*|MC:SUBJECT|*



Newsletter Farol Jornalismo #55 (24/07/2015)

Veja este email no browser



 

Buenas, moçada! 

Antes de começar, vocês devem ter visto que vai rolar, a partir do dia 3 de agosto, o curso online técnicas básicas de Jornalismo de Dados, certo? É uma boa chance para aprender um pouco sobre o assunto com conteúdo em português. O curso é promovido pelo Knight Center e pela ANJ e vai ter o envolvimento do pessoal da Escola de Dados e do Jornalismo++. O Farol Jornalismo também estará nessa. Semana que vem dou mais detalhes. Por enquanto, aproveitem e se inscrevam!

Ok, vamos nessa.

Gostaria de começa com duas entrevistas.

Primeiro esta aqui, feita pela colega aqui de Porto Alegre Patrícia Specht e publicada na revista da Famecos, a faculdade de comunicação da PUCRS, com o pesquisador português João Canavilhas. Essas entrevistas são boas oportunidades para saber o que anda sendo feito na academia sem precisar ter grande familiaridade com conceitos utilizados na reflexão científica.

Canavilhas trabalha questões bastante abordadas aqui na newsletter, como a relação entre jornalistas e algoritmos, a evolução da interatividade no jornalismo digital e o desafio de buscar um modelo de negócio. Sobre isso, ele acredita que as fontes de receita devem ser diversificadas, e que as empresas que oferecem serviços de internet e que vendem equipamentos que permitem às pessoas acesso ao conteúdo (tablets, smartphones, etc) também deveriam pagar pelo jornalismo. 

Leiam o que ele diz sobre isso:

“[…] seria natural que os dispositivos móveis que compramos para ler notícias também contribuíssem para as empresas de jornalismo. Isso já acontece quando compro um tablet, por exemplo, e me oferecem uma assinatura anual de um determinado jornal. O tablet, ou a empresa, vai pagar ao jornal uma porcentagem da assinatura. Os provedores também deveriam contribuir, porque as pessoas têm rede de internet em casa não só para ler e-mails, mas também para se atualizar e acessar notícias.”

O pesquisador também acredita que, diante de uma quantidade tão grande conteúdo, o papel do jornalista (com ajuda de algoritmos) é “reduzir” essa oferta: 

“A oferta de conteúdo se tornou tão grande que as pessoas começaram a cansar de ter tantas alternativas, ou seja, já não é suficiente dar tanta opção, é preciso também dar um pouco de conforto, indicando, de toda essa oferta, qual a verdadeiramente importante. 

[…]

O jornalista continua a ser aquele que constrói o produto como um todo, e o algoritmo vai ajudar na medida em que conhece o padrão de consumo das pessoas. O jornalista dá o produto e alternativas de leitura e o algoritmo ajuda o leitor a encontrar o seu próprio caminho. Estamos falando, portanto, de um trabalho conjunto entre jornalistas e algoritmo”.

Feito? Leiam lá

Vamos para a outra.

É esta, publicada em português no European Journalism Observatory, com Stuart Allan, professor da Universidade de Cardiff, no Reino Unido. Allan fala sobre seu último trabalho, o livro “Citizen Witnessing: Revisioning Journalism in Times of Crisis”, em que procura delimitar o conceito de jornalismo cidadão, diferenciando-o do cidadão testemunha. À primeira vista, conceituações dessa natureza podem parecer supérfluas, mas são importantes para entendermos os papéis desempenhados por cada sujeito presente no processo noticioso atual.

O senso comum pode indicar que qualquer um que registre um acontecimento com o seu celular é um jornalista cidadão. Allan diz pera lá, as coisas não são tão simples assim, vamos pensar um pouco. O registro de imagens por amadores existe há um bom tempo (ainda é comum emissoras de TV dizerem “as imagens foram feitas por um cinegrafista amador”). A novidade é que a capacidade desse tipo de testemunho é quase onipresente hoje. Ser jornalista cidadão é outra coisa. 

Adiante. 

Mudando de assunto, mas ainda aproveitando conteúdos em português, vocês viram como foi a estreia do Aos Fatos, a iniciativa brasileira de checagem de discursos políticos? Eles verificaram o discurso que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, fez na TV, na sexta passada. Além do texto, leiam também as discussões realizadas nos comentários parágrafo a parágrafo, em especial nos primeiros. Dá aquela sensação boa de ler comentários construtivos.

Sobre checagem de dados, deem uma olhada nesta matéria do Poynter sobre um encontro de organizações fact-checkers que está acontecendo em Londres entre ontem e hoje, reunindo 74 participantes de 31 países. O texto destaca o crescimento pelo interesse no fact-checking e os desafios de mensurar o impacto do trabalho, bem como de alcançar um público maior. E, como é de se esperar, o papo também gira em torno de alternativas de modelo de negócio para se manter vivo.

Semana passada falamos sobre o jornalismo enxergar a necessidade de um cargo como o editor mobile, o cara responsável por pensar o conteúdo desde o primeiro tweet até o material multimídia. Interessante e essencial, mas se pensarmos um pouco, talvez seja uma função ingrata nos dias atuais. Neste texto, Nilay Patel, do The Verge, sugere alguns porquês, mesmo sem citar essa função.

O artigo fala sobre o estágio atual do conteúdo e da navegação mobile e o seu futuro próximo. Ele chama a atenção, por um lado, para o terror que é navegar nos browsers mobile (Safari e Chrome, principalmente) – algo que todo mundo já deve ter percebido, e, por outro, para o cenário que está se desenvolvendo como alternativa: plataformas fechadas, como Instant Articles e Apple News.

“Como inovar se você precisa despender esforços técnicos apenas para conseguir publicar?”, é o que ele se pergunta, sublinhando que a falta de uma plataforma aberta de publicação que funcione no mobile (como são os browsers para a web) estimula o domínio de empresas que não sabem como a mídia funciona, como Facebook e Apple, por meio de plataformas proprietárias e que funcionam de maneiras distintas, exigindo um trabalhão para adaptar o conteúdo a cada uma.

Não são poucos os questionamentos:

“Como criar um Fanboys, um Snowfall ou um What is Code com as ferramentas da Apple e do Facebook sabendo que elas são completamente diferentes? Como integrar bem os vídeos? Como construir apps de notícias interativos? Como criar novos tipos de publicidade capazes de atender as necessidades do usuário se você está preso a uma plataforma que não é a sua? Como você publica e atualiza breaking news rapidamente se você precisa atuar em diferentes plataformas?”

Aos poucos começamos a entender melhor as consequências de deixarmos que empresas privadas controlem a maneira como os conteúdos são publicados.

Aproveitando o gancho: 10 ferramentas para melhorar a reportagem mobile. Gostei do Life360, para organizar a comunicação de uma equipe trabalhando na rua.

Ainda sobre mobile, tem um resquício do especial do Journalism.co.uk da conferência news:rewired, realizada em Londres na semana passada. Esta matéria é a cobertura da participação de Hanna Kouri, do canal finlandês ISTV, e de Isaac Showman, diretor da Reuters TV. Ambos falaram sobre vídeo no mobile. Na verdade, não há grandes novidades na fala deles: novas gerações estão deixando a TV, vídeo para web é diferente de TV, o vídeo deve estar disponível online, etc. Na verdade, eu só citei esse texto porque é genial um diretor  chamado Showman. Brincadeiras à parte, obviedades às vezes confirmam que estamos à frente. 🙂

Sobre a news:rewired, aqui está o discurso de Emily Bell citado semana passada.

E ainda falando em vídeo, a AP está subindo mais de 550 mil clipes de vídeo do seu arquivo no YouTube, segundo esta matéria da Variety. São mais de 1 milhão de minutos que mostram eventos importantes, como o terremoto de 1906 em São Francisco, o ataque a Pearl Harbor, a queda do Muro de Berlim o 11/9. A ideia é dar acesso mais fácil ao material a historiadores, documentaristas, produtores, etc, facilitando possíveis acordos entre a AP e esses profissionais para uso dos vídeos.

 Adiante.

Texto do sempre relevante Mathew Ingram sobre a relação da publicidade com o jornalismo/mídia. Ele faz uma breve recapitulação sobre como a evolução da comunicação em ambiente digital terminou com o sucesso do dueto publishers-anunciantes, e que o resultado disso vem sendo, até agora, um desastre para os usuários. Segundo Ingram, o desespero de ambos para chamar a atenção tem gerado uma espécie de “corrida armamentista”: de um lado, a publicidade buscando formas de mostrar seus produtos (banners, pop-ups, cookies, etc), do outro, usuários buscando cada vez mais adblocks, o que, por sua vez, faz a indústria desenvolver formas de driblar esses bloqueadores, e assim por diante.

O resultado disso, pelo menos até agora, tem sido (de novo) mais poder para os grandes como Facebook e Apple. Porque entre um cenário de “tensão bélica” na web, dificuldades técnicas na navegação mobile (vide texto do The Verge) ou provavelmente se tornar irrelevante ao desenvolver um app próprio, “escolher juntar-se a eles” pode não ser tão ruim. Ou não? Mathew Ingram tenta fazer um exercício:

“O problema é que Facebook e Apple terminam por controlar integralmente o fluxo de conteúdo, determinando quem acessa o conteúdo, e quais, e quem vê os anúncios, e quais. Assim, eles não apenas são cada vez os donos dos métodos usados pelos usuários para encontrar e compartilhar notícias e outros conteúdos, como também iniciam um domínio sobre a forma de entregar anúncios a esses mesmos usuários. Onde ficam as entidades tradicionais de mídia nessa história?”

Sobre a batalha por novas fontes de receita e formas de distribuição de conteúdo, aqui está a última investida do NYT: oferecer notícias aos usuários da Starbucks no aplicativo da cafeteria. A ideia, segundo texto publicado no site do jornal, “representa outra forma de o Times tentar se conectar com os leitores”. Então tá.

Falando em NYT, texto do Nieman Lab fala sobre o fato do Times – e outros veículos – não terem políticas consistentes quanto ao uso, nas suas matérias, de links que remetem a fontes externas. É curioso perceber que, após anos de jornalismo digital, ainda não há unanimidade sobre um aspecto tão básico: o hiperlink. E que, às vezes, mesmo NYT pode ser tacanho a ponto de escolher não oferecer uma fonte externa para não abrir a porta de saída do site para o leitor. 

Curiosidade aleatória: os editores de um jornal americano, o Sentinel & Enterprise, foram convencidos por uma artista a publicar suas obras na capa por 26 dias. 

Quase no fim, uma volta à vibe FISL para ler este ótimo texto publicado no Outras Palavras para começar a entender a importância do software livre e de formatos de arquivos abertos. André Solnik, o autor, é bem didático ao mostrar o quanto é importante sabermos quais são as formas através das quais temos acesso aos dados – inclusive aos nossos. Ele dá um exemplo simples: a impossibilidade de programas mais novos abrirem formatos antigos, como ppts velhos. Essa incompatibilidade tem motivo: forçar as pessoas a utilizarem determinadas tecnologias pertencentes a esta ou aquela empresa. Ou seja, sempre dependeremos de alguém para acessar nossas próprias informações. E essa dependência não costuma ser lá muito barata. Outra vez, mais poder aos grandes.

No fundo, ainda tem uma questão ainda mais importante:

“Afinal, quem controla nossos dados? Se um arquivo tiver um formato tal que só permita a utilização de um software específico e, além disso, não ofereça nenhuma garantia de compatibilidade futura, é evidente que ficamos totalmente à mercê do fabricante e, consequentemente, impossibilitados de controlá-los.

Agora imagine que esse mesmo arquivo tenha sido salvo em um formato cuja estrutura e modo de funcionamento são públicos e padronizados. Nesse caso, elimina-se a necessidade de ter que recorrer sempre ao mesmo programa: como a receita para implementar um formato aberto não é secreta, qualquer software, livre ou proprietário, pode adotá-lo. Garante-se, portanto, sua interoperabilidade. Também há bem menos problemas de compatibilidade, já que, mesmo considerando a hipótese de que em um futuro distante não exista mais nenhum software capaz de lidar com determinado formato, ainda é possível criar um.”

Beleza?

Pra fechar em grande estilo, uma bela leitura para o final de semana: perfil da Dorrit Harazim, que ganhou o prêmio Gabriel García Márquez em Excelência Jornalística. 

Bueno, era isso então.
Bom final de semana e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório

 

Share

Tweet

Forward

+1

Share

Farol Jornalismo, uma iniciativa que pesquisa e produz novas formas de fazer jornalismo.

faroljornalismo.cc
contato@faroljornalismo.cc

parar de receber a newsletter    mudar as preferências da newsletter 
 


This email was sent to *|EMAIL|*

why did I get this?    unsubscribe from this list    update subscription preferences

*|LIST:ADDRESSLINE|*

*|REWARDS|*