Buenas, gurizada!

Sexta-feira no meio do feriadão merece um ritmo mais lento. Vamos lá, de boas, com aquela preguiça justa, à 88ª edição da NFJ.

Porque quando vê, já é sábado.

Começo com a novidade lançada pela TheSkimm, uma newsletter prima do Farol Jornalismo (com a diferença que ela tem 3,5 milhões de assinantes). Esta matéria do Wall Street Journal conta como funciona o Skimm Ahead, o app para iPhone que “vai ajudar os consumidores a se manterem atualizados sobre tudo que está rolando de importante no mundo ao inserir eventos automaticamente nos seus calendários digitais”. Segundo o texto, neste mês os leitores ficaram sabendo que haveria primárias para as eleições presidenciais em Nova York, por exemplo. Por enquanto, os usuários vão receber um determinado número de eventos selecionados nos seus calendários, pois não há previsão para oferecer um serviço customizado.

Com o lançamento do Skimm Ahead, a empresa comandada por Danielle Weisberg e Carly Zakin segue com o objetivo de oferecer um jeito mais “fácil de ser inteligente” em meio a um contexto de pressa e abundância informacional. O app custa US$ 2,99 por mês, sendo que o primeiro mês é grátis. A newsletter é free e enviada de segunda a sexta, pois a TheSkimm “respeita o brunch” das pessoas.

De quarta até hoje tá rolando em Viena, na Áustria, o evento Digital Media Europe, promovido pela WAN-IFRA. Como sempre, o Journalism.co.uk tá atento. Selecionei três matérias com a cobertura de painéis e conferências. A primeira é esta aqui, sobre como o El País está se virando para sobreviver na era digital. Quem falou foi Alberto Barreiro, diretor de experiência da Prisa, o conglomerado editorial que possui os direitos sobre o jornal espanhol. O texto do Journalism.co.uk destaca o fato de ele ter definido a “disrupção digital” não como uma evolução regular, mas como algo que vem em ondas, o que não permite desenvolver uma estratégia (digital) capaz dar uma “sensação de conforto”, de que está tudo sob controle.

A primeira onda, diz Barreiro, foi caracterizada por grandes investimentos em tecnologia, pela relação conflituosa com plataformas, por um esforço crescente para combinar audiência com publicidade, pela competição dentro da indústria e pelo atraso no choque na cultura da redação. Agora, a indústria da mídia está tentando permanecer na superfície enquanto enfrenta a segunda onda, caracterizada pela convivência com empresas como Facebook e Google, todas competindo pelo tempo e pela atenção das pessoas. “A mídia está em todo lugar. Nós não somos mais ponto com e, vai saber, talvez estejamos em processo de desaparecimento”, disse.

A segunda matéria é esta, sobre a experiência do Tamedia, um dos maiores grupos de mídia da Suíça, com um produto chamado Zwölf (Doze, em alemão). A ideia por trás é simples: reempacotar conteúdos já publicados nos veículos do grupo (sob o chapéu do Tamedia estão jornais, revistas e sites) e oferecer no Zwölf, um app cuja assinatura custa pouco mais de 4 libras por mês. Segundo o Journalism.co.uk, Michael Marti, chefe da área digital do jornal Tages-Anzeiger, baseado em Zurique, disse que a iniciativa surgiu como uma alternativa para quem não tem tempo para ter tudo ou não querem / podem pagar por tudo (o que o grupo produz). Uma equipe de seis pessoas (re)trabalham em 12 conteúdos por dia, adaptando-os ao formato mobile. Lançado em outubro do ano passado, Zwölf tem 35 mil assinantes.

A terceira matéria é esta, em que Mia Mabanta, diretora de marketing e produtos do Quartz, fala sobre as premissas da empresa para “o que vem por aí” no mundo digital. A principal delas é que “quase todas as previsões para o futuro se mostrarão incorretas”. Ela se refere principalmente ao fato de o contexto mobile estar mudando muito rápido, o que expõe a incapacidade de inovação das empresas. “O que você geralmente vê na mídia digital é que, quando uma nova plataforma emerge, o instinto das companhias é tentar replicar naquela plataforma qualquer coisa que tenha funcionado antes”, disse Mabanta, segundo o Journalism.co.uk.

Ainda sobre eventos, tem este post do blog “No hace falta papel” com 12 ideias para sobreviver ao “tsunami jornalístico de 2016”. A lista foi formulada por María Ramírez e Eduardo Suárez a partir do que eles viram no ISOJ 2016, o Simpósio Internacional de Jornalismo Online, que rolou na semana passada em Austin, no Texas. Vou destacar apenas um dos 12: “Bajo el fuego cruzado de las plataformas”. Nas mesas, o clima era de preocupação em relação à invasão das grandes plataformas aos domínios jornalísticos. O curioso é que, segundo eles, na edição do ano passado a orientação número um era publicar em todas as plataformas. Um trecho do texto:

“Ao publicar em plataformas como o AMP e o Instant Articles, os meios deixaram nas mãos do Vale do Silício a penúltima característica que os distingue: a publicação das suas histórias, que já não aparecem somente em seu próprio site. A única coisa que ainda mantêm é a sua marca, cada vez mais difícil de diferenciar em meio a fotos e anúncios que povoam as timelines de sua audiência no Facebook.”

Falando em Facebook, vocês viram que nós e Mark estamos dando um tempo?

Uma sequência sobre clickbait, confiança da mídia.

Começamos com este texto assinado por Jim VandeHei, um dos fundadores do Politico. A premissa dele é a seguinte: estamos saindo da era do clickbait e entrando em uma era de ouro para o conteúdo, especialmente vídeo para mobile. À medida em que sua fórmula se massifica, diz VandeHei, o modelo de negócio baseado no caça-clique vai naufragando, pois todo mundo aposta no mesmo tipo de conteúdo. Os mais inteligentes já se deram conta disso, e estão migrando suas estratégias para algo que parece mais interessante: reter audiências (menores, talvez, mas mais leais) produzindo conteúdo de qualidade. Esse conteúdo todo vai alimentar os grandes canais de distribuição – Facebook, Amazon, Google, Snapchat. Muito lixo ainda vai passar por debaixo da ponte, mas a próxima década é promissora, diz ele.

“Esta mudança em direção ao mobile e ao social forçará as empresas de mídia a focar em formas de fazer as pessoas pagarem pelo conteúdo. […] As empresas criativas farão isso prestando atenção em formas de entregar um conteúdo melhor e de maneira mais eficiente. Elas precisam pensar sobre como tornar as pessoas mais inteligentes e suas vidas mais interessantes. Elas vão parar de se agarrar na teimosia de publicar o que os jornalistas querem escrever e observar o que os leitores querem ler. Em troca, os leitores terão de pagar, e se eles precisarem e gostarem do produto, não terão nenhum problema em fazê-lo.”

Quer um indício de que VandeHei pode estar certo ao prever o declínio do click-bait? Mark Zuckerberg parecer querer o mesmo. Esta matéria da Business Insider diz que o algoritmo do NewsFeed vai priorizar conteúdos que privilegiem o “time spent viewing” como indicador de qualidade. Ou seja, “o Facebook vai preferir artigos em que os usuários tendem a permanecer mais tempo, destacando-os no NewsFeed”, diz o texto da matéria. Para deixar mais claro: se você demorar para voltar ao NewsFeed depois de clicar em um artigo, o algoritmo vai entender que aquele conteúdo prendeu o leitor, e por isso merece ser melhor destacado.

Se a situação vai melhorar ou não, é difícil saber. Por enquanto, a coisa tá meio feia. O pior é que, perto da desinformação, o click-bait é um problema menor.

Não bastasse domingo ter sido o dia que foi, ainda teve esta matéria da BBC, mostrando que 3 das 5 notícias mais compartilhadas no Facebook na semana passada, a que antecedeu a votação na Câmara, eram falsas. Sugiro que vocês deem uma olhada para sacar o NAIPE do “”””jornalismo”””” que a galera curte compartilhar. A análise foi feita por pesquisadores da USP. À BBC, Marcio Moretto Ribeiro, um deles, disse que os brasileiros são imaturos na rede.

“Parte considerável das brasileiras e dos brasileiros entrou na era digital muito recentemente com a popularização dos smartphones. É de se esperar que com o tempo, conforme as pessoas se acostumem com as plataformas e conforme o debate em torno delas amadureça, elas se relacionem com essas ferramentas de maneira mais crítica e menos ingênua.”

Por favor.

Se pensarmos que, em geral, o nosso jornalismo também não é lá muito maduro e volta e meia é seduzido pela lógica do click-bait, veremos que o resultado é uma retroalimentação informacional pavorosa que mina a credibilidade da imprensa e consequentemente ajuda a corroer o quadro nacional, que já não anda muito bem.

Gostaria muito de ver uma pesquisa sobre os índices de confiabilidade da mídia brasileira nesses tempos estranhos. Enquanto ela não aparece (se é que um dia vai), dá pra ter uma ideia observando a situação dos nossos amigos norte-americanos, que também vivem uma situação política bizarra.

Este estudo da American Press Institute mostra que apenas 12% dos adultos entrevistados “confiam muito” nas notícias que eles veem na sua timeline. Entre as maneiras de superar o ceticismo, 66% dizem que conferem qual é a fonte que publicou a informação para saber se podem ou não confiar, e 44% citaram a confiança em quem compartilhou o conteúdo. E aproximadamente quatro entre dez norte-americanos dizem se lembrar de algum caso que fizeram eles perder a confiança na imprensa, em geral problemas de precisão e parcialidade.

Fiz um recorte muito simplificado do estudo, que traz bem mais dados. Evidentemente, não farei comparações diretas entre o cenário brasileiro e norte-americano, mas não pode ser bom para o jornalismo, em nenhum contexto, a correlação entre o número alto de pessoas que consomem notícias pelo Facebook e a alta porcentagem de pessoas que não confiam nas notícias que aparecem nas suas timelines (lembrem que, no Brasil, 83% das pessoas conectadas têm o Facebook como rede social preferida e 67% usam a internet para se informar). Adicione a esta fórmula o poder crescente da rede de Mark como plataforma de distribuição.

Nesta matéria do Guardian sobre como a pressão por cliques está fazendo com que jornalistas publiquem notícias falsas (ou imprecisas), há declarações de profissionais que trabalham na imprensa britânica que poderiam ter sido dadas por colegas nossos aqui do Brasil. Uma das fontes disse que o estágio atual da indústria é “velho oeste”. “Você tem um editor metendo bafo na sua nuca para que você cumpra suas metas”, disse ela. O repórter perguntou o que levava a essa situação.

A resposta foi:

“É uma combinação. Há alguns jornalistas muito jovens e entusiasmados por aí. Se você publica uma história e ela se torna viral, é muito estimulante. Mas os chefões estão tentando bater as metas. Alguns desses jornalistas que estão no mercado têm pouca experiência e acabam não fazendo as verificações necessárias.”

Como sair dessa sinuca?

Antes de seguir em frente, só deixem eu aproveitar o gancho do contexto brasileiro para sugerir que vocês deem uma conferida no perfil do professor da Universidade Federal do Espírito Santo Fabio Malini no Medium. O Malini é um dos maiores especialistas em análise de redes sociais do Brasil, especialmente no que se refere a dados quantitativos. O laboratório que ele comanda, o Labic, vem fazendo considerações muito interessantes a respeito do reflexo nas redes dos principais acontecimentos brasileiros dos últimos anos. Com a crise política mais recente, não vem sendo diferente. A novidade é o perfil no Medium. Assim, fica mais fácil de acompanhar o trabalho do Labic. O último texto fala sobre como os deputados conseguiram fazer a internet virar contra eles durante os votos de domingo.

Adiante.

Pra ir fechando, temos texto novo no canal do Farol Jornalismo no Medium. Nosso amigo e colega Giuliander Carpes atualizou uma observação feita pouco mais de um ano atrás sobre o empreendedorismo no jornalismo brasileiro. Se naquela época ele sentia falta de iniciativas inovadoras em terras brasileiras, hoje a situação é bem diferente. Não só existe como estão fazendo um belo trabalho. Como exemplo, ele cita as coberturas do processo de impeachment feita por Aos Fatos, Lupa e Nexo.

Se o Giuliander sublinha o bom trabalho desses veículos por aqui, o Sérgio Spagnuolo, do Volt Data Lab, faz o mesmo lá nos Estados Unidos. Em um texto publicado no canal do Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism, Sérgio volta a um assunto muito caro a ele e ao Volt: a necessidade de os veículos de imprensa, especialmente os que trabalham com dados, tornarem seu trabalho mais transparente por meio da divulgação das fontes originais, das ferramentas usadas e da metodologia criada para fazer as reportagens. Confiram lá.

Só pra não dizer que não falei do (brasileiro que venceu o) Pulitzer.

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório