Buenas, gurizada!

Que tal? Frio avassalador já chegou pros lados de vocês?

Em Porto Alegre, pés gelados e coração quente. Um olho na adega, outro nas bergamotas amadurecendo. E vamos lá que o sábado se avizinha e abril já era.

Começo com um texto que talvez muitos de vocês já tenham lido. Ele foi bem compartilhado nas redes e teve alguns milhares de likes no Medium. É este aqui, em que Joshua Topolsky, co-fundador do The Verge e do Vox, dá umas broncas na mídia, mas depois diz que tudo vai ficar bem. Tentarei resumir em algumas linhas.

Topolsky começa dizendo que nós, a mídia jornalística, ignoramos por muito tempo a nova era surgida com o digital. Ignoramos as promessas (ou as ameaças, diz ele) dos novos tempos ao negá-lo. Continuamos plugados no antigo sistema: como era muito difícil entender a internet, seguimos apostando nos anúncios dos impressos e da TV. O segundo erro crasso foi ter confiado em plataformas de distribuição que não se importam e / ou não entendem a mídia. E assim alimentamos um sistema baseado mais na escala do que na valorização do usuário, da audiência.

Pensamos (ainda) que a fórmula é alcançar o máximo de gente possível. E que vamos conseguir isso graças ao que Topolsky chama de “A Nova Coisa” (New Thing). “A Nova Aposta” talvez fosse uma tradução melhor, mas enfim. Ou seja, apostamos todas as fichas no que é (ou no que alguém diz ser) a solução dos nossos problemas. Hoje, “A Nova Coisa” é vídeo. Mas também poderia ser uma newsletter. Ou uma newsletter em vídeo, como diz ele. Mas raramente (“quase nunca”) “A Nova Coisa” soluciona nossa vida. Então, o negócio é o seguinte:

“A verdade é que as melhores e as mais importantes coisas já realizadas pela mídia (especificamente a mídia jornalística, no caso) nunca foram feitas para alcançar muita gente – elas foram feitas para chegar às pessoas certas. Porque os seres humanos existem, e nós não somos máquinas de consumo de conteúdo. O que vai salvar a indústria da mídia – ou ao menos a parte que vale salvar – é quando nós começarmos a produzir Coisas Reais para as pessoas novamente, ao invés de programar algoritmos ou apostar nas Novas Coisas”. (negritos meus)

Concordo.

Embora seja fácil falar. Na vida real, tem meta mensal de page-views pressionando de um lado, e o Facebook te enfiando goela abaixo que vídeos são “A Nova Coisa” do outro. E aí? Como e quando ter tempo e $ para fazer algo para as pessoas?

Bom, esta é a principal característica de textos motivacionais-copo-meio-cheio como esse. Ele não dá a resposta. Nem poderia, convenhamos. A ideia aqui é oferecer um incentivo a partir de uma constatação sobre o estado das coisas.

E isso o texto faz bem.

Topolsky finaliza assim:

“Nós teremos que aprender milhares de lições difíceis, a maioria centrada na ideia de que se você quer produzir algo realmente massa, você não pode achar que dá pra fazer algo massa para todo mundo. Você tem que fazer algo massa para alguém. Para muita gente, mas não para cada pessoa.”

Que tal? Um bom texto para uma sexta-feira fria, eu diria. Se eu fosse vocês, abriria uma garrafa de vinho AGORA e curtiria essa sensação boa de otimismo.

Mas eu ainda tenho uma newsletter para vencer. Vamos lá, então.

Um pouquinho de mundo real.

Repercutindo o texto do Topolsky, recomendo este, publicado na Mother Jones. A premissa da Monika Bauerlein e da Clara Jeffery, as autoras, é a seguinte: a bolha desses novos empreendimentos digitais está para estourar. Elas listam os recentes revezes sofridos por queridinhos nativos digitais como um sinal de que não basta crescer após receber grana de investidores: é preciso lucrar. E aí a coisa complica.

“Vejam dessa forma: um repórter produzindo modestamente conteúdo original precisa redigir cinco histórias por semana (e isso não permite muito mais do que algumas ligações e poucas rodadas de edição por matéria). Se cada uma dessas histórias consegue, em média, 50 mil leitores, e cada um desses page views gera US$ 0,01 (um valor bem generoso), você terminaria a semana com US$ 2,5 mil, ou US$ 130 mil no ano, valor que precisaria ser usado para pagar repórter e editor, seus respectivos benefícios, estrutura de tecnologia, equipe de vendas, impostos, seguros, eletricidade, aluguel, laptops, telefones…”

O texto segue com uma espécie de manifesto sobre o jeito Mother Jones de conduzir o empreendimento jornalístico: organização sem fins lucrativos sustentada pelos leitores. Por trás dessa postura está o pressuposto de que o jornalismo não é um produto comercial. Pois é exatamente esta a chamada desta entrevista publicada no Observador, de Portugal, com o especialista em economia da mídia Robert Picard. Ele chama a atenção para o fato de que o jornalismo só se tornou comercial no século passado, em função da publicidade, mas que agora os anunciantes tem formas melhores de chegar ao seu público. A solução, segundo Piccard, seria que as pessoas pagassem pelo conteúdo. Mas para que isso role, os jornalistas precisarão se reencontrar, provar sua utilidade e importância:

“Penso que o melhor que [os jornalistas] podem fazer é ajudar a perceber o que realmente interessa de toda a informação que está disponível. Antes os jornalistas criavam valor ao dar muitas histórias. Agora a Internet dá mais histórias do que um jornalista alguma vez conseguirá dar. Antes os jornalistas eram os primeiros a dar a notícia. Agora são ultrapassados pela Internet. O que podem fazer? Uma triagem da informação e uma análise cuidada. E a maior parte dos jornalistas ainda não o está a fazer. E é preciso distinguir os jornalistas dos jornais. Temos que encontrar uma forma de salvar o jornalismo.”

Leiam lá. Aproveitem que está em português.

Pra fechar o segmento, confiram este post no Online Journalism Blog que junta os pontos sobre o que anda rolando no cenário midiático e de plataformas, chegando à seguinte conclusão. Para manter um site (app, newsletter, etc, ou seja um “lugar” próprio na rede), os produtores de conteúdo terão de mostrar que são também um produto ou um serviço. Como a ProPublica, por exemplo, que oferece serviços relacionados a dados. Do contrário, não há outro jeito senão bater na porta das grandes plataformas. Se for o caso de gerar conteúdo sustentado por publicidade, o negócio é apostar no Facebook. Ser a ideia for apostar em um serviço de assinantes, não vai ter motivos de não atracar o barco no Medium.

Bueno…
Adiante.

Esta matéria do Digiday mostra como não é fácil a vida dos pequenos publishers sob o império das grandes plataformas. Interessados justamente na economia de escala criticada por Topolsky, Google, Facebook e outros desenvolvem suas estratégias pensando nos grandes da mídia e do jornalismo enquanto os pequenos ficam a ver navios. Desprovidos do controle global que antes possuíam sobre o próprio negócio, os menores precisam investir em conteúdo assumindo um risco muito maior – ainda que as plataformas estejam tentando diminuir as dificuldades (técnicas, principalmente) para os pequenos entrarem. Deem uma conferida lá.

Demos um tempo do Mark, mas seguimos de olho no que ele anda fazendo, claro. Leiam esta boa (e curta) matéria do Guardian sobre a (ótima) situação do Facebook, que ruma avassalador rumo à conquista do planeta. O foco do texto é a influência e, consequentemente, o controle que Zuckerberg possui da própria empresa, mas o que mais interessa é alguns números apresentados por Alex Hern, autor da matéria.

Se vocês ainda têm dúvidas, agora não precisam ter mais: para o Facebook, somos produtos. Em média, valemos US$ 3,32 para a gigante do Vale do Silício no último quadrimestre. Parece pouco? Olha, ano passado valíamos meros US$ 2,50. Tá certo que, tirando os “gastos” que o Face tem conosco, sobra apenas US$ 1,51. Bom, agora multipliquem esse valor por 1,65 milhão de usuários. E leiam o seguinte:

“Uma vez, o número de pessoas no Facebook cresceu cinco vezes ao longo de um únicos ano; isso não pode mais acontecer, porque não há pessoas suficientes na Terra. Não é possível nem mesmo dobrar o número atual, porque não há pessoas suficientes com acesso à internet.”

Pesado, não? Então leiam mais este:

“Um usuário fica, em média, 50 minutos por dia no Facebook, Messenger e Instagram, graças aos esforços da empresa em manter as pessoas dentro dos seus domínios. Adeus links a sites de notícias, olá Instant Articles […]. A mesma coisa aconteceu com os vídeos, onde uma manobra agressiva do Facebook empurrou goela abaixo seu player, preterindo links de competidores, como YouTube e Vimeo.”

Dá pra ter uma ideia do poder de Mark lendo esta matéria também do Guardian, sobre a conferência F8, evento anual em que o Facebook faz um balanço e conta pro pessoal o que anda planejando. Um trechinho do texto de Olivia Solon:

“Quando Zuckerberg se dirige aos presentes na F8 é com a compostura e a convicção de um presidente discursando para os seus cidadãos. ‘Nós fomos de um mundo de comunidades isoladas a uma comunidade global, e nós todos estamos melhores por isso’, disse ele ao martelar a ‘missão’ de conectar o mundo.”

Um link rápido: o blog do Knight Center fez uma ampla cobertura do ISOJ 2016.

Vocês viram este relatório do Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism sobre as habilidades que um jornalista precisa para avançar na carreira? Pois bem, trata-se de um trabalho de fôlego conduzido por Mark Stencel, co-director do Duke Reporters’ Lab, e Kim Perry, editora da equipe de transição digital do NYT. Eles perguntaram para líderes da indústria de mídia quais são as habilidades necessárias para um jornalista sobreviver em uma redação do século XXI.

Em resumo, o relatório chega à seguinte conclusão: contrata-se jornalistas que saibam fazer tudo e mais um pouco. Pelo menos foi essa a sensação que eu tive.

Vou traduzir só o comecinho do texto da conclusão.

“Observar prioridades de contratação é uma forma de olhar para o futuro do jornalismo. Se nossa pesquisa não-científica com líderes de 31 organizações de mídia é, de alguma forma, representativa, o imediato futuro dos negócios de jornalismo permanecerá focado na metamorfose digital, com uma forte necessidade do que rotulamos de habilidades Transformacionais.

Sobretudo, há um bom mercado para:

Especialidade em programação e desenvolvimento;
Conhecimento de desenvolvimento de audiência e métricas de usuários, especialmente as relacionadas ao impacto da evolução mobile e das plataformas sociais; e
Experiência em narrativas visuais, particularmente vídeo.

Para fazer este trabalho, as organizações de mídia precisam de funcionários com superpoderes editoriais – pessoas que possuem habilidades tanto Transformacionais como Fundacionais. Isso inclui compromisso com a narrativa, precisão e equidade, assim como um sólido conhecimento do que é essencial ao jornalismo, como a habilidade para apurar, redigir e editar.”

Mais alguma coisa?
Leiam o resto da conclusão aqui. O Poynter entrevistou os autores da pesquisa. Nessa entrevista, Stencel e Perry esclarecem melhor o conteúdo da conclusão. Na verdade, dizem, não é que os líderes com os quais eles conversaram estejam procurando esses superjornalistas. A busca mais real é por alguém que seja especialista em alguma dessas funções. Se ela conseguir combinar habilidades, melhor ainda. A ideia, no fim, é montar uma equipe que consiga conversar.

Tá certo. Agora, cá pra nós, os tópicos do “há um bom mercado para:” não soaram meio “A Nova Coisa” para vocês? Pra mim, total. :/

Pra finalizar.

Vocês viram este vídeo do Guardian? Ele faz parte do projeto de realidade virtual do jornal britânico. A ideia é que o espectador se coloque no lugar de um preso colocado na solitária. Tanto o Nieman Lab quanto o Journalism.co.uk fizeram matérias a respeito. A este último, Francesca Panetta, editora de projetos especiais multimídia do Guardian, disse que este é o tipo de conteúdo em que entrevistas frente a frente não são capazes de dar conta do que significa ficar confinado.

Uma última coisa: ouçam a entrevista que a Barbara Nickel, no podcast Coisas que a gente cria, fez com a jornalista Carolina Cimenti, da GloboNews. Tá bem massa.

Agora sim. Hora daquele café com deus-em-forma-de-wafel enquanto dou uma última olhada na NFJ antes de enviar para vocês. 🙂

Feito?

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório