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NFJ#164 (17/11/2017)

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Caros amigos, Marcela abrindo a newsletter de hoje desde Portugal 🙂

Estamos aqui para participar do XV Congresso Ibercom e comer uns pasteis de Belém – não necessariamente nessa ordem. Não dá pra perder um dos poucos eventos acadêmicos em que se discute em português, conforme destacou-se na abertura do evento. O esforço da tradução, não raro, restringe nossa capacidade de articulação – sensação que temos em situações cotidianas, imaginem em discussões mais complexas.

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Índice

Hoje à tarde, apresentei um trabalho sobre uma experiência em sala de aula: a aplicação da metodologia de Aprendizagem Baseada em Problemas em uma turma de Introdução ao Jornalismo. Mas não vou me estender sobre esse tema, quero mesmo contar um pouco dos paineis que vi até agora. 
Na edição de hoje, temos ainda a participação especial do amigo Alexandre de Santi, sócio da Fronteira, que esteve no Festival 3i no Rio de Janeiro e gentilmente compartilha conosco suas impressões. Na sequência, a Lívia traz alguns tópicos da semana, como de costume. Bora lá!

Os antídotos de que precisamos

Com o inevitável tema central Comunicação, Diversidade e Tolerância, o Ibercom de 2017 contemplou, nos seus dois primeiros dias, boa parte das reflexões que temos aqui na NFJ. Os painelistas a que assisti resumiram muito bem a complexidade da comunicação atual, essa comunicação em rede, presa a algortimos que desconhecemos, imersa em sociedades cada vez mais polarizadas ideologicamente, de instituições enfraquecidas e onde o medo do outro abre terreno para populismos. Um cenário um tanto sombrio para o qual foram apontados caminhos que passam basicamente pela educação.

Na conferência de abertura, Isabel Ferin destacou a importância da alfabetização para a mídia e para as tecnologias, não para que viremos todos programadores, mas para que nós, jornalistas, entendamos das suas possibilidades e possamos procuramos alternativas para novos problemas. Além disso, a professora da Universidade de Coimbra defende que a comunicação volte a ser interpessoal, centrada na pessoa – só não houve tempo para desenvolver como seria esse retorno a uma comunicação não técnica, algo que parece impossível num mundo em que há cada vez mais mediação…

No painel de hoje de manhã, Muniz Sodré (UFRJ), depois de recuperar a história do Brasil em cerca de 30 minutos, mostrando como ainda somos a herança de uma nação escravagista e patrimonialista, insistiu que o antídoto de que precisamos para combater os populismos está na educação. Provocado por uma pergunta da plateia, citou ainda a importância do fortalecimento das instituições populares e das comunidades. 

Um último questionamento do público, de um pesquisador brasileiro que atualmente vive na Finlândia, me fez deixar o auditório cabisbaixa. Basicamente ele disse: como valer-se da educação para combater esse cenário se a educação vem sendo questionada por essas mesmas forças populistas, especialmente no Brasil? 

Alguém aí tem alguma ideia? 

Agora fiquem com o texto do Alexandre de Santi.

Reflexões sobre o Festival 3i

Por Alexandre de Santi

Os leitores do Farol provavelmente estão ligados que o Rio de Janeiro recebeu a primeira edição do Festival 3i no último final de semana. Quem perdeu pode ler um belo resumo feito pela Agência Pública. E a newsletter do Brio apontou na quinta-feira alguns destaques certeiros. Se você não pôde ir e quer mergulhar no evento, ainda pode ver as transmissões ao vivo, que estão disponíveis na fanpage do evento. Em breve, haverá vídeos legendados das mesas.

Quem ignorava o festival por completo, um resumo: oito iniciativas inovadoras de jornalismo no Brasil ganharam o apoio do Google News Lab para criar um evento “inovador, inspirador e independente” (3i, sacou?) de troca de experiências e foco nos desafios de quem está empenhado em construir o jornalismo do futuro – e não salvar o jornalismo do passado.

Para mim, o festival teve uma importância que vai além das boas discussões que ocorreram no palco. Ele sinaliza que o jornalismo independente brasileiro atingiu uma massa crítica respeitável. Finalmente. A criação do 3i mostra que as organizações independentes chegaram a um patamar de maturidade no qual podem se dar o luxo de pensar em coisas que vão além da sobrevivência (preocupação número 1 de qualquer empreendedor do setor). Estão podendo investir, nem que seja apenas o próprio tempo, em temas como colaboração e inovação.

Se o evento tivesse sido mal organizado (não foi) e as mesas tivessem sido ruins (não foram), ainda assim teria sido uma experiência necessária. Ao longo do final de semana, apenas um representante da mídia tradicional pisou no palco (a Ana Estela de Souza Pinto, da Folha de São Paulo), o que é um contraste gigante diante dos outros bons eventos jornalísticos do Brasil, como o Congresso da Abraji e o Festival Piauí (que geralmente abrem espaços generosos para os veículos consolidados).

A diferença foi clara: se perdeu pouco tempo rediscutindo dilemas caros aos jornalões, como o enxugamento das equipes, independência, reversão da receita e perda de prestígio. São temas importantes, é claro. Mas já existem espaços para esses debates, que costumam ofuscar outras discussões. Ainda não havia no Brasil um ambiente onde o foco de debate fosse as angústias dos novos empreendimentos. Só por isso o 3i se tornou uma iniciativa necessária. Espero que tenha vida longa e torço para que consiga se consolidar como um canal de debate que não dependa apenas de um evento anual. E faço uma sugestão: que tal descentralizar a iniciativa, promovendo discussões satélites no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul?

Dito isso, como ótimos resumos já circularam por aí, deixarei algumas pílulas aqui de coisas que me chamaram atenção:

  • Carla Jimenez, do El País, disse que São Paulo é a terceira cidade que mais lê o El País no mundo, depois de Madrid e Barcelona. O site brasileiro já superou México.
  • Que Chicas Poderosas é uma das organizações mais legais dos novos tempos, isso não é novidade. Mas ouvir a fundadora, a Mariana Santos, nos mostra o porquê: ela emana muita fibra e carisma. Fez uma convocação certeira no seu peculiar sotaque portugringo: “a gente não tem mais nada a perder, porra”.
  • O Jota contratou uma pessoa em Washington para vender serviços do site para os gringos. A Laura Diniz não deu mais detalhes, mas é um movimento ousado.
  • O Lightning Talks América Latina foi provavelmente o segmento mais empolgante do festival. Os seis empreendimentos apresentados são muito interessantes. Vale conhecer. Esse link vai direto para a transmissão ao vivo na fanpage do evento.
  • O excelente El Faro, de El Salvador, tem uma seção dedicada a entender a violência urbana por lá, a Sala Negra. Devia servir de inspiração para o Brasil, campeão mundial de mortes violentas.
  • O Convoca, do Peru, mantém um site de investigações sobre a Lava Jato em outros países, feito em colaboração com jornalistas de todo o continente (colaboração entre veículos = <3)
  • Martín Pellecer, do Nómada (Guatemala), tocou num ponto fundamental: o jornalismo precisa ser cool. O Nómada parece ser um dos empreendimentos mais autênticos do continente. Vale acompanhar.
  • A Cláudia Gurfinkel, do Facebook, confirmou que a plataforma vem reduzindo o alcance de sites brasileiros de notícias enganosas que aparentemente usam do expediente para fins comerciais (a Folha Política foi um exemplo citado).
  • Facebook e Google negaram, pela enésima vez, serem empresas de mídia. Mas se mostram preocupados com a qualidade do conteúdo que circula lá. Não é uma contradição? A moral da eterna discussão é entender, afinal, se as plataformas têm alguma responsabilidade sobre o conteúdo. Se mostram preocupação, talvez seja sinal que reconheçam que possuem pelo menos alguma responsabilidade. Alguém precisa inventar uma nova expressão para definir a relação  dessas empresas com o conteúdo (plataformas de mídia?).
  • A Sembramedia tem um estudo com vários insights interessantes sobre a sustentabilidade dos meios digitais.
  • Com o título “Pablo Vittar – Travesti apresentara (sic) programa infantil a convite da Globo – Pablo Kids”, essa fake news foi uma das que mais circularam no país no último mês – e bateu recordes de cara de pau. Descoberta do ótimo Pablo Ortellado do Monitor do debate político no meio digital.
  • Todo mundo usa Slack.
  • Foi comovente a apresentação do jovem Kaique Dalapola, da Ponte, sobre a cobertura da prisão injusta de um ambulante acusado de roubo. “Quero continuar nas quebradas, esse é o jornalismo de impacto que acredito”. Segue firme na labuta, Kaique.
  • A mesa sobre as fronteiras entre jornalismo, advocacy e ativismo foi a mais polêmica. Um lado, com apoio da jovem plateia, pendeu para a tese de que jornalistas precisam assumir um lado. No outro polo, o solitário Pedro Doria defendeu o equilíbrio e preservação dos ideais tradicionais de isenção no jornalismo. Acho que, no fim, entraram em uma falsa dicotomia. Para Doria, o jornalista precisa ouvir todos os lados. E os ativistas diziam que davam voz a quem é esquecido pelo poder. Me soou como uma forma de dizer que… escutam todos os lados, inclusive o mais fraco (frequentemente esquecido pela mídia tradicional). Link da transmissão.
  • Um apelo à colaboração de Claire Wardle, do First Draft: “Não deviam ter 37 jornalistas em 37 veículos fazendo as mesmas coisas”. Não é óbvio?

Mais links sobre o 3i

Oi, gente! Agora é a Lívia falando.
Além dos links que o Alexandre citou, indico:

Vamos à seleção de assuntos da semana?

Crítica à política de mídias sociais do NYT

Na NFJ #160 falamos sobre o guia de conduta do Times para jornalistas nas redes sociais, lembram? Pois bem, esta semana o professor Jay Rosen fez críticas ao documento no artigo “Preço de acesso à Casa Branca de Trump: o estranho caso da política de mídias sociais do Times”.

A partir de um caso específico – a saída do repórter Glenn Thrush do Twitter, após postar uma crítica a Trump -, Rosen estrutura sua argumentação em torno da falsa neutralidade do Times. “Qualquer semelhança com uma opinião política deve ser esmagada, para que a aparência de neutralidade e equilíbrio sejam preservados a todo custo”, diz a política do jornal norte-americano.

O professor destaca trechos da política, como o que traz o depoimento de Peter Baker, correspondente veterano da Casa Branca que, segundo Rosen, não é exatamente conhecido por sua destreza nas redes sociais e tem três vezes menos seguidores que Thrush. Baker chama atenção para o fato de que a Casa Branca leva em conta todos os tweets postados pelos repórteres do Times, mesmo aqueles que não cobrem política.

Rosen reproduz algumas reações de jornalistas de outras empresas ao documento do Times:

Nick Baumann, editor no Huffington Post, disse: ‘As novas regras de mídias sociais do The New York Times, assim como muitas de suas políticas, começam com a ideia de que é importante esconder de seus leitores as verdadeiras visões dos repórteres. Como um assinante fiel, eu gostaria de saber mais, não menos, sobre as visões e inclinações dos repórteres que leio’.

Por tudo isso, o professor afirma que o Times foi sua primeira leitura durante 30 anos, mas que agora perdeu lugar para o The Washington Post. Segundo ele, o Times está ficando atrás de seu rival de longa data porque está reagindo mais pelo medo da crítica do que pela força do insight. E prossegue:

Quando se trata de redes sociais, Dean Baquet escolheu inexplicavelmente um caminho diferente. Sua visão: a redação deve ser disciplinada e guiada, não pelo que é verdade ou verificável como fato, não pelo que os jornalistas do Times acreditam, mas pelas coisas que os críticos hostis podem dizer quando descobrem um tweet que está reverberando. Esta decisão é um desastre, não porque o direito de se comprometer seja vital para sua preservação (não é …), mas porque o Times, para ser bom, tem que ser bom em todas as plataformas, e isso não vai acontecer se a política de mídias sociais se baseia no gerenciamento de impressões e evasão de conflitos, em vez lidar com a verdade, nivelando com os leitores e com a magia da voz humana.

Para Rosen, Dean Baquet não notou que, se a percepção de críticas pode editar as ações de seus funcionários, ele se entregou ao poder dos inimigos do Times. “Isso faz parte de um problema maior no jornalismo convencional, que é incapaz de pensar politicamente, porque é constantemente acusado de atuar politicamente por críticos hiperpartidaristas vendendo ideias fixas”. Lá como aqui, né?

Por fim, Rosen acha muito mais provável que, nos próximos anos, a confiança no jornalismo profissional seja conquistada através de uma combinação criativa de “aqui é de onde estamos vindo”, padrões de verificação muito altos, “mostre-nos seu trabalho” e “o que perdemos?”. Segundo ele, produzir confiança nesses termos é tratar as mídias sociais não como uma ameaça à aparência de neutralidade, mas como “uma habilidade vital que os principais jornalistas têm de dominar para sustentar a nave-mãe”.

Coisas rápidas

  • Knight Center comemora cinco anos de MOOCs, seu programa de cursos online para jornalistas.
  • Vejam como o site da BBC mudou nos últimos 20 anos.
  • Katharine Viner, editora-chefe do The Guardian, falou sobre “uma missão para o jornalismo em um tempo de crise”. Segundo ela, o jornal seguirá cinco princípios: “desenvolveremos ideias que ajudem a melhorar o mundo, não apenas a criticar; vamos colaborar com os leitores para ter maior impacto; vamos diversificar, ter reportagens mais ricas de uma redação representativa; seremos significativos em todo o nosso trabalho; e, apoiando tudo isso, informaremos de maneira justa sobre as pessoas, assim como o sobre poder”.
  • José Hamilton Ribeiro diz que o jornalismo passa por sua pior crise. Segundo esta matéria da Folha, “o veterano critica especialmente a diminuição de grandes reportagens – que, ressalta, não são reportagens grandes – e a mudança das coberturas de guerra, antes in loco, hoje à distância e baseada em fontes oficiais”.
  • João Duarte, da SOMOS Educação, defende neste texto do Hackernoon que, embora possa causar prejuízos, a inteligência artificial pode também respeitar os valores culturais da sociedade e aumentar a inclusão na educação. Além disso, ela está nos forçando a repensar princípios morais e éticos.
  • este artigo publicado no Poynter alerta para o fato de que “plataformas [como Google e Facebook] dependem dos algoritmos para executar ações em escala, mas os algoritmos em escala também se tornam cada vez mais inescrutáveis, mesmo para as pessoas que escreveram o código”.
  • Tim Berners-Lee se diz ainda um otimista, mas está preocupado. “O sistema está falhando. A forma como a receita de anúncios funciona com os clickbaits não está cumprindo o objetivo de ajudar a humanidade a promover a verdade e a democracia”, diz o criador da internet ao The Guardian.

Ferramentas

Gente, Marcela retomando só para fechar mais uma edição da NFJ.
Bom final de semana e até sexta que vem!
Marcela Donini e Lívia Vieira (e Alexandre de Santi)

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