Buenas, moçada!

Bem por aí? Por aqui, frio, previsão de chuva no final de semana, creme de moranga com gengibre, vinho e algum trabalho. Porque este nunca está FINDO.

Vamos lá.

Seguimos com a polêmica envolvendo o Facebook. Começo logo com uma aspa, retirada deste texto do Guardian. Além de abrir discussão de hoje, ela serve como um contraponto a algumas informações publicadas pelo Gizmodo. Por outro lado, coloca mais lenha na fogueira. Trata-se de um depoimento ao jornal britânico de uma jornalista que trabalhou para a seção de trending topics.

“A maioria – senão todas – das coisas que eu li sobre a equipe do Facebook Trending no Gizmodo nas últimas semanas foi descaracterizada ou tirada do contexto. Que eu saiba, não há viés político e nós nunca fomos orientados a suprimir notícias conservadoras. Há talentos na equipe, mas gerenciamento ruim, intimidação, favorecimento e sexismo resultam em um ambiente de trabalho profundamente desconfortável. Os funcionários com quem trabalhei estavam irritados, deprimidos e sem poder manifestar seu descontentamento – especialmente as mulheres.”

Essa é maior crítica dela em relação às matérias do Gizmodo. Ao invés de destacar os problemas que debilitavam a equipe, os textos trataram os curadores como millennials privilegiados e resmungões. “Eu não me importo de não ir ao happy hour ocasionalmente. Eu me importo mesmo é que as alegações de sexismo nunca terem sido levadas a sério”, escreveu a ex-colaboradora do Facebook.

No restante do depoimento, a ex-curadora fala bastante em sexismo. Cita, por exemplo, a diferença de tratamento quando alguém alertava sobre problemas em uma ferramenta ou alguma discrepância nas orientações internas. Quando era ela, as informações eram desconsideradas. Quando era um homem, ele era parabenizado por ter reportado a situação e informado que tudo seria solucionado.

Apesar das críticas, ela destaca que as reportagens do Gizmodo conseguiram dar voz à equipe de curadores. Algo que ele nunca teve nos dois anos trabalhando lá.

Após o depoimento há uma reposta do Facebook. Em resumo, a empresa nega todas as alegações do texto, diz que não tolera qualquer tipo de assédio, recebe as denúncias, investigando-as de forma séria. Além disso, diz incentivar os funcionários a parar para almoçar e não apenas cumpre o determinado pela lei em relação a horas-extra, como seus padrões internos superam a média da indústria.

Enfim, deem uma olhada lá.
O texto não é muito grande. Tem vários detalhes que deixei de fora.

Do Guardian para o NYT. Antes, uma pausa para uma pesquisa sobre o perfil dos jornalistas curadores do Facebook, no Tow Center. Ok, seguimos.

Leiam este artigo da Zeynep Tufekci. Tufecki é a pesquisadora que está na origem das críticas ao comportamento do (algoritmo do) Facebook durante os protestos em Ferguson, em 2014 (assunto da NFJs 7 e 8). No texto, ela chama a atenção para onde, de fato, está o viés do Facebook: no algoritmo do NewsFeed. Sua posição é parecida com a de Nilay Patel em texto discutido na última newsletter. É mais ou menos como dizer: esqueçam o trending topics. Ele não é nada perto do NewsFeed.

Logo no começo ela dá uma definição que eu gostaria de ter feito da COISA TODA:

“Algoritmos em assuntos humanos são, em geral, programas de computador complexos que mastigam dados e realizam cálculos para otimizar resultados escolhidos pelos programadores. Um algoritmo não é um mecanismo de simples análise que fornece respostas objetivas como resultado de cálculos científicos. Também não é um mero reflexo do desejo dos programadores.”

O BOLD tem razão de estar ali. É uma a reposta à pergunta “mas os códigos não foram escritos por humanos?”, que volta e meia aparece. Não é tão simples assim.

Tufeckci explica melhor:

“Nós usamos algoritmos para explorar questões que não tem uma resposta certa, então nós não temos um jeito de calibrá-los ou corrigi-los que vá direto ao ponto.”

Pois é.

A pesquisadora cita um declaração que o Facebook deu durante semana de que as histórias escolhidas para o trending topics “emergiram de um algoritmo” (tradução de “surfaced by an algorithm”, só para vocês ficarem com o original também).

Em resposta, ela diz o seguinte. Permitam-me traduzir mais um trecho:

“Algoritmos são muitas vezes apresentados como uma extensão das ciências naturais, como física e biologia. Quando esses algoritmos usam dados, matemática e computação, eles são uma fonte de viés e inclinações – de um novo tipo.

Se uma ponte balança e cai, nós podemos diagnosticar o que aconteceu como uma falha de engenharia e tentar fazer melhor da próxima vez. Se o Google mostra a você 11 resultados ao invés de outros 11, ou se um algoritmo de uma empresa de recursos humanos coloca o currículo de uma pessoa na frente de outra, quem vai dizer, definitivamente, o que está correto e o que está errado? Sem leis da natureza para ancorá-los, os algoritmos usados em decisões subjetivas nunca poderão ser neutros, objetivos, científicos.”

Me abraça, Tufekci!

Vou acabar traduzindo o texto todo:

Programadores não conseguem, às vezes não podem, prever o que os seus complexos programas irão fazer. Os serviços de internet do Google são compostos por bilhões de linhas de código. Uma vez que esses algoritmos compostos por enormes partes móveis são soltos por aí, eles interagem com o mundo, aprendem e reagem. As consequências não são facilmente previsíveis.

Então, ela diz o seguinte: se os algoritmos não estão respondendo a questões objetivas, eles estão ajudando a aperfeiçoar parâmetros escolhidos por quem o programou. No caso do Facebook, o objetivo é maximizar o engajamento para manter o site ad-friendly. Simples assim. É neste momento que os comandos dos programadores se transformam em tendências bizarras. Isso explica o NewsFeed ser um conduto de ideias conservadoras, ainda que seus empregados tendam ser liberais. Explica também a propagação de teorias da conspiração e boatos.

Só mais um trecho antes de seguirmos adiante:

“O primeiro passo para o Facebook e para qualquer um que use algoritmos para tomar decisões subjetivas é deixar de lado a pretensão de neutralidade. Mesmo o Google – cujo poderoso algoritmo de ranqueamento pode decidir o destino de empresas, ou políticos, mudando os resultados das buscas – define o seu algoritmo como “programas de computadores que procuram por pistas para entregar a você exatamente o que você quer”. Mas não se trata apenas do que queremos. O que nos é mostrado é modelado por esses algoritmos, que são modelados levando em conta o que as empresas querem de nós, e não há nada de neutro nisso.”

Ainda sobre este assunto, recomendo dar uma olhada neste texto do Nieman Lab. O raciocínio de Tarleton Gillespie, que assina o artigo, é parecido com o de Tufekci: os algoritmos não são neutros. Para ajudar a problematizar uma questão que parece tão transparente, ele lista uma série de decisões que os algoritmos do Facebook precisam tomar para decidir o que vai aparecer no nosso News Feed, por exemplos. No fim das perguntas, Gillespie diz que todas as respostas às perguntas feitas por ele são escolhas humanas. Mesmo que elas sejam o resultado de um algoritmo, é uma combinação da atividade humana com modelos computacionais.

E aproveito o gancho para fazer MERCHÃ do meu próximo texto na revista Página 22, cujo assunto é, wait for it, Facebook e jornalismo – com uma pitada de Latour:

Quando for publicado, eu aviso. Por enquanto leiam o último parágrafo:

“A polêmica exposta pelo Gizmodo possibilita começar a enxergar as engrenagens que tecem a rede Facebook. Desnaturalizar seu modus operandi é essencial para que possamos abrir sua caixa-preta e exigir mais clareza em sobre suas posturas. Especialmente na relação com o jornalismo, pois a “isenção” vendida pela empresa ao público consumidor não combina com a necessidade de transparência cada vez mais exigida pelo público cidadão.”

Na boa, eu poderia encerrar a NFJ por aqui, abrir uma garrafa de vinho e assistir a três episódios de Vikings na sequência. Ver Lagertha reinar em Wessex e tals.

Mas vou seguir porque, né. Antes, uma pausa para o jornalismo pá pum.

Antes de seguirmos, um parêntese relacionado ao imbróglio Facebook / jornalismo. Esta entrevista com a pesquisadora Isabel Ferin, da Universidade de Coimbra, feita pelo colega Gabriel Galli, tangencia o assunto quando ela fala sobre a necessidade de pensar as ciências de maneira interdisciplinar. No caso do algoritmo, o desafio de colocar em prática esse tipo de pensamento deságua na dificuldade de entender os algoritmos e em como colocá-los a serviço do jornalismo. Fecha parêntese.

Se o algoritmo deixou, talvez tenha passado pela timeline de vocês este texto da Diretora de redação da BBC Brasil, Silvia Salek, sobre a diversidade no jornalismo. Olha, vale a pena, hein. É raro ouvir a nossa imprensa falando sobre si mesma, especialmente quando o assunto é autocrítica. Por isso vale a pena investir cinco minutinhos lendo o que a Salek tem a dizer. Que tal esse questionamento, feito por um repórter a propósito da discussão que ela levantou na redação, seguido da resposta que a própria editora da BBC Brasil dá no seu texto:

“‘E quem são as mulheres que poderiam ter sido ministras, digamos, da Ciência e Tecnologia?’, perguntou outro. Não sei. Mas, se a imprensa não der voz a elas, dificilmente, serão um dia.”

Salek procura pensar tanto sobre a diversidade dentro da redação (“nossa diversidade étnica é baixíssima e são poucos os profissionais fora do eixo Rio-São Paulo”) quanto em relação ao conteúdo.

Um trecho:

“[…] quantas vezes publicamos reportagens em que só homens são entrevistados? Quantos personagens negros usamos em reportagens que não sejam sobre os temas “típicos”, como racismo e preconceito? A mesma lógica vale para pessoas com deficiência. Estamos restringindo essa representação a espaços cativos? E por que nos concentramos tanto em entrevistados de São Paulo, Rio e Brasília?”

E como ela diz, não se trata apenas de uma questão de espaço, ou “cota da aspa”, para usar uma expressão do texto, e sim sobre “o que estamos perdendo ao não representar essas vozes”. Como jornalistas, e portanto responsáveis pela construção da ideia que as pessoas têm do mundo, qual é a nossa parcela de responsabilidade quando Eliseu Padilha diz que “não foi possível” encontrar mulheres para os ministérios? Não se trata de assumir para si as consequências da postura tacanha do governo provisório sobre o assunto, mas se não dermos vozes à mulheres, dificilmente saberemos quais mulheres poderão ser ministras um dia.

Deem um conferes neste infográfico do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (gemaa), ligado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos, da UERJ. Ele foi publicado na semana passada na página do gemaa no Face e traz dados sobre diversidade no jornalismo de opinião dos três principais jornais do Brasil (Folha, Estadão e O Globo). Os resultados são muito significativos.

Um pequeno trecho do texto de abertura do material:

“O gênero masculino é predominante nos três jornais e perfaz, respectivamente, 74%, 73% e 72% do total de colunistas em cada um. Em relação à cor/raça a desigualdade é ainda mais severa, com os dados de colunistas de cor branca atingindo 91% para o jornal O Globo, 96% para a Folha de São Paulo e 99% para o Estadão.”

Pra fechar este assunto, uma dica prática: um guia produzido pela Fenaj em parceria com a ONU Mulheres que tem o “propósito de auxiliar jornalistas (que desempenham as funções de produção, reportagem, redação, edição e direção de redação) e estudantes de Jornalismo na tarefa de cobrir os temas com recorte de gênero, raça e etnia no dia a dia da imprensa.” Baixem o PDF aqui.

Bora, Claire!

Ih, agora vi que já estamos a caminho do fim. Passou rápido, não?

Imagina se eu mandasse newsletters personalizadas para cada um de vocês, baseadas nos links que vocês clicaram de edições anteriores? Pois é isso que o Washington Post está fazendo, segundo esta matéria do Nieman Lab. No caso do Post, um robô analisa as palavras das matérias que os usuários leem e buscam em outros textos padrões similares, e aí as sugere mandando um email. Diz o Nieman que a estratégia vem funcionando: a quantidade de cliques em newsletters personalizadas é, em média, três vezes maior do que nos emails tradicionais. Por que, então, os publishers ainda não dão a atenção merecida às newsletters?

Pra finalizar, o apocalipse do jornalismo.

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório