Buenas, moçada!

Que tal? Por aqui, uma sexta-feira 13 que encerra uma semana cinza. No clima, dias nublados e úmidos. Na vida, uma bruma que impede olhar pra frente com clareza. Por enquanto, só sei que a Laerte tem razão. No mais, seguimos em frente, pois na camada da micropolítica, sexta é sempre um dia a se celebrar.

Bueno, eu bem que gostaria de variar mais a pauta, virar o disco como até há pouco falávamos, mas, olha, tá difícil. Vocês sabem do que eu estou falando.

Começo com o seguinte:

“[…] a seção de notícias do Facebook opera como uma redação tradicional, refletindo o viés dos seus jornalistas e os imperativos institucionais da corporação. Impor valores editoriais humanos à lista de tópicos que um algoritmo expele não significa necessariamente algo ruim – mas contraria as declarações da empresa de que o módulo trending lista “o que se tornou popular no Facebook recentemente”.

O trecho acima está nesta matéria do Gizmodo, mais uma sobre os bastidores da “operação jornalística” da empresa. O texto é uma suíte da reportagem discutida aqui semana passada. O Gizmodo ouviu ex-curadores do Facebook (é assim que os jornalista da empresa são chamados) para saber como funciona a barra de tópicos trends (recurso indisponível no Brasil). Se na primeira o foco era como os profissionais são tratados na firma de Mark, na segunda é que tipo de influência os curadores têm na escolha das matérias que entram na seção.

Segundo o que o Gizmodo apurou, jornalistas responsáveis pelo trend news tendem a suprimir conteúdos de fontes reconhecidamente mais conservadoras, como a Fox News, por exemplo. Seria uma opção tomada pelos profissionais diretamente responsáveis pela operação, e não uma recomendação da própria empresa, diz o texto. Mas se não há indícios de que instâncias superiores da corporação coloquem o dedo na seleção das notícias, o mesmo não se pode dizer de quem chefia os curadores. “Segundo vários ex-colaboradores, quando os usuários não leem as histórias que a chefia considera importante, os curadores são instruídos a colocar essas histórias no feed de notícias trending de qualquer maneira”, diz o Gizmodo.

Os curadores também “injetavam” no trend feed notícias relacionadas a breaking news, já que o algoritmo demora mais a perceber a gravidade de determinada situação. Isso teria sido feito ao menos em duas oportunidades: no caso do desaparecimento do voo MH17 e no ataque à redação do Charlie Hebdo. “A gente era cobrado se tudo estivesse no Twitter e não no Facebook”, disse um ex-curador.

É ou não é uma redação?

Pequeno parêntese.
Como era de se esperar, o caso repercutiu para além dos círculos jornalísticos norte-americanos. Os republicanos ficaram ouriçados e mandaram uma carta a Mark perguntando que história é essa de ignorarem notícias right-wing? Embora seja um assunto interessante, a discussão sobre o viés político do Facebook não é o foco agora. Gostaria de, primeiro, discutir o seu comportamento editorial.
Fecha parêntese.

A matéria do Gizmodo possui duas atualizações feitas após sua publicação, com declarações do Facebook (o Gizmodo disse ter tentado falar com a empresa antes de fechar o texto, sem sucesso). Como era de se esperar, Mark e seus assessores negam as afirmações feitas por seus ex-curadores. Eu sugiro fortemente que vocês leiam ambos posicionamentos. Vou colocar apenas um pequeno trecho aqui.

“O Facebook é uma plataforma para pessoas e perspectivas de todo o espectro político. Há princípios rigorosos seguidos pela equipe de revisão [os curadores] para assegurar consistência e neutralidade. Esses princípios não permitem supressão de perspectivas políticas. Também não permitem a priorização de um ponto de vista sobre outro, ou uma fonte de notícias em detrimento de outra. Esses princípios não proíbem qualquer veículo de notícias aparecer no Trending Topics.”

Engraçado. Ao mais uma vez reafirmar sua posição como plataforma, negando qualquer posicionamento editorial, o Facebook entra em dupla contradição. Acharia até ingênuo se não houvesse tanto poder envolvido. Primeiro, insistindo na neutralidade da tecnologia. Se um algoritmo faz escolhas, ele toma posição. Mesmo que essas escolhas sejam baseadas em comandos desenvolvidos para verificar o que as pessoas já estão lendo, esses comandos foram criados a partir de determinados critérios. E se houve escolha de critérios, houve algum tipo de viés. Pode não ser na camada mais visível, mas no código que faz essa camada emergir. E outra: apenas ao sublinhar o que é trending, o algoritmo reforça o caráter trending daquele conteúdo, fortalecendo a agenda em pauta. Ou seja: influencia.

Segundo, afirmar que a equipe de revisão é guiada por princípios rigorosos para garantir a neutralidade já é, por si só, uma outra grande contradição. Com esse comportamento, o Facebook fica ainda mais parecido com alguns veículos jornalísticos, que, em pleno século XXI, acreditam na neutralidade da linguagem, dizendo que são apenas mensageiros. Falar é um ato político.

Esta matéria do Guardian traz documentos que ratificariam a matéria do Gizmodo e põe lenha na fogueira. Um dado interessante que o jornal britânico traz é que o Facebook resolveu trazer HUMANOS pra jogada depois das críticas que recebeu pela cobertura de Ferguson. Talvez vocês lembrem, mas houve um frisson depois que o algoritmo do Facebook ignorou o que estava acontecendo na cidade americana nas primeiras horas de protestos. Os guerreiros que assinavam a newsletter em agosto de 2014 talvez lembrem que este foi o assunto da NFJ#07.

Bom, mas se polêmicas são capazes de abrir caixas-pretas, como diz Latour, tá aqui um exemplo: o Facebook veio a público dizer como funciona os trending topics.

Seguindo com o assunto, no The Verge, Nilay Petel lista 14 coisas óbvias a respeito da relação Facebook e notícias conservadoras. De novo, deixando um pouco de lado a política partidária da coisa, destaco o que Patel escreveu a respeito do Facebook em si, e do Trending Topics, em particular. Em resumo, ele diz o seguinte: não deem tanta importância para esse trending aí, ele aparece apenas no desktop e é feio pra burro. Nós deveríamos estar atentos ao que faz o News Feed e aos movimentos do Facebook no mobile, onde ele já controla WhatsApp e Instagram.

O The Verge também publicou esta looonga entrevista com o gerente de produtos do News Feed, Will Cathcart, sobre a relação do Facebook com o jornalismo, em razão do aniversário de um ano do Instant Articles. Li tudo (ou quase, pulei algumas perguntas) e posso dizer o seguinte. Eles começam falando sobre o Instant Articles, sobre como o Facebook vem trabalhando para atender às demandas dos publishers, de que a ferramenta só vingaria se funcionasse para eles; sobre a necessidade que o Facebook vê de ampliar a oferta do recurso globalmente, especialmente porque em países onde a conexão é pior e os smartphones menos poderosos, o índice de leitura de notícias cresce ainda mais com o Instant Articles.

Um papo bem de boa, convenhamos.
A coisa começa a esquentar (um pouco) quando o fazer jornalístico entra na jogada.

Cathcart fala sobre o papel atual do Facebook na distribuição de notícias, tenta construir um entendimento sobre o que é se informar, e defende, ao ser perguntado sobre o julgamento editorial da empresa, que o objetivo deles é criar um produto que seja interessante para 1 bilhão de pessoas. A insistência em dizer que, no fim das contas, o Facebook só quer “desenvolver um produto que as pessoas gostem de usar” atravessa TODA a entrevista. Estratégia deliberada de bom-mocismo.

Mas, se a gente se colocar no lugar de Cathcart, é possível entender um pouco do lado do Facebook. Vejam um trecho da resposta do entrevistado ao ser questionado sobre se o Facebook se sente confortável pelo fato de não ser possível distribuir notícias sem que haja um mínimo de julgamento editorial.

“Nós pensamos sobre o que estamos tentando fazer de uma forma bastante personalizada. Por isso, eu penso que se você está tentando desenvolver um produto para que um bilhão de pessoas se informem sobre as notícias a respeito das quais elas se importam, você não pode desenvolver um produto que tem julgamentos sobre determinados assuntos ou determinados publishers. Porque isso não combina com o que um bilhão de pessoas ao redor do mundo desejam.”

Traduzir sempre é reescrever, mas me parece que a Cathcart escorrega (ou sai pela tangente) ao dizer que não dá pra “desenvolver um produto que tem julgamentos” (“you can’t really be building a product that has judgments about particular issues, or particular publishers”). Como assim? Ora, desenvolver um produto que dê o que as pessoas querem é ter um tipo de julgamento editorial. Provavelmente, não um julgamento editorial jornalístico da maneira como estamos acostumados a discutir, mas um julgamento editorial de mercado. Um produto desenhado para que as pessoas não saiam dele, e assim o Facebook possa ganhar mais dinheiro.

Não vou me alongar mais nessa entrevista. Passei da metade da newsletter e até agora só falei de Facebook. E ainda quero sugerir mais um ou dois links.

Um deles é este, do Guardian. Confesso que não li, já salvei naquela-lista-que-só-aumenta-de-long-forms-para-ler-depois. É uma reportagem sobre o grande plano de Mark de levar internet para milhões de indianos, e de como a ideia falhou.

Pra terminar:

Chega de Facebook por hoje.

O NY Times R&D morreu. Neste texto, David Riordan, chefe de tecnologia e inovação do Brown Institute, conta a história do laboratório de inovação do NYT. O texto lembra de alguns dos protótipos testados pela equipe do R&D, como a mesa que grava entrevistas e o projeto cascade, abordado na newsletter 26. Outra grande ideia que eles tiveram foi projeto membrana, assunto da NFJ 70. Uma pena.

Pesquisas ajudam a embasar nossas reflexões. Aqui tem uma interessante, sobre consumo de notícias em plataformas móveis, feita pela parceria Knight-Nielsen. O Nieman Lab já fez o trabalho de sintetizar. E eu sintetizo mais ainda. O mote é o seguinte: 9 mil usuários de iPhone e Android concordaram em ter seus hábitos de consumo de notícias no mobile rastreados por dois anos. Destes, 2.176 ainda responderam a um questionário. Seguem três achados significativos da pesquisa:

  • Os usuários monitorados ficam duas horas (5%) por mês do seu tempo conectados no mobile consumindo notícias. O tempo gasto em sites de notícias e apps nativos caiu de um ano pra cá.
  • Em contraste, os usuários gastam mais de 12 horas (27%) em redes sociais.
  • Como era esperado, usuários que usam apps de notícias específicos ficam bastante tempo conectados a eles. Esses apps têm uma audiência muito menor quando comparados aos respectivos sites mobile.

A síntese que o Poynter fez destaca que 9 entre 10 norte-americanos consomem notícias em seus aparelhos móveis, mas que o crescimento do mobile talvez esteja chegando a um platô. Na verdade, é uma outra maneira de dizer que os usuários estão acessando redes sociais e deixando de acessar apps nativos e sites mobile.

Adiante.

Ninguém precisa acompanhar notícias em desenvolvimento para saber que mentiras se espalham rápido. Mas quem cobre breaking news sabe o estrago que um rumor pode fazer. Bem, deem uma olhada neste texto publicado no canal do First Draft sobre dois estudos que se debruçaram sobre este tema. A conclusão: em média, uma mentira espalhada online leva 12 horas até ser desmentida.

Seleção de leituras da semana do No hace falta papel, espécie de co-irmão espanhol do Farol Jornalismo. Uma das recomendações é este artigo, Por que as pessoas pagam para ler o NYT, de Lydia Polgreen, responsável pela expansão global do jornal. O texto é uma versão da fala que ela fez em uma conferência em Bogotá, no dia 4. Polgreen recupera a história do jornalismo digital e chega até a crise que ronda os últimos queridinhos da indústria da mídia, como BuzzFeed, Mashable, etc, para então falar sobre a estratégia de sobrevivência / crescimento do NYT em meio à confusão das últimas décadas. No fim, é aquilo que discutíamos duas edições atrás: o lance é ser honesto e produzir conteúdo de qualidade.

Um trecho:

“Como alguém que se importa muito com o jornalismo independente, eu amo a ideia de que o relacionamento financeiro mais importante é com o leitor, não com o anunciante. Isso deixa clara a nossa missão e nos ajuda a escolher onde vamos gastar nossos preciosos recursos editoriais.”

Pois é, parece simples, né?

Hora de terminar.

Serviço de um evento massa no próximo final de semana, em São Paulo: o 1º Encontro de Jornalismo e Empreendedorismo da Online News Association (ONA) Brasil. Vai ser no dia 21, sábado, no auditório Ulysses Guimarães da FMU. O evento é gratuito e não requer inscrição prévia. Eu iria, se estivesse em SP.

Coisas rápidas:

Agora o que importa: vocês já baixaram o calendário da Euro 2016 para importar no Google Calendar? Eu já. Quando chegar a hora, vou poder olhar para o calendário e dizer ‘olha só, desculpe, mas tenho um compromisso agora’. Pra finalizar, encerro com este ponto MONSTRUOSO do Djoko no jogo espetacular que ele e o Nadal protagonizaram há pouco, pelas quartas do Masters 1000 de Roma. Tá louco.

Bueno, como bateu uma vontade de doce, vou atrás de uma torta de limão e de um espresso na rua. Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório