Buenas, moçada!

Eis que chegamos à NONAGÉSIMA edição da Newsletter Farol Jornalismo. Que louco. Noventa sextas-feiras de discussão sobre jornalismo em TEXTO PURO. Olha, vocês tão de parabéns por engolirem em média 12 mil caracteres NO SECO. Deixem eu me parabenizar também. Afinal, se eu dissesse que é fácil parir esse troço toda semana, estaria mentindo. Mas eu curto. Acho que vocês também.

No mais, aquecendo os dedos no calor da luminária de quando em quando, curtindo um Masters 1000 de Madrid e em contagem regressiva para a maratona de POA.

Bora lá, então.

Começo pedindo licença para falar de uma participação minha no Virada Trends, do canal Octo, aqui de POA. O programa é apresentado pela jornalista Samantha Carvalho, que também comanda a empresa especializada em soluções mobile Queen Mob. Na edição da última terça, o tema foi tendências no jornalismo. Participaram comigo o Leandro Demori, editor do Medium Brasil, a Clarissa Barreto, sócia da Cartola Conteúdo, e a Kelly Matos, jornalista da Rádio Gaúcha. Olha, sou suspeito para falar, mas o papo foi massa. Dá pra conferir aqui, aqui e aqui.

Jabá à parte, queria começar com este post do Labmídia sobre breaking news. A justificativa da escolha é simples e direta: é um dos meus temas preferidos. No texto, Rafael Coimbra faz uma pequena análise sobre a comoditização do breaking news – assunto tratado na edição 85 da NFJ. O mote, aliás, é o mesmo: a decisão do The Times, de Londres, de parar de seguir os acontecimentos enlouquecidamente em tempo real. A partir disso, Rafael fez uma pequena análise sobre a forma como o público percebe o furo jornalístico, um dos principais jargões da nossa profissão, em forma de tópicos. Me permitam mostrar um deles:

“Lembro quando a onda do “tempo real” chegou ao Brasil. Os colegas de sites tinham “cotas” de matérias por turno de trabalho. Antes de escreverem a reportagem completa de um evento precisavam abastecer o site com notícias em tempo real. O que faziam? Picavam a notícia publicando mini notas do tipo “O ministro acaba de chegar para a palestra…” Uma hora depois: “O ministro diz que a inflação vai ficar dentro da meta”… e por aí vai. Tudo tinha cara de furo.”

Eu lembro dessa época. No Terra havia uma obsessão pela LISTA de notícias. O intervalo de tempo entre uma notícia e outra não podia ser maior do que CINCO MINUTOS, ou algo assim. Às vezes o telefone tocava e era a chefia: “O que aconteceu que a lista está parada faz dez minutos?!” Hoje eu me divirto com esse absurdo. Mas na época a regra era essa, e não só no Terra pelo jeito.

Já que estamos numa vibe mais DE BOAS (e eu estou abusando do CAPS) nesse começo da news, convido vocês a assistirem a este vídeo do Financial Times. Trata-se de um desafio entre a jornalista Sarah O’Connor (não, não é a Sarah Connor) e Emma, um robô que escreve matérias a partir de dados financeiros. A ideia era ver não só quem escreveria mais rápido, mas qual matéria seria escolhida pelo editor Malcolm Moore. Quem vocês acham que ganhou a preferência do chefe?

Uma das perguntas que vivemos para achar a resposta é quem vai pagar pelo jornalismo que amamos. Bom, não dá pra dizer que o pessoal não tá tentando. O todo-poderoso NYT vai começar a enviar ingredientes para os leitores do NYT Cooking website, segundo esta matéria do Bloomberg. “Com esses kits de ingredientes, nós estamos oferecendo apenas mais uma forma de ajudar os nossos usuários a se sentirem mais confortáveis na cozinha”, disse à Bloomberg Amanda Rottier, diretora de produtos do NYT Cooking, que tem 17 mil receitas no seu arquivo e 7 milhões de usuários ativos por mês. Que loucura, não?

Mas o mais louco ao ler essa matéria foi descobrir que o NYT também tem tipo uma agência de viagens, o Times Journeys. Pagando alguns milhares de dólares, o turista pode visitar países como Irã e Cuba e eventualmente ser guiado pelos correspondentes do jornal. Moçada tá atirando pra todos os lados mesmo.

Adiante com esta pesquisa do Pew Research Center sobre a leitura de textos longos em mobile. Para quem se interessa, a notícia é boa. A resposta à pergunta “as pessoas vão se engajar com conteúdos jornalísticos longos em seus celulares?” é “sim, […] jornalismo long-form tem lugar na sociedade mobile-cêntrica de hoje”.

A pesquisa utilizou dados da empresa de analitics Parse.ly. Foram observadas 117 milhões de interações, através de telefones celulares, em 74.840 artigos / matérias de 30 sites de notícias durante o mês de setembro de 2015. O resultado foi que, em média, usuários tendem a permanecer aproximadamente o dobro de tempo em conteúdos com 1000 palavras ou mais em comparação a artigos mais curtos: 123 e 57 segundos, respectivamente. O texto do Pew observa que este tempo, no entanto, varia bastante dependendo da hora do dia em que o material está sendo lido. Mas a diferença entre artigos longos e curtos tende a permanecer a mesma.

O texto também chama a atenção para o fato de que 123 segundos, ou dois minutos, pode parecer pouco, se levarmos em consideração o tamanho das matérias. Não seria nada comparado ao tempo em que aquele leitor idealizado leva para ler o jornal todas as manhãs. Sobre isso eles dizem o seguinte: dois minutos é, em média, mais tempo do que as reportagens noticiosas que passam na TV, e um jornal traz várias histórias / matérias, e não apenas uma. Os autores ainda anotam que uma característica da métrica de time spent usada pelo Parse.ly pode estar subestimando o tempo em que os usuários permacem engajados. Ou seja, o tempo de atenção, na realidade, pode ser ainda maior do que 123 segundos.

Leiam lá.

Falando em tempo de leitura, etc, confiram esta matéria do Nieman Lab sobre o sistema desenvolvido pelo jornal alemão Die Welt. Eles criaram um ranking com cinco critérios para avaliar cada artigo: page view, time spent, visualizações de vídeo, compartilhamento nas redes e um último chamado bounce rate (um sexto critério – conversão de leitores em assinantes – deve ser incluído em breve). Cada matéria pode somar 10 pontos no critério de tráfego e 5 nos critérios restantes, o que dá um total de 30 pontos. Os resultados que mostram como se saíram os artigos são enviados diariamente para toda a redação.

Vamos ao assunto mais frequente da NFJ: Facebook e jornalismo.

Leiam esta matéria do Gizmodo. Mas leiam mesmo. Porque é bem polêmica. Ela entrevistou alguns jornalistas “contratados” pelo Facebook para serem curadores do trending news, seção lançada em 2014 e que não está disponível aqui no Brasil. As aspas no contratados é porque os funcionários não são empregados do Facebook, e sim terceirizados. E isso parece ser o menor dos problemas.

Olha, é tanta coisa que a matéria é um daqueles textos que valem ser traduzidos na íntegra. Vou traduzir um dos parágrafos que resumem um pouco do conteúdo do texto. Depois trago mais alguns outros trechos que considero interessantes.

“[…] se você realmente quer saber o que o Facebook acha dos jornalistas e do seu ofício, tudo o que vocês precisam observar é o que aconteceu quando a empresa silenciosamente trouxe alguns para trabalhar no projeto secreto ‘trending news’. Os resultados não são muito bons: de acordo com cinco ex-membros da equipe do Facebook trending news – ‘news curators’, como eles são internamente conhecidos – Zuckerberg e cia têm uma visão ruim da indústria e dos seus talentos. Em entrevistas ao Gizmodo, esses antigos curadores descreveram condições de trabalho estafante, humilhação e uma cultura de arrogância em que eles eram tratados como outsiders sem valor. Depois passar um tempo nas trincheiras do Facebook, a maioria deles acha que eles estava lá não para trabalhar, mas para servir como cobaias de treinamento para o algoritmo do Facebook.”

E aí?
A coisa segue enfeiando.

Embora não fique muito claro como é o trabalho desses curadores, segundo a matéria, eles chegam para trabalhar e encontram uma lista de trending topics produzida pelo algoritmo do Facebook. O trabalho deles é relacionar esses tópicos a matérias que estejam tratando daquele assunto. Agora, como isso é feito é ainda menos claro. Eles dizem que não há critérios: “Nós escolhemos o que é trending”, disse um deles. Essas escolhas são capazes de se converter em dezenas de milhares de pageviews para as matérias selecionadas. E que matérias são essas? Geralmente, dizem eles, as de grandes veículos, como NYT, Time, Variety.

Escolhidos os links, eles precisam redigir uma manchete e um resumo de três linhas para cada história, adicionando uma imagem ou um vídeo publicado no Facebook para ilustrar o tópico. Eles são desencorajados a usar vídeos de fora e não devem citar o Twitter. Se a referência for necessária, devem usar “rede social”. Eles também citam metas agressivas de textos por dia e estímulo à competição interna.

Mais um trecho:

“Uma razão que pode explicar por que o Facebook quer manter essa operação anônima é o desejo de adotar a ilusão de um processo de escolha livre de qualquer inclinação – uma rede que classifica e escolhe as notícias como se fosse uma máquina apolítica. Porque, afinal, toda a divisão de mídia da empresa, que é comandada pelo editor Benjamin Wagner, depende da confiança das pessoas na plataforma como um conduto de informações. Se uma equipe editorial delibera sobre os trending topics – como um jornal conversa sobre a capa do dia seguinte – o Facebook corre o risco de perder sua imagem de um player desinteressado, um canal neutro de distribuição de conteúdo, ao invés de um curador imperfeito.”

E aí?
Pois é.

Termino com uma aspa de um dos ex-curadores:

“Eles estão apenas fazendo testes para saber o que faz o engajamento crescer. No fim das contas, engajamento é a única coisa que eles querem”.

Ainda que possa haver alguma informação “inflada” por ex-curadores insatisfeitos, ou mesmo algum exagero do próprio Gizmodo, nada no conteúdo me surpreende.

Leiam.

Ainda sobre o Facebook, deem uma olhada nesta matéria do Poynter sobre as possibilidades de fact checking dentro do Facebook. Como nós sabemos, Mark e seus amigos não gostam que informações falsas circulem na sua rede. Como anotou a matéria do Poynter, somente porque as pessoas tendem a não confiar nas notícias que circulam nas redes sociais. Enfim, por este motivo, o próprio Facebook vem tentando frear que rumores se espalhem via News Feed.

A matéria cita a sugestão de uma ferramenta capaz de diminuir a circulação de notícias falsas. Ela utilizaria um recurso já existente – flags de usuários para marcar conteúdos potencialmente falsos – para tentar interromper o círculo vicioso que potencializa os rumores. Quando a pessoa estivesse prestes a compartilhar um conteúdo marcado pelos usuários como provavelmente falso, ele receberia um aviso antes de postar. Algo como “cheque se isso é verdade antes de publicar”.

Falando em verificação, este post publicado no Emergency Journalism traz insights interessantes a respeito do valor das informações em momentos de crise humanitária. O autor é Patrick Meier, reconhecido globalmente pela aplicação da tecnologia para fins humanitários. No texto, ele analisa um gráfico que mostra o índice de depreciação da informação (entre outros itens relevantes, como comida, transportes, etc) com o passar do tempo. Em resumo, ele demonstra a importância de a informação ser a mais correta possível logo nas primeiras horas após o evento de emergência, o que, em tempos de internet social, significa mais responsabilidade para jornalistas e cidadãos no compartilhamento de notícias.

Beleza, chega de Facebook. E de NFJ. Por hoje.

Antes de ir, coisas rápidas, que andavam sumidas ultimamente. Aliás, são várias:

Feito? Enquanto eu reviso a NFJ, fiquem com uma musiquinha que não sai da minha cabeça por causa de uma propaganda da Vivo, na versão da Lilly Allen.

Bueno, era isso então.
Bom findi, beijos nas mães e para as mães e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório