Buenas, moçada!

Mais uma sexta-feira em nossas vidas. Por aqui, tempo chuvoso e abafado. Parece que o verão tá dando seu último recado com o que ele tem de pior: calor nojento com umidade a 367%. Mas ok. Louco por vestir uma manga comprida, sigo.

Bueno, não preciso escrever o lide sobre os Panama Papers, certo? De qualquer maneira, pra quem não leu, ou leu pouco sobre o assunto, o Nieman Lab fez um bom resumo dos principais aspectos da investigação. Aqui tem um texto no Medium sobre como o jornalismo de dados está se tornando um “importante antídoto contra atividades ilegais de empresas e governos”. Agora vamos ao que interessa (aqui).

Esta matéria publicada pelo Fusion relata os bastidores do gigantesco trabalho de reportagem capitaneado pelo ICIJ. Ela conta várias coisas que talvez vocês já saibam, como o volume de material vazado (2,6 TB!), a quantidades de jornalistas envolvidos no trabalho (quase 400) e que tudo começou quando uma fonte – cuja identidade não foi relevada – entrou em contato com o jornalista Bastian Obermayer, que trabalha no jornal alemão Suddeutsche Zeitung (a Wired conversou com Obermayer). Mas o que eu gostaria de destacar do texto do Fusion é o trecho em que Will Fitzgibbon, jornalista do ICIJ que participou do projeto, conta como a equipe trabalhava. Me chamou a atenção especialmente o iHub, uma plataforma ultra segura e que funcionava como uma rede social.

“[…] o hub de colaboração foi uma rede social interna e banco de dados chamado iHub, que foi desenvolvido para ajudar os repórteres a trabalharem em conjunto – essencialmente um Facebook para jornalistas investigativos que estavam trabalhando no projeto. Repórteres tinham seus perfis pessoais, podiam mandar mensagens uns para os outros, e criar diferentes grupos para colaborar em uma variedade de tópicos de investigação. O sistema estava protegido por várias camadas de criptografia e senhas de 30 dígitos.”

E não deixem de conferir o site do The Panama Papers. Dá pra passar um tempinho se divertindo com as informações disponíveis lá. Mas se quiser ir direto para o link do Eduardo Cunha, é só clicar aqui.

Ontem o colega e amigo Leandro Beguoci recomendou este texto da Harvard Business Review. Li e passo adiante a recomendação. É um artigo assinado por John Geraci, que trabalhou durante dois anos no NYT na área de inovação e resolveu contar um pouco da sua experiência. O texto não é muito longo, mas traz alguns detalhes sobre o que ele fez lá, de como o Times, assim como vários outros players do jornalismo mundial, também patina para conseguir entender o jornalismo no século XXI, aquela coisa toda. Mas o mais interessante é a analogia que ele faz para comparar empresas que ainda estão presas a um tipo de pensamento do século XX e empresas que começam a entender que muita coisa mudou.

Geraci diz que grandes companhias como o NYT se comportam como se fossem grandes organismos. Como sabemos, organismos têm fronteiras bem definidas, uma lógica de funcionamento interno e alguns canais de entrada e saída. Pensem no corpo humano. Pois é assim que funcionavam as empresas dos nossos pais, diz Geraci. A equipe de estratégia do NYT, por exemplo, busca relações fora do organismo que possam ser interessantes para os negócios, canalizando as soluções encontradas para dentro do “corpo” empresarial. Mas isso não funciona mais.

“Empresas com a mentalidade de organismo são muito lentas para se adaptar e sobreviver no mundo moderno. O mundo ao redor delas muda, evolui, se recombina, e elas estão presas ao seu antigo DNA, seus mesmos problemas, suas mesmas velhas (e ineficientes) formas de resolver problemas.”

Por outro lado, há a mentalidade de ecossistema.

“Ecossistemas, por sua vez, não têm demarcação dos seus limites, são capazes de crescimento constante, de absorver novas entidades, se adaptar, reagir e se transformar. Eles não adquirem novos elementos os ingerindo, mas absorvendo novos componentes nas bordas da rede que o constitui. E quando eles fazem isso, eles criam novos valores para o ecossistema como um todo.”

Geraci diz que as empresas com essa mentalidade possuem a consciência de que não podem se dar ao luxo de ter limites bem definidos, fechadas em si. Precisam saber que fazem parte de um ecossistema maior. E que as soluções para os seus problemas não estão todas dentro das suas estruturas, mas do lado de fora, e para encontrá-las é preciso sair e interagir com quem as domina e as oferece.

O autor do texto cita a empresa Andreessen Horowitz como um exemplo de mentalidade de ecossistema. “A empresa inteira é organizada para funcionar como uma série de inputs e outputs, membranas permeáveis com o mundo ao seu redor”.

Membranas permeáveis. Isso lembra vocês de alguma coisa? Na edição 70 da NFJ escrevi sobre o Projeto Membrana, uma iniciativa da equipe de desenvolvimento do, vejam só, NYT para “transformar o conceito de comentar um conteúdo jornalístico, direcionando o leitor a uma intervenção construtiva”, como escrevi na época.

Outra coisa que essa história de membranas permeáveis lembra é a reconfiguração do ecossistema jornalístico. Na NFJ#58, ao falar sobre um artigo dos pesquisadores holandeses Mark Deuze e Tamara Witschge, usei uma analogia MEDIEVAL (literalmente, neste caso) para pensar sobre o jornalismo. Vocês permitem uma autorreferência? Confiram o que escrevi:

“A definição do que é jornalismo se daria “nas fronteiras” da profissão, um lugar de disputa entre os que estão dentro com os que estão fora, e não no “centro” do território. Trata-se de buscar identidade na volatilidade inerente ao tornar-se em vez de se agarrar na estabilidade do ser. Se o jornalismo fosse um castelo, sua essência estaria no embate realizado nas muralhas, e não na segurança da torre de menagem, sua parte mais fortificada e último bastião de defesa.”

Bueno, leiam o texto da HBR. Vale a pena.

Mudando de assunto, eis que o Facebook anunciou que a ferramenta de vídeos ao vivo estará disponível para todo mundo. Mark e sua turma seguem engolindo o mundo. O Nieman Lab fez um resumo de como a mídia está se movimentando em relação a isso (segundo o re/code, o Facebook está pagando para que alguns veículos usem a nova funcionalidade). Uma das expectativas é o Live Map (link ainda não está funcionando), que vai colocar no mapa os vídeos que estão sendo transmitidos naquele momento ao redor do globo. Uma ferramenta sem precedentes para o acompanhamento de eventos jornalísticos ao vivo. Evidentemente, o News Feed vai priorizar esse tipo de conteúdo à medida em que o Facebook Live Video ficar disponível para os usuários. Vídeos ao vivo goela abaixo, moçada. Para pensar um pouco no que isso pode significar, sugiro este post do Digidave.

Um trecho:

[…] Eu realmente espero ver um monte de posts do Facebook Live. Mas eu fico imaginando por que vou começar a ver tantos posts desse tipo. É porque os usuários estão pedindo? Há uma demanda GIGANTESCA vinda dos meus amigos, que querem transmitir seus almoços para mim ao invés de apenas postar uma foto? Ou é porque há outros apps de streaming ao vivo, como Periscope e Twitch, e o Facebook quer comer o almoço deles? É porque Zuckerbug (comentário meu: imagino que o bug seja proposital) pensa que é legal? Não sabemos. E não importa – porque a real é essa: o Facebook quer fazer a transmissão ao vivo ubíqua.”

E mais um, agora sobre jornalismo

“O algoritmo vai favorecer Live Posts. E o Facebook vai piscar o olho, balançar a cabeça afirmativamente e quem sabe dar dinheiro a quem jogar o jogo do Live Posts. E então nós veremos mais conteúdos desse tipo nos nossos feeds. Isso vai se converter em bons números para as marcas de mídia que quiserem alcançar maiores audiências (de novo – o algoritmo garante isso). ‘Viu, o Live Posts funciona”, gerentes de mídia irão dizer aos seus chefes. Isso irá inspirar plagiadores. E mais Live Posts nos nossos feeds. A funcionalidade sairá fortificada.”

A ver.

Antes de ir adiante, mais uma sobre o Facebook. Diz esta matéria da Bloomberg quer Mark que a gente poste mais sobre as nossas vidas. Por quê? Porque é com os nossos dados que o Facebook compra o leite pras crianças. E eles tão percebendo que não estamos postando tanto sobre nós mesmos à medida que nossas redes crescem. Não nos sentimos à vontade, acham eles, de compartilhar piadas ou publicar fotos do nosso almoço com tanta gente. É por aí mesmo. Bom, os vídeos ao vivo também fazem parte de uma estratégia para aumentar os conteúdos pessoais – assim como a funcionalidade “neste dia” (on this day), que sugere a republicação de coisas que postamos no(s) ano(s) anterior(res).

Adiante.

Não sei se vocês viram, mas o Medium anunciou novidades. A principal é o Medium for Publishers, uma plataforma com mais funcionalidades para “publishers and bloggers across the web” personalizarem sua casa no Medium. Outra coisa é a migração de conteúdos de blogs, mantendo os timestamps (data e hora original). Também foram lançadas duas formas de gerar receita: conteúdo promovido e um programa beta de assinantes. Em um futuro próximo eles devem anunciar a compatibilidade com o Instant Articles e com o Accelerated Mobile Pages.

A respeito dessas novidades, esta matéria do Nieman já traz algumas críticas. A principal é que o Medium estaria utilizando uma linguagem de agentes imobiliários para vender um espaço na “cidade Medium”, um lugar bonito, onde estão as pessoas certas. Estaria o Medium gentrificando a publicação na internet?

Indo para o final.

Tá rolando até domingo em Perugia a edição 2016 do International Journalism Festival. A programação, como sempre, é extensa. O legal é que tem várias mesas sendo transmitidas. E o Journalism.co.uk está fazendo uma ampla cobertura.

Destaco duas matéria que eles fizeram.

A primeira é esta, em que foi debatida a verificação automatizada nas redações. Em um contexto de urgência, trata-se de uma questão relevante. Sam Dubberley, cofundador do Eyewitness Media Hub, chamou a atenção para o fato de que conteúdos falsos seguem sendo um problema a cada grande acontecimento jornalístico, por mais que venha se falando bastante na importância do tema. Uma das iniciativas apresentadas foi o The Reveal Project, que incentiva a colaboração e utiliza algoritmos capazes de detectar fakes e manipulações em imagens.

A segunda é esta, sobre objetividade e transparência no jornalismo. Como o tema é complexo por natureza, nem a mesa, nem a matéria chegam a conclusões, claro. Mas vale por dar uma conferida no que alguns colegas acadêmicos e de mercado andam pensando sobre essa questão na era das redes sociais digitais.

Termino indicando uma conversa do Jornalistas&Cia com o Sérgio Lüdtke, que está trabalhando em uma pesquisa chamada Empreendimentos do Jornalismo Digital Brasileiro. O objetivo de Sérgio, segundo a matéria, “é verificar o estado do empreendedorismo digital no jornalismo brasileiro e identificar padrões de criação e evolução das iniciativas da área”. A entrevista é extensa o suficiente para compreendermos um pouco do cenário de empreendendorismo no jornalismo brasileiro, ou como o Sérgio o está percebendo. Destaco um trecho:

“É importante conversar com o público, saber o que o público quer. Temos que sair da nossa postura de que sabemos o que é melhor para o nosso público, sem necessariamente estarmos equipados com todas as possibilidades que se tem hoje. O jornalista precisa se preparar muito. Não pode ficar achando que, para fazer um trabalho jornalístico, pode repetir as coisas que fazia antes. Senão vai ser suplantado por alguém que vai empacotar melhor, por alguém que vai ter um publicitário do lado ou porque vai ler melhor o que o público está querendo (porque tem um profissional de analytics).”

Feito?

Coisas rápidas. Duas só, na verdade:
Oito passos para montar uma (pequena) equipe de jornalismo de dados.
Cinquenta e seis mulheres jornalistas que todos deveriam ler.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório