornalistas caíram em cima dos perfis que haviam publicado fotos, vídeos ou informações das explosões. Não é bonito, de fato, ver um perfil de uma testemunha receber pilha de perguntas, feitas a partir de diferentes partes do mundo, a milhares de quilômetros do acontecimento, que dizem mais ou menos assim: “Oi fulano, aqui é o beltrano da emissora XYZ, espero que esteja tudo bem com você. Posso usar a imagem que você postou?” Mas qual deveria ser o comportamento do jornalismo em um momento como esse? Há quem critique dizendo que não se apura mais como antigamente.

Mas antigamente era melhor, pergunta Belan, citando as famosas “death knocks”, quando um repórter batia na casa de um alguém que havia recém perdido um ente querido para perguntar como ele estava se sentindo. Talvez vocês se lembrem, falei exatamente sobre isso na NFJ 65, a propósito do tiroteio que deixou uma dezena de mortos no Oregon, em outubro do ano passado. Naquela oportunidade, citei um texto em que o jornalista Barry Petchesky lembra da véspera de Natal que ele passou na casa de uma mãe que recém havia perdido seu filho. Assim como todos os jornalistas que inundaram a timeline de quem testemunhou o terrorismo em Bruxelas, ele precisava fazer uma matéria. A diferença é que, hoje, as “death knocks” estão escancaradas, “todos podem ouvi-las”, escreveu Belan.

Ele lembra que o marco desse tipo de approach teve início nos atentados de Londres, em 2005, e faz um exercício interessante para provocar a reflexão. E se os atentados de 11/9 tivessem ocorrido em 2011, e não em 2001? Belan:

“Se os ataques tivessem acontecido em 2011, e não em 2001, é quase certo que algumas das primeiras imagens que os jornalistas teriam acesso seriam de pessoas na torre sul do World Trade Center, tirando fotos da torre norte em chamas e postando nas redes sociais, sem saber que o voo 175 da United Airlines estava prestes a se chocar contra o local onde elas estavam. Certamente haveria vídeos de dentro das torres enquanto as pessoas eram evacuadas.

Os veículos de notícias usariam essas imagens? Talvez eles escolhessem usá-las em um primeiro momento, até que ficasse claro que as pessoas que tiraram aquelas fotos provavelmente estariam entre os mortos?”

Belan segue dizendo que os editores que lidam com esse tipo de cobertura precisam tomar decisões difíceis rapidamente, às vezes tomados pela mesma emoção que afeta o público durante eventos como esse. Por isso, diz ele, “precisamos aceitar que nem sempre fazemos as melhores escolhas no calor do momento”.

Leiam lá.

Ainda sobre breaking news, o Washington Post criou uma ferramenta que monitora a velocidade dos emails de breaking news enviados aos seus assinantes, comparando com a concorrência. É, amigo, o jogo é pesado. Esta matéria do Nieman Lab explica brevemente o funcionamento do BreakFast. Não é muito fácil de entender, confesso. Pelo menos em uma primeira leitura. Mas o interessante é observar de que maneira esses grandes do jornalismo estão tentando melhorar sua capacidade de noticiar os eventos – editorial e tecnicamente.

Se aceleramos por um lado, desaceleramos por outro. O Delayed Gratification chama a atenção para a história por trás de um dos mais importantes breaking news de 2015, a queda do voo 9525 da Germanwings, que se espatifou nos Alpes franceses um ano atrás. O link remete para uma matéria da GQ sobre o piloto Andreas Günter Lubitz, que teria jogado o avião contra as montanhas de propósito.

Ainda não li. Mas quero.

Já que é feriado, dá pra indicar umas leituras mais longas, né? Então deem uma conferida no perfil da Lara Setrakian no Mashable. Setrakian é a mulher à frente do News Deeply, uma organização noticiosa que se propõe a fazer coberturas aprofundadas sobre determinados tópicos – em geral, conflitos e crises humanitárias. O texto de Jason Abbruzzese conta como ela deixou uma carreira promissora de consultoria corporativa em Wall Street para se tornar jornalista depois de presenciar o atentado que matou o premiê libanês Rafik Hariri. Dali, foi catapultada para a Primavera Árabe, experiência decisiva para o surgimento, em 2012, do Syria Deeply, a primeira e mais importante cobertura do News Deeply.

Descobri o Syria Deeply quando ainda trabalhava no Terra cobrindo o noticiário internacional. Naquele momento ele me chamou a atenção especialmente por duas coisas. Primeiro, o executive summary, um resumo diário do que havia acontecido nas últimas 24 horas em relação ao conflito. Segundo, a home do site transformada em dashboard – uma espécie de painel de controle da cobertura do conflito. Ambos os aspectos anteciparam inovações no jornalismo que ainda estão sendo experimentadas e “digeridas” pelo campo profissional e acadêmico. O executive summary explora todo o potencial da curadoria como uma forma de jornalismo capaz de organizar o caos informacional que tanto nos angustia (mais ou menos o que essa newsletter tenta fazer com os assuntos relacionados à nossa profissão). O dashboard, bom, na minha opinião, ainda tem um grande potencial a ser explorado, mas também já foi assunto aqui na NFJ, em especial na edição 53.

Além desses dois aspectos, o perfil ainda aborda empreendedorismo, modelo de negócio no jornalismo e de mulheres à frente de cargos em geral ocupados por homens (correspondente internacional cobrindo conflitos, CEO, empreendedora).

Bom material do Mashable. É meio grande, mas é fácil de ler e está bem bonito.

Falando em representatividade do mundo do jornalismo, deem uma olhada nesta pesquisa publicada no Guardian sobre quem são os jornalistas atuando no mercado britânico. Segundo um levantamento realizado pela City University London, 94% são brancos e 55% são homens. Os dados mostram ainda que apenas 0,4% dos jornalistas britânicos são muçulmanos e 0,2% são negros, sendo que quase 5% da população é muçulmana e 3% é negra. Segundo os autores da pesquisa, essa disparidade se deve muito ao fato de que jornalismo é uma profissão de classe média. Trinta e seis por cento dos profissionais que chegaram ao mercado nos últimos três anos têm mestrado. Com o custo da educação no Reino Unido cada vez mais alto, ainda mais na pós-graduação, cresce a competitividade no mercado, o que gera uma preocupação ainda maior em relação à diversidade das próximas gerações de jornalistas na terra da rainha.

Adiante.

Enquanto a gente (sobre)vive, os gigantes seguem brigando. Agora parece que o Google está desenvolvendo um app de streaming no estilo do Periscope, do Twitter, e o Facebook Live. Pelo menos é o que diz esta matéria do VentureBeat. Tá bem, vamos esperar pra ver no que dá. Falando em Twitter, a mais nova da turma do Jack Dorsey é a permanência do limite de 140 caracteres por tweet. Por favor, né.

Falando em Twitter (que fez 10 anos nesta semana, aliás), leiam este interessante artigo de Klaus Beck, professor da Freie Universitat, em Berlim, sobre o Twitter ser usado por redes terroristas para espalhar o medo e divulgar seus feitos. Ele sugere que os jornalistas tenham mais cuidado ao utilizar a plataforma. Escreve Beck:

“Atualmente, os terroristas seguem as estratégias de sucesso de empresas profissionais e políticos de forma pérfida: em vez de explorarem os media apenas como um instrumento, eles contornam o jornalismo na sua totalidade, com a ajuda das redes sociais.

[…]

No passado, a indústria do entretenimento foi mobilizada para servir a propaganda de guerra. Agora, elementos dessa indústria – pop, rap, banda desenhada, séries de TV e videojogos, e até mesmo as famosas fotografias de gatos (#catsofjihad) – tornaram-se fulcrais para a estratégia dos terroristas no Twitter.”

Ainda sobre mídia e terrorismo, leiam este artigo publicado no Emergency Journalism. No texto, Lauren Williams reflete sobre uma questão crucial hoje:

“A manipulação de veículos de imprensa tradicionais pelo Estado Islâmico representa novos desafios e dilemas éticos para os profissionais de mídia e para os agentes governamentais. Os governos têm se concentrado em bloquear as plataformas do Estado Islâmico, enquanto ignora o papel que a mídia tradicional tem em publicizar as ações do movimento terrorista, ajudando-o a obter o reconhecimento e a legitimidade que ele procura”.

Seguimos.

Outra leiturinha para este feriadão. Esta entrevista que o Mathew Ingram fez com Alexander Klopping, co-fundador do Blendle, a propósito do lançamento do serviço nos Estados Unidos. Pra quem ainda não conhece muito bem o Blendle, é uma boa oportunidade. Ingram recapitula o contexto de surgimento da iniciativa e faz Klopping abordar pontos interessantes não só em relação ao modelo de negócio, mas também sobre inovações no jornalismo. O Blendle desenvolveu uma plataforma que explora uma tendência (curadoria de conteúdo) no timing para conseguir fazer alguma grana (no momento em que as pessoas pagam Spotify e Netflix). Por que não pagar alguns centavos por bom conteúdo jornalístico selecionado?

Agora uma rodada breve pelo mundo dos podcasts. Começo com esta dica do IJNet: cinco podcasts para quem curte jornalismo de dados. Sigo com este dos e dont’s para quem faz podcasts, oferecido pelo Online Journalism Blog. E este aqui, bom, este link aqui é um post do ombudsman da NPR a respeito de uma discussão interna sobre a maneira como os podcasts da rádio devem (ou não) ser divulgados nas emissoras da rede pública norte-americana. Pelo que pude notar, é uma luta de gerações, de duas maneiras de encarar o rádio. Em resumo, a rádio (e suas emissoras locais) não veem com bons olhos ascensão dos podcasts (da própria rádio!), pois eles tendem a centralizar a audiência, tirando a chance de sobrevivência dos formatos mais tradicionais – ainda mais nas pequenas retransmissoras da rede.

Discussão complexa. É de se observar.

Ainda sobre podcasts, deem uma olhada no Coisas que a gente cria, um podcast de entrevistas lançado pela colega Barbara Nickel. Neste texto ela conta qual é a ideia do projeto e por que decidiu entrevistar mulheres que de alguma forma ela admira.

“Tenho muita curiosidade sobre as motivações, os processos de tomada de decisão, as histórias e as rotinas de pessoas que eu admiro profissionalmente. Especialmente as mulheres. Temos tantos desafios a vencer em uma cultura que, eu acredito, está em transformação, mas não foi criada para lidar com naturalidade com mulheres bem sucedidas como líderes e empresárias. Temos tantos desafios internos a vencer. E tantas outras barreiras externas. Como elas conseguem? Como a gente pode aprender com a história de uma ou de outra?”

Tem dois episódios no ar. A primeira entrevistada é a jornalista, ultramaratonista e empreendedora Daniela Santarosa. Ouçam lá!

Antes de ir, vocês conhecem o plus55, um site que se propõe a explicar o Brasil para o mundo? À revista Exame, o publisher Gustavo Ribeiro disse que a ideia não é ser um mero tradutor. “O conteúdo é pensado para adaptar e contextualizar a informação sobre o Brasil para o estrangeiro”. Deem uma olhada.

Uma última: vocês lembram que na edição 70 da NFJ eu citei um projeto de crowdfunding do jornal Já, aqui de Porto Alegre, para realizar uma série de reportagens sobre o Cais Mauá, cuja polêmica revitalização não vinha sendo abordada com a profundidade que merecia? Pois bem, o projeto foi adiante e as três matérias do Dossiê Cais Mauá já estão publicadas. O material todo está aqui.

Pra entrar no ritmo do feriado mesmo, leiam este texto do Luís Felipe dos Santos sobre como Johan Cruyff, que morreu ontem ao 68 anos, ajudou a mudar o futebol. E assistam a este vídeo sobre a campanha da Holanda em 1974.

Feito?

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório