NFJ#181 A eficácia do fact-checking em xeque; a relação entre privacidade e democracia; anotações sobre elitismo e diversidade









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NFJ#181 (27/04/2018)

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Boa noite, amigos! Mais uma NFJ que chega na caixa de emails de você depois do sol se por. Mas beleza, vocês têm todo o fim de semana para lê-la 😉 Antes de entrarmos nos temas desta edição, eu, Marcela, preciso pedir desculpas por um erro feio que cometi na news da semana passada. Ao recomendar leituras sobre a cobertura do ISOJ2018, acabei inserindo um link referente a uma edição antiga do evento. Era um link do Nieman Lab. Desconsiderem, portanto, e perdoem minha desatenção.

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Vamos ao que interessa! Eu abro a edição de hoje trazendo reflexões que ainda repercutem o caso da Cambridge Analytica e textos sobre fact-checking. Moreno fecha falando sobre diversidade e empatia nas redações.

Índice

Se a privacidade está morta, a democracia está morta

Foi ao ar o primeiro episódio do Caixa Preta, podcast do Volt Data Lab. Conduzido pelo jornalista Sérgio Spagnuolo, o programa se propõe a discutir os efeitos do escândalo da Cambridge Analytica na vida cotidiana e recebe dois convidados, Mariana Valente e Chico Brito. Ambos são diretores do Internet Lab, centro sem fins lucrativos dedicado a pesquisar temas relacionados a direitos humanos e internet, e também parceiro do podcast.

Foram muitas as repercussões sobre o caso desde as revelações de Christopher Wylie ao Observer há pouco mais de um mês, mas acho que o Caixa Preta, em 43 minutos, conseguiu acrescentar reflexões importantes sobre o tema. E com especialistas brasileiros, o que sempre é bom valorizar 🙂

Ao falar sobre privacidade, Mariana e Chico alertam para os problemas da manipulação direcionada, que coleta informações nossas e nos envia conteúdos personalizados. A questão não é demonizar a coleta de dados pessoais, que pode oferecer comodidades aos usuários. O problema começa quando falta transparência sobre o uso dessas informações e se tira o controle sobre esses dados das mãos dos cidadãos.

Se, por um lado, o uso dessas informações pode nos oferecer publicidade ou serviços públicos personalizados, por outro, pode reforçar preconceitos e estereótipos e manipular emoções. Chico ressalta que o tema deveria importar a todos porque, em última instância, estamos falando de proteção à democracia. “Se você perde essa proteção, perde a oportunidade de proteger a autonomia que as pessoas têm de tomar decisões políticas. Se admitimos que a privacidade está morta, a democracia está morta também.”

Reduzir à questão ao fato de que o usuário do Facebook consente o uso de seus dados ao concordar com os termos de uso é simplista, diz Mariana. Do ponto de vista jurídico, a rigor, quem não concorda com as políticas pode simplesmente sair das plataformas, claro. Mas qual o custo de não estar nesses espaços hoje, questiona a diretora do Internet Lab. Ela e Chico lembram que, em alguns países, o Facebook é o único acesso possível à internet. E mais: há franquias de dados que vendem acesso ilimitado apenas pelas redes sociais. Ou seja, temos é que discutir essas políticas de uso de forma mais responsável.

Os entrevistados ainda ressaltam que o problema de proteção a dados pessoais não se resume ao Facebook. O caso é extremamente relevante porque é lá que se dá grande parte do debate político e é lá que estão os dados de mais de 2 bilhões de usuários. Mas empresas do setor bancário, de saúde ou de varejo também coletam nossas informações. O problema, diz Mariana, é do modelo de negócio da internet. E “consertar” apenas o Facebook não nos levará à resolução da questão.

Destaquei esses pontos relacionados à privacidade, mas vale a pena ouvir todo o episódio, que fala ainda sobre marketing político e outras questões jurídicas referentes à coleta de dados. Vida longa ao Caixa Preta!
 

Como se defender de robôs que espalham boatos

Joan Donovan, pesquisadora do Data & Society, identificou 4 táticas usadas por trolls para espalhar desinformação e enganar jornalistas. Conhecê-las é o primeiro passo para tentar identificar o que é falso nas redes.

A primeira delas é tentar atrair os jornalistas para narrativas que ecoam mais facilmente em pessoas sexistas, homofóbicas, racistas etc, e, portanto, suscetíveis a repassá-las adiante. Quando a história chega aos jornalistas, já não é mais possível encontrar a fonte.

Outra: espalhar documentos falsificados como se fossem vazamentos. O texto apresenta dois exemplos referentes aos contextos dos EUA e França, mas imediatamente lembrei daquele falso mandado de prisão do Lula que estaria assinado pelo Sergio Moro, lembram?

Joan também identificou o “keyword squatting”, algo como “sequestro de palavras-chave”, numa tradução livre (“squat” é uma “ocupação ilegal”, mas acho que “sequestro” representa melhor a lógica dessa tática. Alguém aí tem uma tradução melhor?). É quando tentam “pegar carona” em uma expressão ou palavra-chave associada a movimentos progressistas, como o caso da conta Blacktivist, que se tornou uma das mais seguidas por pessoas que se identificam com o movimento Black Lives Matter, mas é falsa e está, segundo Joan, ligada a russos que tentaram inflamar as tensões raciais durante as eleições de 2016.

Batizada de “novo spam”, outra tática estudada é uma ação coordenada em redes sociais que associa posts públicos e mensagens privadas a jornalistas, como o caso do comediante Sam Hyde, apontado falsamente como o atirador de diversos casos de tiroteios em massa nos EUA. Imagino que outros formadores de opinião em potencial além de jornalistas são alvos desses trolls. Trazendo mais uma vez pra realidade brasileira, lembrei dos boatos contra a vereadora Marielle Franco publicados por pessoas notórias como uma desembargadora e um deputado federal.

E falando em mensagens privadas, um alerta de Jamie Angus, diretor do World Service Group da BBC, que, nesta reportagem, faz uma observação referente à propagação de boatos em apps como WhatsApp:

“Penso que Google, YouTube e Facebook já possuem mecanismos robustos para as fake news porque eles reconheceram a escala da ameaça. Mas me parece que os aplicativos de chat são um diferentes porque eles não veem a si próprios publicando conteúdo publicamente visível. Eles veem a si próprios como plataformas para mensagens privadas. É bem difícil retirar conteúdo dessas plataformas. A regulação ainda não dá conta dessa característica.”

Algumas das táticas identificadas por Joan também aparecem neste estudo do NYU Center for Data Science, que se dedicou a desvendar como a desinformação se espalha nas redes sociais e afeta a vida política.

A eficácia do fact-checking em xeque

Um estudo da pesquisadora Emily Thorson sugere que checar temas seria mais eficaz do que checar políticos, normalmente o alvo das iniciativas de fact-checking. Em outras palavras, o efeito de uma checagem de um discurso do Bolsonaro ou do Lula tem baixa eficácia entre seus respectivos eleitores. Quando um veículo desmascara um político, mesmo com fatos, o resultado mais comum é seu eleitor tachar o veículo de tendencioso.

Por outro lado, apesar de estudos como este de 2016 apontarem que fatos servem pouco para mudar a opinião das pessoas, Thorson demonstra, em sua pesquisa, que dar contexto aos leitores a partir de informações básicas sobre temas complexos contribui mais para informá-los e corrigir percepções equivocadas do que checar discursos de políticos.

Neste texto, ela comenta os resultados. A autora questiona o papel da imprensa em oferecer informações suficientes e de forma clara para que as pessoas estejam de fato bem informadas. O senso comum diz que, segundo Thorson, os americanos não sabem das coisas porque não se importam em saber. Será mesmo? Para ela, há algo além da falta de motivação.

“E se as pessoas querem entender as políticas públicas, mas falta-lhes tempo ou habilidades necessárias para compreender os fatos básicos sobre questões complexas? Os americanos descrevem o ambiente de notícias moderno como complicado e confuso. Sete em cada 10 dizem que a quantidade de notícias disponíveis hoje é “insuportável”, enquanto 40% relatam que as notícias sobre a economia lhes confundem.”

Porém, produzir reportagem original é caro, já produzir fake news é barato, observa Philip Napoli, professor na Duke’s Sanford School of Public Policy, autor deste artigo. No texto, Napoli questiona a crença de que a resposta para as narrativas falsas está nas narrativas verdadeiras e que, assim, “a verdade triunfará”.

“No entanto, mudanças na mídia – como consumo via mídia social, velocidade e capacidade de direcionamento de propagadores de notícias falsas e filtros-bolha, onde as pessoas só veem notícias que reforçam seus pontos de vista – significam que não podemos mais supor que notícias legítimas vencerão, diz Napoli.”

Temos uma árdua batalha pela frente…
Encerro aqui os tópicos sobre desinformação e passo a bola pro Moreno.

Anotações sobre elitismo, diversidade e empatia no jornalismo

Esses dias, em sala de aula, uma aluna falou algo mais ou menos assim: “empreender é pra elite”. Fiquei com isso na cabeça. Discutíamos este artigo da Zélia Leal Adghirni. Neste texto, a professora e pesquisadora aposentada da UnB defende que a mitologia da profissão está sucumbindo às transformações pelas quais passa o jornalismo neste começo de século 21. Não somos heróis, e sim guerrilheiros cansados, escreveu. Na mesma semana, li o pequeno editorial que abriu a penúltima edição da ótima newsletter semanal da Agência Pública (assinem). Em determinado momento, Marina Amaral, codiretora da Pública, diz o seguinte: “Para acreditar no futuro, é preciso mergulhar fundo no Brasil. É ali que estão nossos valores […]”. Da edição desta semana, cujo editorial também é de Marina, destaco o seguinte trecho: 

“A defesa intransigente dos direitos humanos é intrínseca ao jornalismo. Tirar da invisibilidade aqueles que sofrem agressões diárias, dar voz aos que estão na luta pelos seus direitos, às mulheres, aos negros, aos indígenas, é ainda hoje inovador.”

No Reino Unido, 94% dos jornalistas são brancos (conforme pesquisa de 2016). Este dado, abordado na NFJ#84, foi recuperado por este artigo, que, segundo consta, está causando polêmica no meio jornalístico britânico. É apenas um dos argumentos que sustentam a seguinte posição de Owen Jones, o autor: “jornalismo é uma das profissões mais exclusivas socialmente do Reino Unido”. Uma das consequências do elitismo é, segundo ele, o chamado groupthink, ou pensamento de grupo. Jones:

“Nosso background inevitavelmente tem impacto em como nós vemos o mundo, particularmente se nós negamos nossos próprios privilégios. Se você convive com muitas pessoas com backgrounds semelhantes […], então preconceitos e pontos de vista semelhantes tendem a reforçar uns aos outros. Haverá uma abordagem semelhante a quais assuntos são selecionados como prioridades e quais são ignorados, assim como o ângulo de abordagem.”

Nesta semana, o American Press Institute (API) publicou matérias sobre empatia no jornalismo. A iniciativa, aliás, é parte de um projeto chamado Estudos Estratégicos (Strategy Studies), guias práticos para organizações jornalísticas abordarem determinados assuntos. Como jornalistas podem ser mais empáticos ao cobrirem comunidades negligenciadas? A diversidade (de etnia, gênero, credo) é fundamental, mas a verdadeira diversidade também pode ser alcançada a partir da capacidade de entendimento, escreveu P. Kim Bui, a autora do texto. Entendimento a respeito “das perspectivas das pessoas das comunidades, deixando-as contarem suas próprias histórias”, disse Keith Woods, responsável pelo treinamento de diversidade na redação da NPR, à P. Kim Bui. Outro texto da mesma autora dá dicas sobre como criar uma cultura de redação que promova a empatia. E aqui tem dicas pontuais.

A iniciativa do API é louvável, mas, pra mim, o que mais ficou da leitura do material foi uma aspa de um artigo a respeito do quanto a falta de diversidade nas redações atrapalhou a cobertura das eleições presidenciais de 2016 nos EUA. Meredith Clark, professora da Universidade da Virgínia e autora do texto, diz o seguinte:

“Até que existam, nas redações, executivos e líderes que melhor reflitam as mudanças demográficas no nosso país – étnicas, raciais, linguísticas, sócio-econômicas – a mídia mainstream vai continuar falhando.”

No Brasil, 72% dos jornalistas são brancos e 61% obtiveram seu diploma em instituições privadas. Os dados são de 2012, mas é o que temos de mais atualizado, até onde eu sei. Mas de lá pra cá, pelo menos, quero acreditar que há mais casos como o de Yasmin Santos, estagiária negra da Piauí que mora em Nova Iguaçu, na região metropolitana da capital fluminense. Na edição de abril da revista, ela escreve sobre Marielle Franco, traçando um paralelo com sua própria trajetória. Um trecho:

“Entrei na UFRJ com o desejo de transformar o mundo. Semanas depois, tinha vontade de explodir a Escola de Comunicação, que fica na Urca, um dos bairros mais cinematográficos do Rio. Saí de minha zona de conforto para uma zona de frequente confronto. No trajeto até a faculdade, quando chegava à Zona Sul, evitava olhar pela janela do ônibus porque não me sentia pertencente àquele lugar. Não queria conhecê-lo, nem queria que ninguém dali me conhecesse. Passear no Shopping Riosul, em Botafogo, era horrível. Eu não sabia lidar com os brancos que me mediam dos pés à cabeça. De onde venho, é comum ver gente preta em todo lugar.”

Marcela de volta para começar a encerrar a edição de hoje.

Pegando o gancho do Moreno, recomendo muitíssimo a leitura da edição de abril da National Geographic, especial que investiga o conceito de raça. Além de reportagens que derrubam o conceito, tem um editorial no qual a revista faz uma espécie de mea culpa e afirma que, por décadas, foram racistas em sua cobertura, ignorando praticamente qualquer norte-americano que não fosse branco e quando retratava outras etnias, o fazia de forma estereotipada. Aqui o editorial em inglês. Em português, o título Para acabar com o racismo do passado, é preciso reconhecê-lo.

Coisas rápidas

Bom fim de semana a todos e todas!
Marcela Donini e Moreno Osório

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