Buenas, gurizada!

Chegamos à 85º edição da NFJ, uma newsletter livre de piadas de 1º de abril. A edição de hoje atrasou um pouco porque passei duas horas com um olho na tela, outro no jogo entre o David Goffin e Djoko pela semifinal do Masters 1000 de Miami. Que grande jogo. No mais, a vida segue quente, embora o verão tenha ido embora.

Vamos nessa, então.

Volta e meia falo (ou escrevo) que muita coisa mudou no cenário jornalístico digital (brasileiro e mundial) nos últimos três anos. E isso é bom. Mas também volta e meia me dou conta de que tem muita coisa igualzinha à época em que comecei, ou desde sempre. Quando eu trabalhava no Terra, sempre que a janela do MSN piscava com uma mensagem de alguém acima na hierarquia, existia grande probabilidade de conter a pergunta “Temos?”, ou sua variante “Demos?”, seguido de um link da concorrência ou da imprensa internacional. Era uma maneira de dizer “precisamos disso, faça”. Eu, inclusive, perguntei muito se tínhamos tal notícia ou já havíamos dado tal matéria. Às vezes tratava-se de algo importante. Outras tantas, o que importava era audiência. Quando não eram ambas. Era assim que funcionava.

Lembrei disso enquanto li este texto do Frederic Filloux, do Monday Note, sobre o mal que a cegueira por audiência faz ao jornalismo. O título não deixa dúvidas: Clickbait Obsession Devours Journalism (algo como A obsessão pelo caça-clique devora o jornalismo). Filloux usa como exemplo aquela história do bot racista da Microsoft para chamar a atenção para o fato de que a padronização (ou, como ele prefere, comoditização) do jornalismo alcançou níveis sem precedentes.

Escreve Filloux:

“O que nós vemos hoje é um vasto fluxo de informação duplicada, embaladas em uma miríade de formas diferentes, mas que compartilham um objetivo comum: chamar a atenção de usuários e retê-los a qualquer custo.”

Esse custo, segundo ele, é financeiro e jornalístico. O primeiro é em função da tecnologia necessária para fisgar os usuários. Desenvolver sistemas complexos que ajudem a elevar os pageviews, como rastreadores em forma de cookies, por exemplo, exigem altos investimentos em software, licenças e treinamento.

O prejuízo jornalístico é evidente, todos sabemos, embora às vezes não seja muito fácil de dimensionar o estrago que uma estratégia caça-clique é capaz de fazer.

“Ao invés de redatores avaliados por sua capacidade de produzir material original, sólido, preferencialmente inédito, muitos publishers dependentes de anúncios precisam alimentar o monstro com uma fila de servos digitais selecionados por sua capacidade de gerar volume, e não por suas habilidades jornalísticas.”

Quando precisamos ter / dar é algo – em tese – importante e potencialmente atrativo para a audiência, caprichamos naquela manchete senso comum (a única coisa que nossa audiência entende e/ou quer ler) capaz de nos entregar o combo analytics bombando e chefia satisfeita. O problema é que, encerrados dentro da redação (e aqui redação é uma metáfora para nossa incapacidade de um olhar mais abrangente quando estamos de cabeça baixa, trabalhando 12 horas por dia), não percebemos que aquele texto recém publicado não vale nada, pois toda a concorrência têm um igual. E pior, ao fazer isso, entramos num redemoinho acéfalo e reprodutor de estereótipos que só ajuda a enterrar o jornalismo.

Comentários à parte, voltemos ao texto do Filloux, que, aliás, diz não “condenar esta evolução”, pois “não tem saudade dos velhos tempos”. Mas para tentar melhorar este quadro, ele propõe três saídas. Primeiro, se for o caso de apostar no click-bait para sobreviver, aposte também em jornalismo. Como fez o BuzzFeed ao abrir um departamento de jornalismo investigativo. A segunda opção é limitar os efeitos do click-bait cobrando dos seus leitores. Como se fosse fácil. A terceira opção é apostar na filantropia. Mas, como diz o próprio Filloux, é difícil reproduzir este modelo fora dos Estados Unidos, país em que existe a cultura do filantropismo.

Não tá fácil, gurizada.

Mas a coisa se ajeita. Nem que seja trazendo de volta alguns parâmetros da era pré-Internet. Olhem só o que está fazendo o The Times. Fechado para assinantes desde 2010, o tradicional jornal britânico vai deixar de cobrir breaking news e/ou notícias do dia a dia para se dedicar a reportagens em profundidade, análises e opinião. E o mais curioso: o site será atualizado apenas três vezes por dia!

Olha o que disse o chefe da área digital do The Times, Alan Hunter, ao Digiday.

“Nossos leitores não chegam buscando breaking news; para isso, eles podem ir à BBC ou ao Twitter, que são gratuitos. Eles buscam a credibilidade das nossas reportagens, opiniões e análises. Breaking news se tornou uma commodity, e é difícil fazer as pessoas pagarem por isso. Acreditamos no poder das edições digitais. […] As pessoas falam sobre conteúdos que chocam e sobre a sensação de ser bombardeado por uma avalanche de notícias dia após dia, hora após hora. Há uma sensação de que isso não pode continuar. Nós queremos ajudá-los a dar sentido a tudo isso e assegurar que nossos leitores saibam o que é importante.”

Tá certo. O Digiday conta o plano do Times em detalhes. Vale dar um conferes.

Adiante.

Talvez vocês tenham visto que aconteceu um atentado terrorista em Lahore, no Paquistão, durante esta semana. Ou talvez não. Pois é, este mais ou menos é o tema deste texto assinado pelo Martin Belam, editor de mídias sociais e novos formatos do Guardian. Ele volta a se debruçar sobre a polêmica a respeito da qual já havia escrito quando dos atentados de 13 de novembro (assunto da NFJ#72, inclusive com um texto de Belam): por que a mídia não dá a mesma atenção que deu a Paris ou Bruxelas a tragédias semelhantes fora da Europa (ou do Ocidente)?

Belam começa jogando outra pergunta no colo de quem faz essa crítica: por que há tão pouca audiência interessada em um assunto tão importante quando o atentado de Lahore? Ele mostra que essa notícia – a mais importante daquele dia, segundo ele – não estava nem no top 5 da ferramenta de audiência do Guardian. Quando a cobertura era de Bruxelas, todo o top 10 estava tomado por notícias do terror na capital belga. Mas a ideia de Belam não é transferir responsabilidades.

Na sequência, ele aponta várias razões pelas quais uma cobertura gera mais atenção do que outra, embora o acontecimento tenha a mesma natureza. Proximidade, questões logísticas de cobertura, identificação dos leitores com cidades europeias, etc. Ele não aprofunda muito, mas o texto parece ser uma boa entrada para discutir critérios de noticiabilidade em tempos de internet social. Ao sermos questionados pela audiência (embora muitas vezes com argumentos frágeis), começamos, aos poucos, a levantar dúvidas em relação a práticas jornalísticas já bem cristalizadas. É como quando uma criança pergunta algo simples e recebe uma longa história como resposta, que, no fim, não explica nada. Por que, pai, todo mundo fala de Bruxelas mas ninguém fala de Lahore?

Ainda sobre breaking news, deem um conferida neste post do blog de jornalismo da BBC. A consultora de redes sociais Sue Llewellyn fala sobre o uso de WhatsApp por equipes de jornalistas cobrindo um evento importante. Ela conta um episódio ocorrido em janeiro, quando estava trabalhando na Indonésia e se viu em meio à cobertura de um atentado em Jacarta. Ela se surpreendeu que seus colegas da BBC responsáveis pela região do Pacífico estavam usando WhatsApp para se comunicarem uns com os outros. Eu não me surpreenderia, mas beleza. Enfim, o texto não é grande coisa, mas no fim ela dá umas dicas para quando todo mundo precisa pegar junto. Meio óbvio, mas às vezes o óbvio também precisa ser dito.

Permanecemos em Londres para falar deste material do Journalism.co.uk. É uma das matérias da cobertura que eles estão fazendo do ONA London 2016, evento do Online News Association que acontece hoje em Londres. O texto em questão fala sobre um código de ética para o uso de conteúdo gerado por usuários desenvolvido pela entidade. Trata-se de um trabalho realizado nos últimos três anos por um grupo de jornalistas de diferentes organizações. A ideia é sistematizar o conhecimento adquirido desde a emergência da internet social. Os principais tópicos estão aqui.

Mas como sou legal, vou traduzi-los, dando aquela resumida:

  1. Certifique-se de verificar o conteúdo antes de publicar ou distribuir. Mantenha os padrões adquiridos e mantidos em outras formas de apuração.
  2. Seja transparente com a audiência em relação ao status (de verificação) do conteúdo.
  3. Considere a segurança mental e física de quem contribui.
  4. Considere o risco que uma testemunha pode correr ao gerar um conteúdo solicitado por você.
  5. Assegure-se de manter o anonimato do autor do conteúdo quando necessário.
  6. Busque autorização para publicar o conteúdo diretamente com quem o gerou.
  7. Seja transparente sobre como o conteúdo vai ser distribuído.
  8. Dê o crédito ao autor do conteúdo, mas avise-o sobre as possíveis consequências que ele pode ter, inclusive em relação ao seu bem-estar físico e emocional.
  9. Alerte e prepare sua equipe para confrontar os perigos de seguir os rastros deixados por fontes nas redes sociais.
  10. Forneça apoio a jornalistas afetados por conteúdos pesados retirados das redes sociais.

Neste post sobre a mesa em que o código foi apresentado, Alison Gow reproduziu falas dos conferencistas. Destaco esta, de Fergus Bell, diretor de ética do ONA:

“Para os jornalistas, pensar em como demonstrar as conclusões a que estamos chegando em relação a uma história é um conceito alienígena. Mas temos que ter em mente que a audiência está ela mesmo pesquisando nas redes sociais, e se ficar a impressão de que você não está conduzindo um processo de verificação como um jornalista profissional, ela vai perguntar por quê.”

Que grande frase.

Neste outro link, uma entrevista publicada no IJNet, Bell segue explorando o tema.

“Os valores tradicionais da apuração não têm sido replicados no ambiente digital. Se continuarmos a operar desse jeito, especialmente de maneira desrespeitosa, será insustentável. Verificação digital precisa ser feita do mesmo jeito que no impresso: você precisa checar os fatos, construir confiança, cultivar relações e falar com fontes para conseguir a história ou mais sobre a história. Isso não está sendo feito.”

Se esse código de ética está sendo gestado faz um tempinho, certamente um dos marcos iniciais é a cobertura que o Andy Carvin fez da Primavera Árabe no Twitter, no já longínquo 2011 (sdds). Este post do Media Shift traz uma boa matéria sobre o significado das redes sociais no Oriente Médio cinco anos após o histórico levante.

Antes de abraçar o final de semana, uma rodada sobre podcast.

Interessante a indagação de Nicholas Quah na HotPod, uma newsletter sobre podcasts publicada no Nieman Lab: serão os podcasts capazes de superar os formatos atuais e produzir um produto jornalístico em áudio que seja digital-first?

A newsletter de Quah é longa (lembrou alguma que vocês conhecem?). No começo do texto tem um longo trecho sobre dança das cadeiras em emissoras e programas norte-americanos. Em meio a isso está um polêmico memorando interno da NPR, a rádio pública dos EUA. Em resumo, o documento informa que a emissora não vai mais promover seus próprios podcasts em sua programação / retransmissoras. Falei rapidamente sobre isso semana passada. Pois bem, o que gostaria de destacar dessa história toda é o que aborda o questionamento de Quah: se os podcasts serão capazes de inovar ou vão apenas reproduzir o formato consagrado do rádio.

“[…] simplesmente não há muitas organizações emergentes que explicitamente estão buscando novos parâmetros para o podcasts – ou instituições jornalísticas baseadas em áudio; sim, eu não consigo pensar em nenhuma iniciativa que esteja repensando a entrega de conteúdo jornalístico em áudio para o século XXI […]

Pra quem curte a discussão, vale a pena dar uma olhada na HotPod.

Talvez a pergunta de Quah seja respondida pelo NYT. Em outro memo que vazou da redação (como adoram esses memos, te dizer…), o gigante do jornalismo anunciou que vai montar uma equipe para pensar e produzir podcasts. Um trecho:

“No mês que vem nós vamos começar a montar uma equipe de áudio para criar programas que combinem a autoridade do The Times com um som que reflita todo o potencial criativo do jornalismo em áudio. Nosso objetivo é lançar vários podcasts de alta qualidade de notícias e opinião em 2016, e mais no ano que vem […].”

Tá certo.

Pra finalizar, o BRIO tem boas notícias para dar a vocês.

Era isso, gente.

Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório