NFJ#176 O debate público após a morte de Marielle; educação contra desinformação; o fact-checking avança; Comissão Europeia abandona o termo fake news









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NFJ#176 (16/03/2018)

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Caros amigos, que semana triste.
Escrevo esta newsletter soterrada por links a respeito da execução da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro, tentando acompanhar a repercussão do caso. No final desta edição, falo um pouco sobre o papel do jornalismo no debate público que se segue nas redes depois de acontecimentos como esse.

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Antes de passar a bola para o Moreno, quero fazer um comentário sobre a NFJ da semana passada, quando indiquei o texto de Farhad Manjoo sobre sua experiência de se desligar um pouco das redes sociais e se informar prioritariamente por jornais impressos.

Na sexta mesmo saiu um texto na CJR (que eu só vi depois de enviar a newsletter) dizendo que, NA REAL, o colunista do Times não só não se desligou como tuitou pra caramba no período da sua experiência. E relembrando outros textos e manifestações questionáveis do autor. Oops!

Pra gente não se estender tanto nessa treta, em resumo, Dan Mitchel falou com Manjoo. Ele se defendeu das acusações dizendo não ter mentido porque não chegou a afirmar que abandonou o Twitter, apenas passou a se informar prioritariamente por jornais impressos. Mas Mitchell revela tweets dele sobre notícias.

Enfim, não acho que seja o caso debater se ele agiu de má fé ou se, como o próprio Mitchell sugere, seu uso das mídias sociais afetou sua autopercepção. Mesmo que sua experiência seja invalidada, reafirmo o alerta pra que a gente repense nossa relação com a tecnologia na hora de consumir informação.

Vamos ao que interessa. Moreno inicia os trabalhos.

Índice

Educação contra desinformação: saber o que se passa pelo texto 

Já dizia Jesús Martín Barbero:

“[…] o gênero não é algo que se passa no texto, mas algo que passa pelo texto. […] O gênero não é só uma estratégia de produção, de escritura, é tanto ou mais uma estratégia de leitura. Enquanto as pessoas não encontram a chave do gênero, não entendem o que está se passando na história

Uma rodada de links sobre a educação para a mídia (em resposta à desinformação) e pela capacitação para a compreensão do gênero jornalístico. No fim de abril vai rolar em São Paulo o Mediathon Educação Para a Informação. A iniciativa é uma parceria entre MidiaMakers e Chicas Poderosas cujo objetivo é capacitar “professores da educação básica para encorajar o letramento midiático de jovens”.

Rasmus Kleis Nielsen, diretor de pesquisa do Reuters Institute for the Study of Journalism e um dos autores do relatório da Comissão Europeia (CE) sobre desinformação, publicado nesta semana: é necessário “pensar estrategicamente a sobre como a educação para a mídia é implementada na Europa … com métodos claros de avaliação e comparações entre os países”, no Nieman Lab.

Seis pontos sobre o relatório da CE. O primeiro: 

“Um claro e inequívoco abandono do termo ‘fake news’, que a Comissão Europeia estava originalmente usando. Isto é importante porque ele é inadequado para explicar a complexidade da situação, e leva a uma confusão na maneira como pesquisadores discutem o assunto, como ele é abordado pela mídia e discutido por quem elabora políticas.”

Cristina De Luca destrinchou o relatório (em português). Mais do Nielsen: para lutar contra a desinformação, o melhor é apostar na cooperação, e não na regulação de conteúdos. Soft power, e não hard power. Três dicas de Jonathan Rogers, professor de jornalismo e autoridade em educação para a mídia nos EUA, após sua fala no SXSW. A primeira: “professores precisam dizer para seus alunos não se informarem por Facebook, Twitter e Google. (Em Mianmar, onde o Facebook é a principal fonte de notícias o nível de educação para a mídia é baixo, a desinformação vem se mostrando fatal em conflitos religiosos e étnicos). Uma dica de leitura: revista com melhor do jornalismo feito por estudantes de Ensino Médio nos EUA.
 

Avante, fact-checking

No Brasil, duas novas iniciativas de fact-checking tentam sair do forno. No Rio Grande do Sul, a ONG de Jornalismo e Direitos Humanos Pensamento lançou o Filtro, iniciativa que vai checar as declarações de candidatos às eleições no RS. O crowdfunding do Filtro está no catarse. No norte do país, quatro jornalistas mulheres trabalham para desenvolver a primeira agência de fact-checking da região amazônica. No Vakinha, elas buscam recursos para se deslocar até São Paulo para os encontros do New Venture Lab.

Ainda sobre fact-checking: 1) no México, 60 entidades (veículos, universidades e organizações da sociedade civil) estão se unindo em um único projeto de verificação de fatos para as próximas eleições; 2) pode a checagem de fatos ser automatizada? Apesar das tentativas recentes, a total automatização é um objetivo distante, diz estudo recente publicado no Reuters Institute. 
 

Educação, audiência e “comunidade de conhecimento”

A BBC lançou um “fake news game” voltado para estudantes: o jogador vive a experiência de estar no meio da redação durante um breaking news. Na PUCRS, o curso de jornalismo (onde sou professor) apagou as fronteiras das disciplinas do quinto semestre; os alunos trabalham integrados em um único projeto. Neste artigo, o professor Marcelo Fontoura detalha como isso está acontecendo.

Um trecho:

“Antes, cada disciplina trabalhava conteúdo de maneira isolada. Hoje, a produção é conjunta, entrelaçada. A inter-relação entre as linguagens, dessa forma, é constante, com estímulos claros para os alunos pensarem em diferentes mídias e plataformas para contarem histórias. O objetivo é permitir uma formação interdisciplinar, em que os alunos enxerguem o jornalismo como algo não contido em um formato, mas como uma prática que o transcende. Esta maneira de pensar não é novidade no mercado, mas está menos presente do que poderia na produção universitária.”

Sobre inovação no mercado (espanhol), artigo publicado na Revista Latina de Comunicación Social com entrevistas com 27 profissionais. Aqui, um resumo. Maaike Goslinga, editora internacional do De Correspondent, um dos veículos mais inovadores dos últimos tempos, sobre a participação da audiência no jornalismo:

“Os leitores sabem se você apenas declara estar se engajando com eles ao invés fazer isso de verdade. Há muitas redações que ainda abraçam essa ideia, tudo bem. […] Mas se você leva ela a sério, constrói seu processo editorial inteiro a partir dela, e não deixa apenas um ou dois repórteres trabalhando nisso. […] Isso é parte da atual crise de credibilidade do jornalismo, as pessoas não sentem estar sendo levadas a sério de verdade”.

A fala de Goslinga aconteceu na conferência newsrewired, dia 7 de março. Comunidade de conhecimento, uma forma que o jornal uruguaio la diaria encontrou para melhorar o jornalismo que eles fazem “com o conhecimento que nossos assinantes têm”. Na matéria do blog do Knight Center há outras cinco inovações desenvolvidas pelo veículo. Na capa do la diaria de hoje, duro golpe, sobre Marielle.

Agora é com a Marcela.

Quando vale a pena entrar num debate

“Discordar e se desentender é menos grave do que não dialogar. O fim do diálogo é, em si, a vitória da violência.” A frase está em um post do João Paulo Charleaux, repórter especial do Nexo Jornal. Ele compartilhava a seguinte matéria: Como falar com quem acha que Marielle merecia morrer por ‘defender bandido’. Os três especialistas em segurança pública ouvidos pelo repórter André Cabetti Fábio são unânimes em dizer que é preciso sim conversar com essas pessoas, esclarecê-las sobre o que são direitos humanos (como a tentativa do Extra) e convencê-las a partir de soluções factíveis para o problema da violência.

Alguém aí discorda?

Eu acredito que é fundamental haver esse diálogo e é papel do jornalismo promover um debate público saudável. PORÉM, fico me perguntando: esse diálogo é possível nas redes sociais? Se entendemos um perfil online como a construção da nossa identidade, se sabemos que, às pessoas, importam menos os fatos do que as crenças, vale a pena gastar tempo e energia? Vale a pena responder alguém que relativiza a execução brutal de uma mulher negra, favelada, eleita vereadora com mais de 46 mil votos? Vale a pena tentar conversar com quem cobra tratamento igual para todas as mortes e é traído pela própria hipocrisia ao esquecer que, junto de Marielle, também morreu Anderson, seu motorista? Vale a pena entrar num debate com o risco cada vez maior dessa conversa ser sequestrada por robôs e perfis falsos?

Quem acreditar que o esforço é válido deve levar em consideração o seguinte desafio, sob pena de não ser ouvido por quem pensa diferente:

“Temos que reconhecer o medo, dizer que ele é válido e compartilhado. As pessoas [que criticam os direitos humanos] estão carentes desse acolhimento, mas temos que ter um debate sério do que funciona e do que não funciona.” 

Concordo com a fala de Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz, ouvido pelo Nexo. Mas não consigo ver a viabilidade desse acolhimento nas redes. Por outro lado, se é papel do jornalismo enriquecer o debate público, como ignorar a guerra de narrativas que se dá online? O editor do The Intercept Brasil, Leandro Demori, amigo e parceiro do Farol Jornalismo, fez um desabafo no Twitter sobre o papel dos jornalistas nessa conversação em rede. Para ele, quem se abstém dessa conversa deixa os “idiotas sozinhos tomando conta do discurso público“.

“Sei porque muitos jornalistas não fazem isso: porque isso tem um custo pessoal e profissional. Você deixa de ser o jornalista purinho e isento que só pega onda boa e escreve as grandes pensatas inteligentes. E claro que vai ser (mal) falado por parte dos colegas. Dane-se.”

Ignorar declarações idiotas, como escreveu o Demori, não vai fazer com que essas pessoas desapareçam. E ele tem razão. Mas sigo me perguntando a forma mais eficaz do jornalismo combater discursos de ódio. Alguma sugestão?

Coisas rápidas

É isso, gente.
Bom final de semana e até sexta que vem.
Marcela Donini e Moreno Osório

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