Buenas, moçada!

Que tal vai essa sexta? Devagar como aqui? Pois é, aqui tá indo bem na manha. Tempo estranho, mate quente, final de semana na porta com final da Champions, previsão de chuva e algum trabalho. Em Paris, Roland Garros. Mas como esse é o grand slam só da Bandsports, acabo impossibilitado de acompanhar. É do jogo.

Vamos nessa? Depois de três semanas praticamente falando apenas da polêmica dos trending topics do Facebook, hoje a coisa será mais SORTIDA.

Começo com esta pesquisa do Pew Research Center, que há tempos não aparece na NFJ. Aliás, imagino que o State of News Media 2016 deva estar saindo nos próximos dias. Por enquanto, o que temos é um levantamento sobre a relação entre o uso de mídias sociais e o consumo de notícias, nos Estados Unidos.

O resumo da pesquisa é o seguinte: 62% dos norte-americanos adultos consomem notícias por meio de redes sociais. O Pew chama a atenção de que, em 2012, esse número era de 49% (embora a pergunta feita aos pesquisados na época tenha sido um pouco diferente da de agora). Em qual serviço, proporcionalmente, há um maior índice de consumo de notícias? Facebook, eu diria, de bate-pronto. Imagino que vocês também. Não. Nos EUA, o site de redes sociais onde há um maior índice de consumo de notícias é o reddit: 70% dos seus usuários acessam notícias através dele. O Facebook vem logo atrás, com 66%. Na sequência vem o Twitter, com 59%.

Mas como muito mais gente acessa o Facebook que o reddit, quando o índice é comparado com a população do país, a rede do Mark deixa os outros comendo poeira. Ou seja, se levarmos em conta que o Facebook chega a 67% da população dos Estados Unidos, a porcentagem de norte-americanos adultos que consomem notícias por meio do seu NewsFeed é de 44%. Como apenas 4% da população usa o reddit, o percentual de norte-americanos que consomem notícias por lá é de 2%.

Dá pra baixar o material aqui.

Falando em pesquisa, o Sérgio Lüdtke começou a publicar os resultados de uma pesquisa sobre o empreendedorismo no jornalismo brasileiro. Dois conteúdos já estão disponíveis. O primeiro é este: Como surgem e crescem os novos empreendimentos digitais do Jornalismo no Brasil. Embedado no post está a apresentação que Lüdtke fez no encontro da ONA Brasil, que rolou no final de semana passado, em São Paulo. No segundo capítulo, Lüdtke aborda a longevidade e a maturidade das iniciativas brasileiras em jornalismo digital. Ele destaca o alto número (51,5%) de empreendimentos com mais de cinco anos de vida e sublinha o desafio de definir o que é maturidade para esse tipo de atividade.

Destaco dois trechos. Um do primeiro texto:

“As iniciativas em Jornalismo digital no Brasil são longevas; têm grande penetração nas redes sociais e dependem delas para divulgação; dois terços dos empreendimentos ativos não elaboraram plano de negócios antes do lançamento; e surgiram com pretensões de buscar recursos de múltiplas origens, mas não conseguem efetivar esse desejo.”

E outro do segundo:

“Não há no resultado da pesquisa evidências que permitam identificar quais delas chegaram à maturidade. O certo é que esse é um indicador que não pode ser medido pelo tempo de atividade de um empreendimento. Há uma diversidade de propostas, de porte das iniciativas, de temas focais e de modelos de negócio que torna impossível determinar um tempo médio para que um empreendimento em Jornalismo digital seja considerado maduro.”

Acessem lá (1 e 2).
Não é sempre que temos levantamentos sobre a situação do jornalismo brasileiro.

Agora, um texto que não tem conexão direta com jornalismo, mas que pode nos ajudar a entender como a tecnologia (leia-se, as empresas de tecnologia) influencia nosso comportamento digital, como isso é capaz de determinar a maneira como consumimos informações online e, consequentemente, como enxergamos e construímos o mundo à nossa volta. O que nos leva indiretamente ao jornalismo.

O texto é este aqui, escrito por Tristan Harris, que já trabalhou no Google como designer de produtos. Ele é meio grandinho, mas vale a pena. Harris lista e desenvolve 10 tópicos sobre como a tecnologia é capaz de sequestrar a mente das pessoas – às vezes com o consentimento das empresas por trás das interfaces com as quais interagimos, às vezes de maneira não proposital. Olha, o lance é pesado, viu. Se vocês acham que controlamos o rumo das nossas vidas digitais, Harris nos mostra que estamos muito enganados. Na real, apenas achamos que estamos.

Não vou escrever sobre os 10 tópicos aqui, claro, mas gostaria de sublinhar o primeiro. Na minha opinião, ele diz muito sobre a não neutralidade das opções que nos são oferecidas neste ambiente: o menu. Frente ao que os menus oferecem, Harris propõe uma pergunta simples, banal até, mas daquelas que só são percebidas como tal depois que alguém as faz: o que o menu NÃO te oferece? Segundo ele, essa premissa faz toda a diferença na hora de conduzir nosso comportamento, optando por coisas que originalmente não queríamos e nos fazendo esquecer (não ver) outras que talvez quiséssemos. Um exemplo:

“(…) imagine que, em uma terça à noite, você está na rua com seus amigos. Em determinado momento, vocês querem achar um lugar para continuar conversando. Vocês abrem o Yelp para encontrar recomendações próximas e ver uma lista de bares. O grupo se transforma em um amontoado de rostos grudados nas telas dos seus telefones comparando bares. Eles escrutinam as fotos de cada um, comparando drinks. Este menu ainda é relevante para o desejo original do grupo? Não que bares não sejam uma boa escolha, a questão é que o Yelp substituiu a questão original do grupo (“onde nós podemos continuar conversando?”) por uma pergunta diferente (“qual é o bar com boas fotos de drinks?”). Isso foi feito modelando o menu. O grupo cai na ilusão de que o menu oferecido pelo Yelp representa um conjunto completo de possibilidades de onde ir. Enquanto estão olhando para os telefones, eles não veem que no parque próximo há uma banda tocando música ao vivo. Também esquecem da galeria do outro lado da rua que serve crepes e café. Nenhuma dessas opções está no menu do Yelp.”

Desculpem pelo longo trecho, mas achei que valia a pena pelo didatismo.

A jogada toda está na transformação da pergunta original (nossos desejos) pelo que é oferecido pelo menu (os desejos dos desenvolvedores / plataformas / sites). É aí que nosso livre arbítrio VAI PELAS CUCUIAS, como dizemos aqui no sul. Na sequência do texto, Harris dá alguns exemplos típicos de perguntas transformadas.

Uma delas é a seguinte:

“‘O que está acontecendo no mundo?’ se transforma em um menu de histórias selecionadas pelo news feed”.

Familiar, não? É por isso que a lógica dos algoritmos que determinam o nosso consumo jornalístico deve ser continuamente questionada e problematizada. O NewsFeed do Facebook é capaz de nos manter bem informados, satisfazendo nossas necessidades de cidadão? Ou ele está conduzindo nosso comportamento de leitura de modo a satisfazer as necessidades dele, por exemplo, através de conteúdos que nos mantenham mais tempo no Facebook, curtindo e comentando?

Escreve Harris:

“Moldando os menus por meio dos quais nós fazemos as nossas escolhas, a tecnologia sequestra a maneira como percebemos nossas escolhas, substituindo-as por outras. Mas se prestarmos atenção, notaremos que as opções que nos são oferecidas nem sempre estão alinhadas com as nossas verdadeiras necessidades.”

Vou parar por aqui, mas vale a pena investir um tempinho de leitura. Uma coisa legal é que, à medida que Harris vai apresentando as “formas de sequestro”, ele sugere modos alternativos de comportamento por parte da tecnologia (ou de quem a concebe, na verdade), de maneira a nos colocar DE FATO no controle das nossas vidas. Uma coisa é certa: não há “massagem” nos algoritmos que os façam parar de fazer coisas com a gente. A questão é saber o que eles estão fazendo para que possamos moldá-los (ou pressionar quem os molda) da maneira que acharmos mais adequada. Leiam. Acho que vai mudar o modo como vocês veem as coisas.

Adiante.

Parágrafo rápido sobre este post do Poynter a respeito de mais um MEMORANDO interno do NYT sobre o futuro da redação e do jornalismo. O texto traz a íntegra do documento, mas o resumo feito antes já dá uma boa ideia do que o maior jornal do mundo anda pensando. Entre os principais tópicos, destaco os seguintes:

  • Fugir da “comoditização” da cobertura. Ao invés de dar ao leitor o que ele pode achar em todo lugar, oferecer o que o NYT tem de melhor e exclusivo.
  • Menos escrita pomposa, mais materiais visuais e escrita “conversacional”.
  • Menos preocupação com a edição impressa. Em um futuro próximo, os editores encarregados do dia precisarão parar de se preocupar em “preencher espaços”. O jornal impresso ficará a cargo de uma equipe específica.
  • Menos editorias, mais “cobertura em grupos” (coverage clusters).

Bora pro próximo tópico.

Estreia da Margaret Sullivan como colunista de mídia no Washington Post. Na largada, uma injeção de otimismo na profissão. Texto motivacional, daqueles “moçada, sei que a coisa não tá fácil, mas nossa profissão é a melhor do mundo!”. Como todo texto dessa natureza, ele tem certa dose de lua de cristal. Por outro lado, é importante ter alguém te dizendo “vai dar!” de vez em quando.

Um trecho:

“De fato, o mundo do jornalismo virou de cabeça pra baixo. As trajetórias tradicionais de carreira foram engolidas pela internet junto com os anúncios que garantiam a grana dos jornais. E a confiança do público na mídia está baixa, especialmente desde que a ideia que se têm de “mídia” não consegue diferenciar National Enquirer, Facebook, Gawker, Economist e Washington Post.”

Destaquei este trecho porque ele contém, no meu ver, uma grande oportunidade e um grande desafio para o jornalismo. Respectivamente, reinventar o imaginário profissional e restabelecer a confiança do público, fazendo-o saber diferenciar jornalismo de conteúdo, entendendo a importância e o lugar de cada um.

Seguimos.

Um rápida: interessante matéria da Bloomberg sobre veículos de mídia inovadores sendo bancados por conglomerados da velha mídia. O melhor é a frase de abertura: “Hot shots of new media are like twentysomethings who live in their parents’ basement.” Traduzindo livremente, seria algo como: “Novas mídias cantando alto são como jovens de vinte e poucos que ainda moram no fundo da casa dos pais”.

Adiante.

O que vocês acham desta declaração de Andiara Petterle, vice-presidente de Jornais e Mídias Digitais do Grupo RBS, que publica o jornal Zero Hora, a respeito da relação do conglomerado com o Facebook, em especial com o Instant Articles?

“Por anos, nós fomos muito abertos ao Facebook, Google e outras empresas de tecnologia, mas ano passado nós mudamos a nossa estratégia. Estamos focando em assinaturas digitais, especialmente com Zero Hora, nosso maior jornal. Isso está funcionando muito bem. Nós lançamos várias plataformas proprietárias no ano passado e estamos crescendo rapidamente – 50% em um ano – em assinaturas digitais, o que é crucial para o futuro do nosso modelo de negócio. Então, confiar no Facebook, especialmente no Instant Articles, está completamente fora de cogitação para nós. Jornais locais e regionais não precisam do Instant Articles. Se você possuiu boa presença no impresso e no online, realmente não há necessidade. Mas você pode usar o Facebook para gerar tráfego e conversação, e é uma boa plataforma para converter leitores em assinantes, no nosso caso. Nossa posição é muito clara: nós não vamos distribuir nossos jornais de qualidade ou qualquer outro bom conteúdo em plataformas de terceiros porque isso afeta dramaticamente parte do nosso negócio. Estamos trabalhando em formas de usar as mídias sociais e todas as plataformas para criar um canal de assinaturas para usuários digitais.”

Forte, não? Esta declaração está nesta entrevista, publicada no blog do WAN-INFRA. Para Petterle, como a ZH não tem como ter alcance global, não faz sentido apostar todas as fichas em estratégias de distribuição que gerem volume, como é o caso do Facebook. Ela também explica como funciona a assinatura ZH Tablet, em que o assinante recebe um aparelho da Samsung com os apps do jornal instalados – estratégia que teve início no fim do ano passado e parece estar dando certo. Vale a pena ler a entrevista. Se o plano do Grupo RBS vai dar certo ou não, é difícil dizer, mas não é sempre que vemos alguém dando as costas para um produto do Mark.

Como complemento à entrevista, sugiro dar uma olhada neste artigo de Jeff Jarvis. Ele sugere que deixemos o volume de lado (mas sem ignorar as grandes plataformas) e prestemos atenção na qualidade e na proximidade com as nossas audiências. Para isso, ele diz, precisaremos superar algumas premissas que sempre fizeram parte do (imaginário do) nosso trabalho, tais como “produzir um produto preenchido de conteúdo”, “acreditar que nossa competência é distribuição para as audiências”, “crer que as audiências precisam vir até nós para consumir o nosso conteúdo”, “que, assim como nós, o público tem saudades do impresso e das transmissões de TV”, “que nós temos propriedade sobre a verdade e autoridade”.

E por aí vai. Se quiserem, o texto está aqui.

Indo pro final, uma notícia de Nova York. O programa de 2016 do Tow-Knight Center sobre empreendedorismo no jornalismo chegou ao fim. Jornalistas de 12 países apresentaram 18 projetos que estão tentando inovar na nossa área. O Brasil foi representado pela parceria Volt Data Lab + Aos Fatos.

Sempre em tempo: quatro iniciativas jornalísticas voltadas para o empoderamento das mulheres e fortalecimento do feminismo, cortesia do Pedro Valadares.

Só pra constar: o Twitter vai deixar a gente postar mais de 140 caracteres sem aumentar o limite de caracteres dos posts. Como? Considerando apenas o texto do post, sem somar os caracteres dos perfis, imagens, links.

Moçada, é isso. De conteúdo.

Porque tenho um comunicado relevante em relação à NFJ a fazer: retirei temporariamente o botão de doações que ficava logo aqui embaixo. Precisei fazer isso porque tive alguns problemas com o PayPal. Logo tudo será resolvido, espero.

Agora sim.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório