Buenas, moçada!

Bem por aí? Por aqui, clamando por um frio seco, lutando por um pace abaixo de 4:50 por mais de 10 quilômetros e torcendo pela sobrevivência da democracia.

No mais, vamos lá porque quase um terço do ano já passou por baixo da ponte.

Interessante material do Guardian a respeito dos comentários de portal. O jornal britânico analisou 70 milhões de comentários deixados no site desde 2006 para descobrir padrões de comportamento dos seus internautas. O resultado não chega a ser uma grande novidade: dos dez autores de artigos e/ou matérias que mais receberam comentários abusivos, oito são mulheres. E os dois homens são negros.

“Embora a maioria dos nossos colunistas de opinião sejam homens, descobrimos que quem sofre com os mais altos níveis de abuso e trolling não são. Dos 10 autores que mais recebem comentários abusivos, oito são mulheres (quatro brancas e quatro não brancas) e dois homens negros. Duas das mulheres e um dos homens são gays. E das oito mulheres no “top 10”, uma é muçulmana e uma é judia.

E os 10 autores que sofrem menos com abusos? Todos homens.”

O arquivo de comentários é destrinchado em várias análises. Por exemplo, embora os artigos escritos por mulheres recebam comentários abusivos em todas as editorias, quanto mais a editoria for dominada por homens, maior é a tendência de que artigos escritos por mulheres tenham comentários bloqueados. São os casos de esportes e tecnologia. A editoria de moda é um dos poucos casos em que os artigos escritos por homens recebem mais comentários que acabam bloqueados.

Um dado curioso. Os assuntos em que as discussões são mais respeitosas são palavras cruzadas, jazz, cricket e hipismo. Do outro lado estão as matérias sobre Israel/Palestina. E, claro, textos sobre feminismo – estes apresentam um grande número de comentários bloqueados. Assim como matérias sobre estupro.

Outra coisa legal é que o Guardian explica como funcionam os critérios de moderação e nos convida a experimentá-los fazendo um teste. São apresentados oito comentários diferentes e o leitor precisa liberar ou bloquear. A cada resultado, o jornal diz se faria o mesmo ou não e explica por que. Confiram lá, vale a pena.

Não é exatamente o mesmo assunto, mas se liguem nesta declaração do Ernst-Jan Pfauth, do De Correspondent, ao site da WAN-IFRA sobre a falta de diversidade na redação da iniciativa holandesa – e o que eles estão fazendo para mudar isso.

“Muitas vezes os jornalistas são daltônicos ao focar na qualidade do jornalismo ao invés de estar atento a quem está escrevendo. Mas se você olha para a redação e só enxerga pessoas parecidas com você, é necessário reconsiderar a definição de qualidade. E nós percebemos que, atualmente, diversidade significa qualidade.”

Vamos nessa porque há esperança.

Mudando de assunto.

Leiam o trecho abaixo.

“É tarefa dos locutores manterem a página [do Facebook] atualizada, então às vezes encontramos algo que nós consideramos engraçado ou curioso e compartilhamos sem nos darmos conta de que é falso. […] Não fazemos isso de propósito, acontece apenas porque não temos tempo de pesquisar.”

Quem disse isso foi uma locutora da emissora de rádio 93XFM, da Flórida. Ela foi entrevistada pelo BuzzFeed por chat do Facebook para esta matéria sobre notícias falsas na internet. O texto analisa o alcance de vários sites dedicados a produzir e espalhar fakes na web e nas redes sociais, mostrando o tamanho do desafio. “Vocês nunca vão parar a desinformação ou as notícias falsas. Sempre haverá alguém para contar mentiras”, diz a aspa de Allen Montgomery, proprietário do site de notícias falsas National Report, logo no primeiro parágrafo. Seu posicionamento é uma resposta ao Facebook, que vem tentando conter a disseminação de fakes.

A declaração da locutora, identificada apenas como Sadie, é um bom exemplo de como o jornalismo joga contra si mesmo na batalha incessante por audiência nas redes. Como muitas vezes os comunicadores têm metas de atualizações por turno de trabalho (X postagens no Face, Y tweets), não raro são compartilhadas matérias falsas do tipo “Mulher fuma PCP pela primeira vez e mastiga pênis do marido”, como aconteceu na emissora em que ela trabalha. Isso prejudica a ação do Facebook, já que o algoritmo é, digamos, enganado: se uma emissora de rádio está compartilhando isso, então é provável que não seja falso, então dá pra pegar leve.

Daí podemos fazer duas observações.

Primeiro, quando o Facebook atua para desmascarar notícias falsas, está, de alguma forma, assumindo uma postura editorial, já que determinados critérios são utilizados para tal ação. Podem ser critérios mais técnicos e precisos do que os padrões subjetivos que conduzem o jornalismo, mas nem por isso deixam de ser considerados parte de um julgamento editorial. Segundo, quem deveria estar fazendo jornalismo, como a rádio citada (a matéria traz outros exemplos, inclusive uma gafe do NYT), está, ao divulgar notícias falsas porque não as checou, atrapalhando a verificação (em outras palavras, o jornalismo) do Facebook!

Que época para se viver.

Falando em Facebook, deem uma olhada nesta matéria do Joshua Benton, do Nieman Lab, sobre o F8, a conferência anual da empresa de Mark voltada para desenvolvedores. Rolaram coisas importantes nessa última edição, no que diz respeito a jornalismo e publicação em geral. Uma delas é uma plataforma para bots no Messenger. Isso significa que é possível desenvolver robôs que interagem com os usuários dentro do chat do Facebook. Para o jornalismo, é uma nova maneira de distribuir conteúdo, apostando na interatividade entre marcas e pessoas.

Vejam o caso da CNN. Quem assinar o bot da emissora vai receber atualizações diárias com os tópicos noticiosos disponíveis dentro do Messenger. Conversando com o bot, o usuário pode obter mais informações a respeito do tópico escolhido. Com o tempo, o robô vai aprendendo quais são as preferências de cada assinante, oferecendo, assim, conteúdos que tenham a ver com cada pessoa.

Ao ler a matéria do Nieman, imediatamente pensei no app do Quartz, cuja interface simula um chat (assunto na NFJ#81). Aí topei com esse parágrafo:

“Eu vi algumas pessoas no Twitter dizendo que isso [a iniciativa do Facebook] é parecida com o app do Quartz para iPhone – o que é verdade, mas o apelo central dos chat bots é que eles acontecem dentro de um ambiente de chat existente e no qual você já está viciado, não em um outro app, o qual você pode ou não desenvolver o hábito de acessar. (O Quartz não inventou a bolha dos chats). “

O grifo é do próprio Benton. Nem preciso dizer nada.

Ainda sobre o Facebook, recomendo fortemente este texto do professor e jornalista Dan Gilmor. Trata-se de um rascunho da fala dele no International Journalism Festival. O título já diz muita coisa sobre o conteúdo: “Journalists: Stop complaining about Facebook, and do something about it”. Pois é, assunto recorrente na NFJ.

Na parte introdutória do texto, ele expõe o contexto e diz que, em geral, há duas maneiras de se pensar sobre o imperialismo do Facebook (no que se refere ao jornalismo, no caso). A primeira é abraçar o diabo, diz Gilmor. Aceitar a dominação e participar de maneira integral do ecossistema proposto por ele. A segunda é convencer o Facebook a assumir sua responsabilidade editorial, convocando-o a fazer com que bom jornalismo chegue a um grande número de pessoas.

Ambas as maneiras, para Gilmor, representam reconhecer que o Facebook é muito grande e poderoso para que tentemos resistir. Em outras palavras, capitulação.

Ao invés disso, ele diz, devemos resistir. Antes de sugerir como fazer isso, Gilmor sublinha que ele não considera o Facebook algo necessariamente ruim. Pelo contrário, há muito brilhantismo no comando da empresa e nos produtos que ela desenvolve. O problema é que o Facebook está se tornando um monopólio.

Para desenvolver formas de resistência, ele sugere cinco pontos.

Um. Jornalistas, se vocês já estão em um buraco, parem de cavar. Aqui, Gilmor se refere à tendência de depender do Facebook para gerar tráfego e/ou receita por meio dos seus produtos, como o Instant Articles. Não se trata de cortar todos os laços, mas também não é se jogar de olhos fechados nos braços do gigante.

Dois. Expliquem à comunidade como o Facebook funciona. Falem sobre invasão de privacidade, liberdade de discurso / expressão, sobre o Facebook estar querendo se transformar em uma internet alternativa, falem sobre as questões de ética.

Três. Alertem as autoridades sobre o perigo que o monopólio do Facebook representa para a liberdade de expressão. Aproveitem e façam isso com as operadoras de telefonia também – a outra face do controle sobre as informações.

Quatro. Uma vez que essas coisas forem explicadas, ajudem a comunidade a também agir. Falem sobre add-ons que bloqueiam rastreadores e criptografia.

Cinco. Apoiem iniciativas que estejam dispostas a descentralizar a comunicação.

Os cinco pontos estão bem resumidos, claro. Por isso sugiro a leitura do original.

Pra fechar a questão, aviso que o European Journalism Laboratory publicou uma versão traduzida para o português (de Portugal, mas beleza) de uma das últimas falas da Emily Bell sobre jornalismo e Facebook (assunto da NFJ#82).

Adiante.

Bom perfil do Ev Williams, homem à frente do Medium, no Guardian. O texto é curtinho e foca em um aspecto da internet sobre o qual Williams diz estar pensando: dar um jeito do “feedback loops” [não achei uma expressão em português adequada] que está levando à produção e ao consumo de tanto lixo.

“Se você observar feedbacks loops como likes e retweets, verá que eles foram cuidadosamente construídos para maximizar determinados tipos de comportamentos. Mas se as pessoas forem premiadas a partir de um sistema em que não há diferença entre um page-view de um segundo e uma leitura que traga a elas algum valor ou as faça mudar de opinião, seu trabalho está sendo alimentar essas pessoas, mas maximizando a entrega de calorias. Então, o que você entende é que junk food é mais eficiente do que alimentos saudáveis.”

Criar novas camadas de informação e de discussão e conexão. É isso que o Medium vem tentando fazer, disse Williams. Este é o objetivo a longo prazo. Só que para fazer isso, no entanto, é preciso crescer, “criar uma rede massiva”. Mas sem muita pressa. O Medium não está desesperado atrás de escala.

“Nós não queremos que as pessoas se viciem. Nós queremos apenas oferecer uma ou duas coisas que elas considerem importantes no seu dia. Coisas que elas se importem, coisas que podem fazê-las mudar seu pensamento sobre o mundo.”

Tá certo.

Pra irmos fechando, sugiro que vocês leiam este texto do colega Marcelo Fontoura publicado na Thoughts on Media. Ele fala sobre a ascensão do jornalista como gerente de produtos. Em linhas gerais, ele defende que está mais do que na hora de o jornalismo entender a importância desse cargo, adicionando-a à lista das funções que definem a profissão. “[…] o mundo em que fazer jornalismo significava apenas fazer reportagens já não existe faz tempo”, escreveu ele. Confiram lá.

Antes de ir, deixem eu mostrar para vocês meu mais recente texto na revista Página 22. Assim como lá, também peço licença aqui pela especificidade do assunto, ainda mais num final de newsletter de 12 mil caracteres enviada no fim de uma sexta-feira!

Mas, enfim, escrevi sobre algo que ando pesquisando: e evolução do gatewatching em um ambiente jornalístico (e em uma cultura jornalística) muito ligada ao gatekeeping. No texto, faço breves considerações a respeito de como a convivência dessas duas maneiras de atuação jornalística nem sempre é fácil. Leiam um trecho:

“Se, por um lado, o fim do princípio da escassez abre espaço para que mais fatos venham a público, e sob uma variedade maior de pontos de vista, já que as possibilidades de publicação são potencialmente infinitas na rede, por outro pressiona os critérios de noticiabilidade, embaralhando um conhecimento comum sobre o que seria notícia. Há uma tendência de que o jornalismo seja mais plural e horizontal. Mas a realidade parece mostrar a verticalidade do jornalismo gatekeeper sendo pressionada por movimentos ainda incipientes de gatewatchers. Tal incipiência seria fruto não apenas da sua juventude, mas principalmente da ausência de estofo teórico que o sustente. O jornalismo gatewatcher ainda não se afirmou na área.”

Pra fechar, três coisas.
A primeira é uma dica: se por acaso algum de vocês está em Joinville ou arredores, vá neste debate. Segunda: 200 ideias para fazer um podcast. Sim, 200! Por fim, uma breve consideração do LFV sobre a História. Venho pensando muito nela.

Feito?

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório