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NFJ#152 (25/08/2017)

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Buenas, moçada! Tudo?
Por aqui, tudo lindo.
Aos poucos, Groningen vai retomando o ar de cidade universitária. Nos últimos dias, a moçada veio chegando. Muita gente de mochila nas costas e arrastando suas malas pelas ruas à procura de seus quartos/apartamentos. Imediatamente o astral muda. Na semana passada teve a décima sétima edição da chamada KEI-week, a semana de introdução dos novos estudantes que chegam à cidade. Todos os anos, mais de 5 mil pessoas participam. Vou dizer pra vocês que parece bem divertido. A gurizada tava EM CHAMAS. Dá pra ter uma ideia conferindo o Instagram do evento

Semana que vem o ano acadêmico começa pra valer. Aí é todo mundo ao trabalho. Já razoavelmente adaptado à vida cotidiana (ah, falando nisso, deixem eu indicar dois vídeos sobre a cidade pra vocês: o primeiro é um documentário sobre como Groningen se transformou na cidade dos ciclistas dentro do país da bicicleta; o segundo é um videozinho do Insta da RUG sobre a relação de Ben Feringa, professor da universidade agraciado com o Nobel de química, com o estilo de vida local), achei que seria um belo momento pra enfiar a cabeça nos livros e estudar AFU MESMO.

É isso que farei.

Com eu buscando foco nos estudos e a Marcela focada no Santiago, achamos que seria um bom momento para a newsletter mudar. Então é o seguinte: o coração da newsletter vai trocar de mãos. A partir de hoje, quem vai oferecer a vocês a nossa tradicional seleção de links que buscam resumir analiticamente o que anda rolando no cenário jornalístico brasileiro e mundial é a Lívia Vieira. A Lívia é uma das jornalistas mais antenadas que eu conheço e uma das pesquisadoras por trás do ObjETHOS, projeto jornalístico que admiro bastante e que volta e meia é citado aqui na NFJ. Vocês vão ver que ela incorporou de imediato o estilo da news. Mas vou parar por aqui, deixarei ela mesmo se apresentar antes de começar a CENTÉSIMA QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA NFJ. Ah, só uma última coisa antes de passar a bola: a chegada da Lívia não significa o meu afastamento. Só que a minha participação vai mudar. Mas pra não atrasar ainda mais os trabalhos, explicarei no fim da edição.

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Quer saber o que rolou na última newsletter? Então venha aqui.

Índice

Oi, gente! Eu sou a Lívia, jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre e doutoranda também em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Como pesquisadora, tenho me dedicado ao estudo da ética e suas relações com as novas tecnologias no contexto do jornalismo online. Agora no doutorado, mais especificamente, pesquiso a influência das métricas na produção jornalística na internet.

Fiquei muito feliz com o convite do Moreno e da Marcela para contribuir com a newsletter do Farol. Sou leitora assídua e tenho a news como grande fonte de informação. Por isso, participar mais de perto tem sido uma experiência muito bacana.

Feita a apresentação, é hora de começar. Vamos lá?

Dados sobre a audiência: fonte de stress ou força para o bem?

Há alguns dias, esse artigo de Franklin Foer na The Atlantic repercutiu bastante por trazer uma visão crítica – e até um pouco amargurada – das dificuldades que enfrentou quando era editor da revista americana The New Republic. Com o título “When Silicon Valley took over journalism” (“Quando o Vale do Silício tomou o lugar do jornalismo”), Foer argumenta que a busca por leitores digitais quebrou não só a The New Republic, mas toda uma indústria. Sobre as métricas de audiência baseada em cliques, ele diz:

“As pessoas clicavam tão rapidamente, nem sempre entendiam completamente o porquê. Essas decisões eram feitas em um estado semiconsciente, influenciadas por viés cognitivo. Incitar um leitor envolvia uma pequena manipulação, uma pequena persuasão escondida”.

Foer diz que seu “mestre era o Chartbeat”, referindo-se ao software de analytics utilizado por muitos veículos jornalísticos. Ele lembra que acessava as métricas do site ao acordar, depois de escovar os dentes, quando chegava no trabalho, e assim prosseguia durante todo o dia.

Sem dúvida a pressão por pageviews pode ser estressante, como mostrou esta pesquisa de Caitlin Petre em 2015. Mas a visão pessimista de Foer (ou realista, para alguns) foi duramente criticada por Chris Moran, editor de Projetos Estratégicos do The Guardian. Moran foi durante sete anos o editor de Audiência do jornal britânico, e um dos responsáveis pela criação da Ophan, ferramenta pioneira desenvolvida por e para um veículo jornalístico.

No artigo “‘Raining clicks’: why we need better thinking on technology, data and journalism” (“‘Chuva de cliques’: por que precisamos pensar melhor sobre tecnologia, dados e jornalismo”), Moran rebate vários pontos da argumentação de Foer. Ele começa dizendo que passou os últimos anos trabalhando no uso de dados sobre a audiência em redações e nas ferramentas e cultura necessárias para fazer disso uma força para o bem. Por isso, segundo ele, ler o artigo de Foer foi “uma experiência bizarra”. E prossegue:

“Olhar para as visualizações de página não significa necessariamente que você só se importa com matérias que têm números em milhões. Isso também deveria levá-lo a perceber que, enquanto tópicos populares têm um potencial mais amplo de audiência (assim como eles sempre têm em qualquer meio), sua matéria long-form sobre o Turquemenistão foi lida em sua totalidade por 30 mil pessoas. Isso deveria levá-lo a detectar que você ainda nem promoveu adequadamente esse conteúdo e que ainda mais pessoas podem se engajar com algo com o qual você está incrivelmente orgulhoso. Imagine isso. Imagine um mundo em que olhar para as visualizações de páginas não apenas o leva a escrever sobre gatinhos e renegar completamente suas ambições e crenças editoriais. Imagine um mundo em que você use dados para colocar seu excelente jornalismo para um público mais amplo. Franklin Foer, aparentemente, nunca tentou”.

Viram que o debate é bom, né? Eu tendo a concordar com a visão otimista de Chris Moran, até porque pude ver de perto o trabalho que ele desenvolve no Guardian. Para vocês terem uma ideia, só a equipe de Audiência deles têm mais de 20 jornalistas, divididos nas subeditorias de Alcance e Otimização, Moderação, Produção em Rede, Comunidades e Mídias Sociais e Novos Formatos. É o mundo dos sonhos para quem, como eu, acredita que o grande potencial do jornalismo online está no relacionamento com a audiência. Esse é, inclusive, o assunto de nosso próximo tópico.

Pequenas inovações no relacionamento com a audiência

Estabelecer uma conversa com o leitor nem sempre é fácil. Estamos falando de um campo de tensão no jornalismo, que historicamente tem variações e extremos, desde a arrogância do conhecimento absoluto do jornalista até a utilização de informações da audiência sem checagem e apuração. Por isso, vale a pena observarmos o que os veículos têm feito nesse sentido.

  • A página no Facebook do jornal alemão Die Welt tem respondido seus leitores como um amigo – com gifs, brincadeiras e fatos. Neste artigo publicado no Nieman Lab, Niddal Salah-Eldin, editora de Social Media, afirma que “a habilidade de reconhecer uma marca é algo muito importante hoje. Nós não queremos que as pessoas digam ‘eu li isso no Facebook’”. Segundo ela, as pessoas buscam por uma comunidade. “Às vezes eles querem apenas estabelecer uma pequena conversa conosco”.
     
  • O Guardian tem utilizado, de forma muito interessante, o stories do Instagram. Toda sexta-feira, eles fazem uma espécie de quiz sobre as notícias da semana, perguntando à audiência se são verdadeiras ou falsas. Um ótimo serviço em tempos de fake news e desinformação.
     
  • Os grupos do Facebook ainda são pouco utilizados pelos veículos jornalísticos, e por isso o BuzzFeed Brasil tem se destacado. Com mais de 5.700 membros, o “BuzzFeed Brasil – o grupo” é um espaço de entretenimento, que tem desde conversas sobre memes, comidas, até perguntas como “qual é um defeito seu que você reconhece que tem e quer melhorar?”. Percebo que muitos dos posts são criados pelos jornalistas do veículo, que acabam funcionando como incentivadores dessas conversas.
     
  • O eclipse solar dessa semana foi bastante midiatizado, com destaque para o live no Facebook da Nasa, assistido por mais de 30 milhões de pessoas. Mas um outro live – mais simples e até ‘caseiro’ – chamou minha atenção por ter sido feito por um jornalista que utiliza muito bem seu perfil pessoal no Facebook nessa conversa com a audiência. Nicholas Kristof, colunista veterano do New York Times, transmitiu ao vivo o eclipse direto do capitólio estadual de Oregon. Além de entrevistar a governadora Kate Brown, Kristof falou com muitas crianças, que esbajaram fofura em seus depoimentos. O live de Kristof foi compartilhado na página do New York Times e teve mais de 332 mil visualizações. No final do vídeo, que foi gravado por sua esposa, ele brincou: “ainda bem que o mundo não acabou enquanto eu estava fazendo esse Facebook live!”.
     
  • Por aqui, o Snapchat parece ter perdido força, mas a CNN está investindo na plataforma para atingir a audiência jovem. Este link da Adweek conta que o “The Update”, programa de notícias diário, chega para concorrer com o “Stay Tuned”, da NBC. Segundo Samantha Barry, produtora executiva para mídias sociais e emergentes, os jovens querem estar atualizados sobre as notícias. “Então nós estamos oferecendo isso, falando a língua deles e entregando um vídeo bonito, vertical e amigável para mobile”, disse ela à Adweek.
     
  • Para começar a série de seis documentários “Fronteiras”, Johnny Harris, vídeo-repórter da Vox, colheu mais de 6 mil sugestões de leitores e com base nelas escolheu os destinos. Em sua página no Facebook, as pessoas participam do processo de reportagem, indicando fontes e dando sugestões de lugares.
     
  • Um simples questionário publicado no site da ProPublica recebeu mais de 2.500 contribuições somente na primeira semana e mudou os rumos da série de reportagens sobre morte de mulheres no parto. Nessa entrevista, a repórter Adriana Gallardo explica a estratégia de engajamento e afirma que a utilização do formulário foi perfeita num cenário de falta de dados atualizados sobre quem estava morrendo, onde e quais as causas.

Desafio de cobrir ataques terroristas

Semana passada indicamos aqui no Farol um texto que critica a cobertura do terrorismo por ser especulativa, ofegante e superficial. Em que pesem essas limitações, é inegável que cobrir um ataque terrorista tem exigido um esforço enorme das redações, por sua frequência e complexidade. Nesse sentido, algumas iniciativas lançam luz nesses momentos de tensão, como esse guia visual do Guardian, com mapas e fotos do atentado em Barcelona, ocorrido no último dia 17.

Para cobrir esse tipo de acontecimento, as redações têm utilizado cada vez mais o liveblog, que se consolida como recurso narrativo em coberturas de última hora. No atentado de Barcelona, G1, Estadão, BBC e El País fizeram a cobertura minuto a minuto, só para citar alguns. Além de dinâmico, o liveblog integra muito bem os posts de redes sociais (principalmente Twitter e Instagram), recursos audiovisuais e deixa claro para o leitor o momento em que cada nova informação é inserida, o que confere maior visibilidade para possíveis erros cometidos.  

Coisas rápidas:

  • Um ano após o fim do Gawker, criticado por ser extremamente guiado pelas métricas e elogiado por ser um site independente, o professor Michael J. Socolow, da Universidade do Maine, escreveu, no Washington Post:

“Gawker pode ter sido imprudente e, em última análise, autodestrutivo, mas também foi, acima de tudo, corajoso. Com o retrospecto da ascendência de Donald Trump para a presidência, todos devemos reconhecer que coragem na mídia é necessária agora mais do que nunca. (…) Seu impacto na mídia americana continua a ser inegável”.

  • Facebook lançou Watch, uma home dedicada a vídeos (por enquanto restrita a um grupo de usuários nos EUA). De acordo com este artigo do The New York Times, a ideia é atrair as pessoas para assistir a vídeos por períodos mais longos e retornar regularmente à home. “Quando os usuários abrirem o Watch, episódios mais recentes de seus shows favoritos estarão lá esperando por eles”. Pensando na rentabilidade (tio Mark Zuckerberg faz isso muito bem), o objetivo é expandir o programa de monetização de anúncios de vídeo. De acordo com o Nieman Lab, The Atlantic, Business Insider, Quartz e Mashable estão entre os primeiros parceiros da plataforma.

Alguns links:

  • Ponto de Inflexão”, estudo feito pela SembraMedia, continua repercutindo (a edição 147 da NFJ dedicou um bom espaço a esse estudo): seus dados indicam que as mulheres estão conseguindo um papel de liderança no desenvolvimento do jornalismo digital na América Latina.

Algumas ferramentas:

  • Paul Bradshaw avisa que o app de áudio Anchor fez um poderoso acréscimo ao seu conjunto de ferramentas: a habilidade de converter clipes de áudio em vídeos prontos para mídias sociais.

  • Cinco ferramentas para mensurar a performance de uma hashtag no Instagram.

  • Adicione som a imagens 360 graus utilizando o Story Spheres.

Bom, gente, é isso! Espero que tenham gostado, eu curti muito fazer essa primeira newsletter. Escrevo ao som de ‘Caravanas’, álbum novo do Chico Buarque, vejam que luxo. Continua gênio, né?

Jornalismo: concatenações teóricas 

Bueno, Moreno assumindo de novo para dizer o seguinte: a partir desta edição, uma parte da newsletter será destinada a algumas sistematizações teóricas. Um dos meus objetivos aqui em Groningen é entender melhor a maneira como a professora Tamara Witschge, aqui da University of Groningen, e o professor Mark Deuze, da University of Amsterdam, vêm enxergando o jornalismo. A ideia é aproximar as ideias desenvolvidas por eles ao meu tema de pesquisa, o jornalismo em tempo real durante coberturas de breaking news em rede. A minha proposta para esta seção é, portanto, um livre raciocínio compartilhado cuja meta é estabelecer essa relação.

Essa ideia de ELOCUBRAÇÕES abertas no melhor estilo FREE-STYLE foi a maneira que encontrei de, primeiro, fazer anotações minimamente estruturadas das concatenações que ando pensando por aqui. E, segundo, de oferecer a vocês um pouco do conhecimento que está sendo gerado no velho continente sobre jornalismo. 
    
Embora free-style, a escrita, no entanto, não será totalmente livre. O estilo sim, será aquele que vocês conhecem, mas vou me permitir ser um pouco mais formal na hora de fazer referência ao que foi escrito por outras pessoas. Então, digamos que o tom desta seção vai ser uma mistura entre a proposta conversacional da NFJ e a linguagem acadêmica. Ou seja, vou estar aqui, falando sobre alguma ideia e tals, eis que de repente aparece uma aspa com uma citação com ano e página.

Mais ou menos assim.
    
Pois bem, vamos lá. Inicialmente, vou trabalhar dois artigos publicado por Deuze e Witschge que resumem suas ideias. Ambos foram inclusive traduzidos para o português e publicados em revistas aí do Brasil. Estou falando do Além do jornalismo, publicado na Leituras do Jornalismo, em 2015, e do O que o jornalismo está se tornando, publicado na Parágrafo, em 2016. Como eu disse, o cerne das ideias, das propostas e dos esforços recentes de pesquisa dos dois pesquisadores estão nesses dois trabalhos. Podemos considerar um como a continuação do outro. Não à toa, os dois, em determinados trechos, são muito parecidos. Mas o que dizem os dois trabalhos? É isso que vamos começar a ver nesta edição da NFJ. Sim, vou fazer essa CONCATENAÇÃO aos poucos, sempre no fim de cada newsletter. Assim vocês conseguem acompanhar meu raciocínio edição a edição sem cansar (muito).

Certo? Então bora.

Em Além do jornalismo, Deuze e Witschge apresentam um argumento forte. O conhecimento gerado historicamente pelo e para o jornalismo, aquele condensado em manuais e em disciplinas acadêmicas, é uma “falácia” (DEUZE; WITSCHGE, 2015). Eles argumentam que o jornalismo, quando vai para o mundo real, é outro. Por isso, sugerem que, conceitualmente, o jornalismo deveria ser apoiar-se em uma “antologia do tornar-se”, ao invés de apostar no “sonho modernista de coerência e consenso” (2015, p. 2). 

Deuze e Witschge apoiam-se em um artigo de Robert Chia publicado em 1995 na Organization Studies, uma revista dedicada, obviamente e a grosso modo, à forma como as coisas são organizadas. No resumo do artigo, Chia diz que, ao contrário do pensamento moderno, que está fortemente baseado na ontologia “forte” do ser (1995, p. 1), o pensamento pós-moderno “privilegia uma ontologia ‘fraca’ do tornar-se que enfatiza uma realidade transitória, efêmera e emergente” (1995, p. 1). Encarar as coisas de maneira pós-moderna, diz Chia, “implica consequências radicais para repensar os estudos organizacionais”. É isso que Deuze e Witschge estão propondo para o jornalismo.

Antes de seguirmos com as ideias dos holandeses, permitam-me um parêntese. Naturalmente, essa abordagem em relação ao jornalismo não é nova. Recentemente, em 2015, Alex Primo e Gabriela Zago publicaram um artigo sugerindo uma abordagem aos estudos do jornalismo a partir da perspectiva da Teoria Ator-Rede. Em determinado momento do texto, eles afirmam que “nada é jornalismo per se. Jornalismo acontece. Jornalismo se torna” (PRIMO; ZAGO, 2015, p. 42). Poderíamos ir ainda mais atrás no tempo. Em um artigo apresentado na Intercom de 1997, Marcelo J. A. Lopes escreveu que, por ser filho da modernidade e sua lógica de organização e estabilização, quando emerge um ambiente mais focado na mediação do que na transmissão, os estudos sobre jornalismo se veem “presos às etapas de produção jornalística do que à significação social da mesma” (LOPES, 1997, p. 5), o jornalismo se vê enclausurado “em um espaço próprio e fechado ao espaço público ao qual deveria servir” (LOPES, 1997, p. 5). Na sequência do artigo, Lopes sugere como o jornalismo poderia, epistemologicamente, sair dessa enrascada.

Vinte anos depois, pelo jeito, seguimos na mesma. Voltemos a Deuze e Witschge. Antes de propor qualquer coisa, o que a dupla de pesquisadores faz nesses dois artigos é nos mostrar de que maneira, na opinião deles, seguimos sentados em uma falácia modernista de profissão. Sua argumentação é construída, em geral, de maneira comparativa. Para cada ponto desenvolvido, primeiro apresentam como o jornalismo diz ser. Depois, contra-argumentam mostrando como o jornalismo é (ao menos neste momento). 

No artigo Além do jornalismo, isso é feito em quatro movimentos. Primeiro, questionam a ideologia ocupacional do jornalismo, “em particular as expectativas normativas daquilo que o jornalismo deveria ser e fazer de acordo com as concepções dominantes da profissão” (DEUZE; WITSCHGE, 2015, p. 3). Segundo, questionam a centralidade epistemológica da redação com uma entidade “sólida e coerente” (2015, p.3)  do jornalismo, e propõe sua desestabilização. Terceiro, a partir de uma redação desestabilizada, procuram entender “o papel do indivíduo profissional de mídia para além do limitado entendimento econômico que o coloca como um empreendedor” (2015, p. 3). Por último, questionam a maneira como o jornalismo é ensinado – que ignora a complexidade e o caráter de fluxo do campo (p. 3). 

Não vou desenvolver os argumentos do artigo Além do jornalismo agora. Vou optar por apresentar os tópicos do segundo artigo, O que o jornalismo está se tornando. Assim, podemos ir explorando os dois artigos ao mesmo tempo, indo e voltando de um para outro à medida que vamos em frente, evoluindo na construção do raciocínio de forma espiral.

Bem, n’O que o jornalismo está se tornando, Deuze e Witschge partem do diagnóstico esboçado por eles e por outros trabalhos seminais, como o emblemático Relatório Jornalismo Pós-industrial (ANDERSON; BELL; SHIRKY, 2013), para argumentar que

necessitamos de suas perspectivas [dos jornalistas] particularmente pessoais para repensar o jornalismo como um conjunto de pessoas comprometidas com “atos de jornalismo” (Stearns, 2013) para além de processos de “rotinizar o inesperado” (Tuchman, 1973) nas pequenas e grandes instituições midiáticas (DEUZE; WITSCHGE, 2016).

O objetivo deles é contribuir para a construção de uma base de pensamento que vá além das “noções muito estáveis e sólidas do que o jornalismo é”, embora admitam que muito já tenha sido feito a respeito. No artigo, eles sustentam a argumentação a partir de uma discussão inicial sobre quatro tendências. São elas (DEUZE; WITSCHGE, p 4):

  • Reorganização dos ambientes de trabalho;
  • Fragmentação das redações;
  • Emergência de uma sociedade redacional; e
  • Ubiquidade das tecnologias midiáticas.

Ok, vou parar por aqui. Na semana que vem a gente segue explorando os dois artigos a partir desses quatro pontos. Beleza? Gostaram? Espero que sim. Esperamos também, eu a Marcela e a Lívia, que vocês tenham curtido este novo formato. 🙂

Era isso por hoje, moçada!
Bom final de semana e até sexta que vem.
Moreno Osório e Lívia Vieira.

Pra registro: as referências citadas no texto:

ANDERSON, C. W.; BELL , E.; SHIRKY, C. Post Industrial Journalism: adapting to the present, 2012.

CHIA, R. From modern to postmodern organizational analysis. Organization Studies 16(4), 579-604, 1995.

DEUZE, Mark; WITSCHGE, Tamara. Além do Jornalismo. Leituras do Jornalismo. Volume 2, número 4, p. 1-31. 2015.

DEUZE, Mark; WITSCHGE, Tamara. O que o jornalismo está se tornando. Revista Parágrafo. Volume 4, número 2, p. 6-21. 2016.

LOPES, Marcelo J. A. Epistemologia do jornalismo litigioso. XX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Intercom. 1997.

PRIMO, Alex; ZAGO, Gabriela. Who And What Do Journalism? An Actor-Network perspective. Digital Journalism, v. 3 n.1, p. 38-52, 2015.

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