Buenas, moçada!

Como na semana passada, antes de começarmos, algumas palavras do nosso patrocinador. Quem por acaso perdeu a NFJ#94, a newsletter ganhou o apoio do Volt Data Lab nos meses de junho e julho. O Volt está lançando um serviço de jornalismo de dados voltado para pequenas e médias redações. Hoje, o editor Sérgio Spagnuolo também anuncia novas turmas dos cursos oferecidos pelo Volt.


Volt lança serviço de jornalismo de dados e novos cursos em SP e Curitiba

O Volt Data Lab, uma agência de jornalismo especializada em reportagens baseadas em dados, vai passar a publicar, em julho, um serviço de notícias voltado a pequenas e médias redações.

Com menos do valor de um freelancer por mês, sua redação ou ONG terá acesso a, pelo menos, quatro reportagens com assuntos da semana, gráficos de notícias quentes e descontos exclusivos em cursos e projetos sob demanda.

E mais: os assinantes do plano anual que contratarem o serviço em junho receberão gratuitamente uma ferramenta de gráficos com as cores e logo de sua organização customizada pelo Volt. Sua redação poderá produzir seu próprio conteúdo visual.

Novos cursos
Além dos novos serviços, o Volt Data Lab abriu quatro turmas para os cursos de Programação Web para jornalistas, Jornalismo de Dados e Ferramentas de Visualizações. Serão três edições em São Paulo (os três cursos) e uma em Curitiba (Jornalismo de Dados). As vagas são limitadas.

Atenciosamente,
Sérgio Spagnuolo


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Bueno, vamos nessa?

Começo com este link do First Draft sobre o Facebook estar perdendo a batalha contra notícias falsas. Talvez vocês lembrem que na NFJ#87 falamos sobre os esforços que a empresa de Mark vem fazendo para combater a desinformação em seus domínios. Pois bem, na matéria que eu estou sugerindo agora, Tom Trewinnard relata que a estratégia do Facebook não está adiantando muito. O autor do texto cita, inclusive, a mesma matéria do BuzzFeed que serviu de base para a discussão feita aqui, em abril. São dois os pontos desenvolvidos por Trewinnard.

Primeiro, essa história de contar com os usuários para denunciar notícias falsas, evitando que elas se espalhem, é uma furada. Por um lado, porque o mecanismo de denúncia (as tais de flags) disponibilizado pelo Facebook é meio trabalhoso. O sujeito precisa enfrentar certa burocracia para avisar que um conteúdo é falso. São no mínimo SEIS cliques para finalizar o processo. Uma eternidade de tempo pra quem está acostumado a reagir a conteúdos com apenas um clique. Por outro, porque nem sempre será fácil identificar se uma notícia é falsa ou não.

O segundo movimento que Trewinnard é sugerir alternativas ao Facebook. São três, basicamente: falar mais sobre o assunto, inserir moderadores na jogada e promover alternativas de checagem e verificação de dados dentro do próprio Facebook. Todas são maravilhosas, mas dependem de apenas uma coisa: a abertura do Facebook ao mundo. O que, sabemos bem, não é a prioridade de Mark e seus amigos.

Se tivéssemos mais dados fornecidos pelo Facebook, diz Trewinnard, poderíamos começar uma discussão capaz de fazer “emergir uma consciência sobre os desafios” relacionados ao assunto, o que certamente geraria “ideias sobre como reagir à propagação de notícias falsas”. Por sua parte, o Facebook se limita ao clássico: “estamos trabalhando para melhorar a experiência dos usuários”.

Das três sugestões oferecidas por Trewinnard, me parece que a última é a mais interessante. Ele dá várias alternativas para melhorar a capacidade do Facebook de verificar notícias falsas. Desde ensinar o algoritmo a ser mais eficiente nesse sentido até notificar os usuários que compartilharam conteúdo falso, avisando que aquilo foi produzido para enganar as pessoas, diferenciando a desinformação da sátira, por exemplo. As alternativas são várias, mas, para colocá-las em prática, é preciso participar de um brainstorm coletivo, coisa que o Facebook não curte muito.

Enfim. O First Draft tem um quiz sobre notícias falsas. Dá pra testar os conhecimentos sobre os fatos (todos estrangeiros) de maio aqui.

Antes de passarmos para o próximo assunto, deem uma olhada neste texto aqui também sobre notícias falsas. O legal é que Paul Dughi, o autor, dá vários exemplos (re)publicados por veículos jornalísticos. É aquela coisa: no calor da hora, sempre vai aparecer uma foto ótima para ilustrar aquele breaking news em andamento. O exercício que Dughi propõe é sempre pensar que “é muito bom para ser verdade”.

Ok, adiante.

Bom artigo do Nieman Lab sobre os feitos de Jeff Bezos à frente do Washington Post. Ele é resultado de uma pesquisa realizada pelo professor Dan Kennedy, que passou um semestre observando as estratégias digital e de negócios do jornal norte-americano. Logo na introdução ele diz que, desde a chegada de Bezos, o Washington Post está “maior, melhor e alcança mais pessoas” do que quando ainda era propriedade da família Graham, mas o que não dá pra saber direito é se isso é resultado direto da administração do fundador da Amazon. Afinal, em termos de negócio, o WP segue perdendo leitores e receita oriunda da publicidade.

Como características únicas do caso WP, Kennedy destaca ainda os “bolsos sem fundo” de Bezos e o fator Amazon: o jornal tem privilégios junto aos produtos da gigante das vendas online, como o Amazon Prime e o Kindle Fire. De qualquer maneira, há lições gerais que podem ser extraídas desse relacionamento.

Kennedy destaca cinco. Vou passar rapidamente por cada uma delas. A primeira diz respeito ao Washington Post pertencer a uma pessoa, e não ser uma S/A. Segundo o autor do texto, preferir o lucro dos acionistas a investir em jornalismo foi o pecado de muitos jornais antes mesmo da ascensão da internet. Ao não precisar dar satisfações aos shareholders, Bezos tem investido racionalmente no jornal.

A segunda é crescer, atingir uma grande audiência. Embora a economia de escala não tenha beneficiado os veículos de jornalismo, especialmente em função das gigantes do Vale do Silício, Bezos aposta no longo prazo. Ter uma audiência grande significa, no mínimo, ter maiores chances de obter receita dela. Nem que seja para converter uma mínima parte dessa audiência em assinantes.

A terceira é não trocar as pessoas apenas porque sim. Kennedy fez referência à manutenção de Martin Baron como chefe de redação e de Shailesh Prakash como vice-presidente de tecnologia. O pesquisador destacou o fato de o nome de Baron já fazer parte do imaginário do Washington Post, especialmente depois do sucesso do filme Spotlight, e disse que não deixou de ser uma surpresa a manutenção de Prakash na área de tecnologia devido ao background de Bezos na área.

A quarta é a relação do jornal com a tecnologia. Mais do que isso, é ter a tecnologia no centro do negócio. Mas a serviço do jornalismo. Kennedy destaca a beleza e a agilidade de sites e apps do WP, chama a atenção para as soluções desenvolvidas para resolver demandas internas e para os produtos criados no jornal licenciadas para terceiros, como o Arc, um pacote de gerenciamento de publicações.

Por fim, “abraçar a mudança mesmo quando você não pode controlá-la”. Todo o conteúdo do Washington Post está no Instant Articles e o jornal está presente no Apple News, assim como se beneficiando do Google Accelerated Pages (AMP). Os executivos do Post acreditam que eles precisam ir onde a audiência está. Afinal, se uma parcela do um bilhão e meio de pessoas que acessam o Facebook mensalmente assinar os serviços do jornal, já seria uma boa notícia para Bezos.

Acabou que ficou meio longa essa parte, mas achei interessante porque, embora digam respeito ao Washington Post de Jeff Bezos, as lições destacadas por Dan Kennedy são bem comuns às discussões feitas aqui – e no jornalismo, de maneira geral: relação tecnologia x jornalismo, como lidar com os grandes players, convívio entre o jornalismo old school (Baron) com magnatas “deep pockets” da web, etc.

Sobre isso tudo, mas mais especificamente sobre a relação do jornalismo com o Vale do Silício, recomendo dar uma olhada neste texto do Jeff Jarvis sobre como, na opinião dele, podemos nos beneficiar do trabalho das grandes plataformas (especialmente o Google): obtendo dados gerados por eles. Só que, para obtê-los, precisamos saber o que de fato queremos, e, igualmente importante, precisamos saber como elaborar as perguntas certas para fazer às plataformas. Na sequência do texto, Jarvis relata o que ele aprendeu durante um tour na Europa em que participou de vários encontros sobre o futuro das notícias promovidos pelo Google.

Seguimos com esta matéria sobre o BuzzFeed britânico. O texto é parte um perfil da editora-chefe Janine Gibson, ganhadora do Pulitzer quando ainda trabalhava no Guardian, parte mais uma narrativa de como o BuzzFeed vem se movimentando globalmente para deixar de ser conhecido apenas como um lugar em que há vídeos de gatinhos, e sim como um veículo jornalístico respeitado.

Uma das coisas que me chamaram a atenção foi quando Gibson disse que há, de fato, um gap geracional relacionado ao consumo de jornalismo. Segundo ela, existem os veículos lidos pelas pessoas com 35 anos ou mais e os preferidos pela audiência com 35 anos ou menos. E que o BuzzFeed, por se enquadrar na segunda faixa etária, está em grande vantagem. Especialmente porque eles não tentam cobrir todo o noticiário, ao contrário dos seus rivais tradicionais. Eles procuram focar no que interessa para a sua jovem audiência: “discriminação, preços dos alugueis, mudança no uso das mídias sociais”, diz o texto assinado por Ian Burrel. Leiam lá.

Ok, agora o seguinte. O que vocês acham disso:

“Se de repente um robô vai acabar tirando o meu emprego mesmo, por que não fazer com que ele me ajude a me tornar uma escritora melhor antes disso?”

Essa foi a premissa que conduziu a repórter Adrienne Lafrance a tentar projetar um robô que imitasse o seu estilo de escrever. Ela contou como foi a experiência nesta matéria publicada na The Atlantic. Spoiler: a experiência foi um fracasso. Que pena. Ou não. O que importa aqui é a tentativa de Lafrance a construir sua versão digital.

(FYI: neste exato momento iniciou França x Romênia e a NFJ#95 quase foi à ruína.)

A repórter tentou usar redes neurais para criar o que ela chamou de robô Adrienne. Redes neurais são modelos computacionais inspirados no cérebro humano. Sua ideia básica é que, a partir de uma inserção de dados, o computador possa analisá-los, fazer inferências sobre sua estrutura, e então apresentar informações originais como output. Informações cuja inspiração veio dos dados iniciais, claro.

Ela pediu ajuda para o escritor e tecnólogo Robin Sloan, que vem se dedicando a iniciativas semelhantes. Lafrance mandou para ele o input necessário para ensinar o robô Adrienne. Tudo o que ela já escreveu para a Atlantic, ou seja, mais de 500 mil palavras. Ou 3MB de texto. O resultado foi um texto bizarro. Como ele tá em inglês, não faz sentido eu tentar traduzir, por isso vale a pena dar uma conferida no link original. A moral da história é que, para fazer o robô Adrienne aprender alguma coisa, seria necessário uma quantidade de texto de input muito maior do que todo o trabalho de Lafrance. Em vez de 3MB, 100MB de texto, ou 18 milhões de palavras.

Mas mesmo assim talvez o texto seguisse bizarro. Porque o aprendizado do computador, explica Sloan, não acontece da mesma forma que o nosso. Não podemos dizer: escreva um texto em inglês, aqui está a sintaxe da língua, seus verbos, etc. Sua lógica é diferente: para o robô, o input é apenas um amontoado gigante de caracteres. O que ele faz é encontrar algum tipo de coerência no texto e, a partir disso, produzir material original. Mesmo que não faça NENHUM SENTIDO.

Moral da história: acho que ainda estamos longe do momento em que um computador vai conseguir escrever um texto criativo, sem que seja apenas preencher lacunas com informações retiradas de um banco de dados ou algo assim.

Voltando ao jornalismo PROPRIAMENTE DITO, sugiro esta entrevista publicada no European Journalism Observatory. Aliás, recomendo muito o EJO. Eles fazem uma conexão interessante entre a pesquisa e a prática jornalística. A entrevista com o Matteo Stocchetti, de uma universidade finlandesa, é um exemplo. Sua pesquisa, segundo Martina Topinkova, que o entrevistou, se concentra no “papel da comunicação em criar e fortalecer uma base de poder que, na opinião dele, promove ‘uma ordem global neoliberal falida'”. Interessante definição, não?

O objeto principal de pesquisa de Stocchetti são as imagens, ou, como ele chama, “visual propaganda”, que transformam tudo em entretenimento, “borrando a realidade e preservando o status quo”. Há uma troca de envolvimento político pelas emoções. As notícias – baseadas fortemente no conteúdo imagético – chocam, mas não produzem reflexão, pois logo são substituídas por outras ainda mais chocantes – ou por uma notícia de esportes. Deem uma olhada numa das respostas dele:

“Isso (esse tipo de prática) pode ser perigoso se a maioria dos receptores são suscetíveis a quem quer que publique uma imagem melhor ou uma narrativa visual mais impactante. Há oportunidade para a manipulação e para a propagação de desinformação. E trata-se de uma grande chance para demagogos. Manipulação é uma forma de propaganda na qual as ideias propagadas são intencionalmente baseadas não na razão, mas em emoções, em geral, medo, ansiedade, ódio. Na era digital, as pessoas responsáveis por produzir a cobertura noticiosa fazem emergir emoções fortes, em parte intencionalmente (o que é bastante lógico): o financiamento midiático depende, infelizmente, dos índices de audiência, número de cliques, de quantas vezes as pessoas visitam determinada plataforma.”

Mas que manipulação?, poderíamos perguntar. Onde ela estaria? Como, ao publicar imagens fortes, às vezes jornalisticamente relevantes, estamos ajudando a manutenção do status quo? Vamos dar uma olhada em outra resposta de Stocchetti:

“Comercialização generalizada e consumismo onipresente, que estão intoxicando nossas sociedades, empobrecendo nossa cultura e, em última instância, criando condições para desigualdade, injustiça e conflitos em escala global. Eles não dependem de nenhuma ‘campanha’ específica, e sim permeiam virtualmente todas as dimensões da comunicação social. A mensagem fundamental parece ser que os únicos valores relevantes são aqueles com potencial de mercado; algo é importante somente se traz lucro a alguém e quando está associado a algum interesse econômico. E isso geralmente prejudica a democracia. Eu não acho que nada parecido com a verdade se torna possível em condições como essa.”

E aí, somos ou não somos consumidores sedentos por emoções? Leiam lá.

Indo para o fim, voltamos rapidamente ao Facebook. Leiam este texto publicado no Thoughts on Media. Ele faz uma reflexão sobre como o Facebook age como traficantes que fornecem amostras grátis do seu produto com o objetivo de viciar seus clientes. Pesado, não? Pois é, o próprio autor (o mesmo Paul Dughi de um texto sobre notícias falsas sugerido no começo da news) brinca com a comparação. Mas digo a vocês que faz sentido. Ele constrói o raciocínio a partir desta notícia sobre uma queda de 42% no alcance de posts publicados por veículos de mídia neste ano (comparando com números registrados no início deste ano).

(Que gol foi esse do Payet, meudeus)

Leiam este trecho do texto:

“‘No último quadrimestre e ainda em janeiro, as empresas de mídia estavam indo muito bem’, disse Anderson (Jim Anderson, CEO do SocialFlow). ‘Aí o Facebook mudou o algoritmo.’ Em maio, os publishers produziram cerca de 550 mil posts – mais do que os 470 mil em abril – mas, na média, o alcance caiu 42% por post de janeiro a maio. ‘Isso se deve, em parte, à mudança no algoritmo’, disse Anderson.”

Pois é, para Dugui, o Facebook faz com que todo mundo fique viciado nos seus produtos maravilhosos oferecidos gratuitamente. O preço vem quando nos transformamos em zumbis: para continuar conseguindo o mesmo efeito de antes, precisamos fazer o que o (algoritmo do) Facebook manda a gente fazer.

Feito? Agora que vi que essa edição já tá bem grande.

Antes de fechar, duas rápidas: nos EUA já tem mais gente trabalhando em veículos nativos digitais do que em jornais impressos. E o Gawker tá indo pro brejo.

Era isso, então. Rumo a um final de semana que tem Inglaterra e Rússia amanhã e 21k pra correr no domingo. Tudo isso num friozinho de um dígito. COISA BOA.
Bom fíndi e até sexta que vem.
Moreno Osório