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NFJ#132 (07/04/2017)

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E aí, gente, de boas?
Por aqui, o mês de abril já começou projetando o NATAL. Embora o principal nascimento de 2017 ainda não tenha acontecido, diga-se. A vida tem dessas. O fato é que o tempo, este sujeito inclemente e relativo, nos empurra cada vez mais rápido rumo aos Natais. Portanto, já diria Ferris, de vez em quando é importante parar e dar uma olhada ao redor. Aliás, hoje foi um belo dia para um dia de folga. Mas antes de invadirmos um desfile para cantar Twist and Shout, vamos à newsletter. Bora.

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Clique na imagem e leia o especial produzido pelo Farol Jornalismo junto da Abraji sobre tendências para o jornalismo no Brasil em 2017.

Índice

Relatório jornalismo e plataformas, parte 1

Na semana passada, falei do relatório Como ale do Silício redesenhou o jornalismo (The Platform Press: How Silicon Valley reengineered journalism), assinado por Emily Bell e Taylor Owen e publicado no site da Columbia Journalism Review. Vocês também devem lembrar que ressaltei que o documento tem 94 páginas e que, na medida do possível, iríamos voltar a ele aqui na NFJ. Pois bem, o que vocês acham de lermos o relatório nesta e nas próximas três newsletters? Ou melhor, o que vocês acham de eu ler o relatório e contar para vocês os highlights do trabalho? Não tem como dizer não, né. Bom, proponho que abordemos um capítulo do relatório a cada edição da NFJ. Hoje veremos o que dizem os autores na introdução.

Certo? 

A introdução tem o curioso título de “Melancias à democracia” (Watermelons to democracy) e traça uma concisa e precisa trajetória do jornalismo nos últimos 20 e poucos anos, mais ou menos, mas especialmente depois de 2004, com a popularização da banda larga. A melancia do título é a deste vídeo aqui, transmitido ao vivo pelo BuzzFeed um ano atrás e tido como um exemplo do conteúdo que “funciona” nas redes. A experiência dos repórteres que explodiram uma melancia enrolando centenas daqueles elásticos amarelos de prender dinheiro foi assunto de uma mesa da concorridíssima conferência anual de desenvolvedores do Facebook, um case, segundo o texto do relatório, “apresentado como uma nova oportunidade para os publishers enriquecerem com uma inovação criada pelo Facebook” (o Facebook live, no caso). A democracia, por sua vez, é uma referência ao resultado das eleições presidenciais norte-americanas. A partir de uma série de reportagens do mesmo BuzzFeed, os autores dizem que a explosão do tema fake news colocou as plataformas sociais, em especial o Facebook, no centro de um círculo vicioso de desinformação e inverdades. Resultado: no final do ano passado, Mark admitiu pela primeira vez que o Facebook não era “apenas uma empresa de tecnologia”, e sim um “novo tipo de plataforma”. Leiam um trecho:

“Jornalismo e as organizações de notícias se encontram em um momento crítico da sua história e também como uma forma independente na sociedade democrática. A oportunidade de alcançar uma audiência global ao deslizar de um dedo está presente, e oferece oportunidades jornalísticas formidáveis que ainda não foram compreendidas inteiramente. Mas a hiperconexão na web social e na telefonia móvel criou um vasto mercado informacional onde o jornalismo é apenas uma pequena parte. A natureza essencial do jornalismo não mudou; ele ainda apura, relata e dá contexto a histórias para ajudar a explicar o mundo. Mas agora ele está sendo ameaçado por um sistema que se apoia na escala, na velocidade e nas receitas.

Os modelos de negócio das plataformas incentivam a ‘viralidade’ – conteúdos que as pessoas querem compartilhar -, o que não tem nenhuma correlação com a qualidade jornalística. A arquitetura que permite as organizações de notícias chegar às suas audiências nas plataformas sociais também milita contra sua sustentabilidade.”

As mídias sociais, dizem os autores, revolucionaram (estão revolucionando) o jornalismo como nenhuma outra grande mudança na história da nossa indústria. Na primeira década da internet comercial (1994-2004), os veículos estiveram preocupados em transpor o impresso para o digital, mas havia a esperança de que um novo ecossistema pudesse surgir, um ecossistema que fosse construído a partir dos valores e dos métodos jornalísticos tradicionais. Então veio a web 2.0 e a coisa começou a mudar radicalmente. O controle dos meios, das ferramentas, das técnicas, passou da mão de poucos para o conhecimento de muitos. Ao mesmo tempo, o modelo de negócio que sustentou o jornalismo por décadas começava a fazer água.

Mais um trecho:

“Agora nós estamos vivendo uma terceira onda de mudanças tecnológicas. A mudança de computadores de mesa para as pequenas telas dos smartphones e o desenvolvimento de uma web mobile privada fechou e monetizou a promessa de uma web aberta. Os princípios da open web, promissores a cidadãos e jornalistas, deeram lugar a um ecossistema dominado por um pequeno número de empresas que possuem uma influência enorme sobre o que vemos e sabemos. A internet atual, essa largamente controlada por duas ou três empresas, está muito longe da internet aberta de Tim Berners-Lee.”

O objetivo do estudo é jogar luz na relação entre publishers e as plataformas dessas empresas – negócios privados que distribuem informação a partir de sistema técnicos obscuros e que funcionam a partir de interesses privados, e não públicos. Para isso, os autores realizaram mais de 70 entrevistas no último ano, e fizeram análises de conteúdo durante quatro períodos de uma semana, além de duas mesas de discussão fechadas, cada uma com doze participantes – uma com acadêmicos e outra com profissionais de redes sociais. Os resultados nós veremos nas próximas três semanas.

Certo? Bora seguir a newsletter de hoje, então.
 

Alguém se importa com a pesquisa em jornalismo?

Eu diria que a leitura deste texto publicado no Poynter é uma boa sequência do tópico anterior. Nikki Usher, a autora do artigo, resolveu desmistificar algumas afirmações senso comum depois de acompanhar um diálogo no Twitter em que nomes ligados à inovação jornalística norte-americana discorriam sobre a relevância das pesquisas acadêmicas dentro da nossa área. Por exemplo, olhem o que ela diz sobre: Trabalhos acadêmicos não resultam em mudanças na indústria.

“Se você pensar logicamente, essa afirmação reflete uma postura fundalmentalmente anti-intelectual – a mesma postura que os jornalistas muitas vezes atribuem aos leitores. 

[…]

A pesquisa […] nos possibilita entender melhor processos subjacentes, que não estão à vista. Ela nos deixa mais conscientes. Ela nos fornece suporte para mais pesquisas aplicáveis. Ou, ela nos dá elementos para entender melhor as formas como as pessoas conhecem e entendem o mundo ao seu redor.”

Usher lista mais três afirmações comuns. Leiam. Os argumentos dela são interessantes. E aproveitem para ler umas pesquisas também. Querem sugestões que considero relevantes da nossa área? Quatro que me vem rapidamente:

Como anda o jornalismo na América Latina?

Interessante post do blog da especialização em inovação jornalística da universidade Miguel Hernández, na Espanha, com uma seleção de iniciativas latino-americanas que vêm procurando pensar e desenvolver o jornalismo em seus países. Algumas são recentes, outras nem tanto, mas todas parecem ser bons contatos para saber o que se passa no jornalismo dos nossos vizinhos. Deem uma olhada no Convermedia, por exemplo. Lançada por dois jornalistas peruanos, a iniciativa “pretende renovar a formação dos jornalistas desde o Peru para toda a América Latina”, diz o texto do blog. Na capa do Convermedia tem um pequeno texto sobre um trabalho recente do pesquisador Ramón Salaverría, um artigo que busca categorizar os meios digitais para nortear futuras pesquisas e abordagens. Uma das classificações propõe, por exemplo, separar jornalismo do conteúdo que “atende a outro tipo de interesse”.

Automação na redação

Esse papo volta e meia aparece aqui na NFJ. Bueno, aqui tem mais um link interessante a respeito. É uma matéria do Nieman Lab sobre um relatório da AP que reúne as melhores práticas introduzidas pela agência em seus processos.

A AP é uma das pioneiras em automatizar parte da sua produção de conteúdo, especialmente relatórios financeiros, liberando seus jornalistas para trabalhos mais analíticos e menos braçais. Aliás, sobre esses relatórios, a editora global de economia, Lisa Gibbs, diz que, com a automação, a AP aumentou em 12 vezes o número de relatórios gerados para os seus clientes, incluindo em seus processos dados de empresas menores, que antes não recebiam a devida atenção.

Mas os pontos mais interessantes da reportagem dizem respeito à relação jornalismo – algoritmos. O texto chama a atenção para a necessidade de tratar os algoritmos da mesma maneira que tratamos os fatos. É necessário checar, contextualizar e corrigir os códigos da mesma maneira que conduzimos as narrativas e as apurações mais tradicionais. “Algoritmos são criados por humanos, e jornalistas precisam estar atentos ao seus vieses e conscientes de que eles podem cometer erros”, escreveu Joseph Lichterman, o autor da matéria. Deem uma lida no texto do Nieman
 

US$ 14 milhões para combater a desconfiança no jornalismo

É o que vai investir uma coalizão chamada News Integrity Initiative, formada por Facebook, Mozilla and Craigslist Founder Craig Newmark e administrada pelo programa de empreendedorismo em jornalismo da CUNY. Neste texto do Poynter dá pra entender melhor a proposta. De maneira resumida, a iniciativa quer “conduzir pesquisas, planejar eventos e lançar projetos que ajudem as pessoas a tomar melhores decisões a respeito do que elas leem e compartilham online”. 

A propósito da iniciativa o mesmo Poynter traz uma boa entrevista com Jeff Jarvis.

Na conversa, ele explica o que a iniciativa pretende fazer ao mesmo tempo que expõe algumas reflexões interessantes sobre o estado atual do jornalismo. Sobre educação para a mídia ou para o jornalismo (news literacy), ele diz o seguinte:

“O problema que eu tenho com o termo ‘news literay’ é que ele é um pouco paternalista. Ele diz ‘se você lê nossas notícias, você está alfabetizado para a mídia. Se você não lê, você não está. Acho que o público está muito mais envolvido com o processo de produção e distribuição de notícias hoje que nós precisamos pensá-lo à medida que ele acontece. Acho que devemos fazer com que os jornalistas sejam mais alfabetizados em relação ao público também.”

Sobre a relação do jornalismo com as plataformas, em especial com o Facebook, Jarvis é menos crítico do que Emily Bell em seu relatório mais recente. Sua postura é mais aberta e esperançosa em relação aos frutos que esse relacionamento pode gerar:

“Acho que o jornalismo pode ensinar muito às plataformas sobre jornalismo e responsabilidade pública. Acho que eles podem nos ensinar muito a respeito de reiniciar nossa relação com o público que nós servimos e como nós podemos informar melhor uma conversação pública conjunta. Porque essa conversação não está mais acontecendo apenas no nosso site. Está em toda a rede.”

Leiam a entrevista na íntegra aqui.
 

Uma rodada de fake news

Ou melhor, sobre fake news. Aproveitem este conteúdo em português publicado no Nieman Lab e tradução do Publico, de Portugal. É uma pequena compilação de links sobre discussões, textos e reportagens sobre jornalismo e notícias falsas. O primeiro tópico é uma discussão sobre uma foto falsa de um letreiro do metrô de Londres com a mensagem: “Lembramos educadamente aos terroristas de que ISTO É LONDRES e, façam o que fizerem, vamos continuar a beber chá e a seguir em frente. Obrigado.”

A foto com a mensagem é photoshopada.

Mesmo assim foi compartilhada por jornalistas no Twitter e lida em rádios de Londres. Por quê? Porque a foto, embora falsa, traria uma mensagem compartilhada por todos os londrinos que não compactuam com o terror. Sobre isso, James Vincent, do The Verge, em uma matéria citada pelo texto do Nieman, diz o seguinte:

“A ideia de que os sentimentos são mais importantes do que a veracidade parece ter-se generalizado, com imensa gente – repito, incluindo jornalistas – que diz que ‘verificar os factos’ do letreiro é ‘não perceber a questão essencial’.”

Qual é a questão essencial do jornalismo? Fatos ou sentimentos?

Adiante.

Aqui tem um bom texto do American Press Institute sobre um dos maiores desafios enfrentados pelos fact-checkers atualmente: convencer o público de que eles não estão apenas querendo boicotar as ideias com as quais não concordam. Quem acha isso é o público, que confia cada vez menos na imprensa (no caso, norte-americana, mas acho que dá pra generalizar um pouco, a título de reflexão).

Alan Greenblatt, o autor do artigo, cita uma frase dita pelo pesquisador republicado Neil Newhouse em uma conferência recente sobre o tema: “Sua indústria está perdendo a batalha da opinião pública. Os norte-americanos acreditam que os repórteres são tendenciosos e tentam ajudar os seus candidatos a vencer”. Por sua vez, os fact-checkers concordam que se os fatos estão claros para eles, não o estão para o público. “A checagem de fatos vem da nossa tradição de reportagem, mas as pessoas nos veem como jornalistas de opinião, pois nós fazemos ponderações”, disse Angie Drobnic Holan, editora do PolitiFact. Para contornar isso, Jessica Arp, representante de uma emissora de TV pioneira e fazer fact-checking local nos EUA, acredita que o caminho é “trabalhar duro para engajar as audiências no processo de desenvolvimento da narrativa”, disse ela, segundo o texto de Greenblatt.

Leiam a matéria. É maior e mais complexa do que os trechos trazidos pra cá.

Agora é com a Marcela.

Livro conta a reinvenção do NYT

Foi publicado, nesta semana, o livro A reinvenção do The New York Times. A versão em espanhol está liberada para download gratuito. Os últimos 20 anos do jornal são contados em quase 500 páginas pelo jornalista e consultor Ismael Nafría, que desde 2013 dedicou-se a estudar as transformações de uma das mais importantes empresas de jornalismo do mundo.

Apesar das peculiaridades que fazem do NYT um caso único, Nafría acredita que suas lições servem de exemplo a outros veículos que queiram ser “o The New York Times” de sua região, de um determinado tema ou de um certo público. Uma delas – mais uma meta do que uma lição, eu diria – é tornar-se um meio imprescindível na vida de seus consumidores, um meio pelo qual vale a pena pagar.

Dentro do contexto já conhecido por vocês – queda na publicidade, tradicionalmente a principal fonte de receita dos jornais + mudança na forma de consumir notícias -, o NYT compreendeu a dimensão das mudanças provocadas pela revolução digital, conforme ressalta no prólogo o diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, Rosental Alves, e soube reinventar-se.

Eis as 10 lições resumidas pelo autor:

1. Compromisso com o jornalismo de qualidade e em oferecer aos usuários um produto imprescindível.
2. O modelo de negócio está mudando: os usuários contribuem mais do que os anunciantes.
3. Foco nos usuários, especialmente nos mais fiéis.
4. Missão e proposta de valor muito bem definidas.
5. Equipes adaptadas à era digital e móvel.
6. O futuro (e o presente) está no mobile.
7. Um jornalismo cada vez mais visual.
8. O caminho da transformação digital é longo e complexo.
9. Repensar o diário impresso.
10. Trabalho colaborativo em todos os departamentos.

Do pouco que consegui ler da primeira parte, que detalha as 10 lições, me chamou a atenção um número que justifica o foco no leitores fieis: 90% da receita digital vem de 12% dos usuários. Ou seja, sim, pode ser que pouca gente esteja disposta a pagar por jornalismo de qualidade, mas quem está pode garantir uma boa receita para a sobrevivência do seu veículo e, portanto, merece atenção.

Esse engajamento é descrito tanto por meio de assinaturas quanto por tempo dedicado ao site, o que, por sua vez, atrai mais publicidade. Nesse sentido, o Times aposta em dois públicos: jovens e público internacional. Entre as estratégias para conquistá-los estão oferecer acesso gratuito a estudantes e uma versão em espanhol do site, além de um grupo de trabalho focado em conhecer o comportamento desses usuários e estudar seus gostos e preferências.

A pesquisa traz mais números interessantes que, apesar de alguns já serem de conhecimento do público, são bons de se olhar em perspectiva para dar os contornos dessa transformação, complexa e longa como citado acima.

  • A redação do NYT tem 1,3 mil profissionais, um número que se mantém nessa média nos últimos 10 anos. O que vem mudando é o perfil das equipes.
  • O NYT publica entre 200 e 250 produções próprias por dia, volume inferior a outros periódicos segundo o autor.
  • Entre 2005 e 2016, a circulação da edição impressa de segunda a sexta caiu pela metade – de 1,3 milhão de exemplares para 571 mil. A edição de domingo caiu de 1,7 milhão de exemplares em 2005 para 1,08 milhão em 2016.
  • Em 2016, a circulação representou 56,6% do total de receita, enquanto a publicidade ficou em 37,3%.
  • O impresso ainda representava, em 2016, 65,6% do total de receitas.
  • Neste ano, o NYT já ultrapassou a marca de 3 milhões de assinaturas entre impressas e digitais.

No site do livro, o autor seguirá publicando informações sobre novidades no NYT, como análise de resultados trimestrais e anuais. E tem ainda uma página com vídeos que ajudam a contar a história de mudanças do jornal. 
 

Coisas rápidas

E por hoje era isso.
Bom final de semana e até sexta que vem.
Moreno Osório e Marcela Donini

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