Destrinchamos dois estudos de recepção (um dos EUA e outro da Alemanha) que mostram que leitores querem mais profundidade, explicação de terminologias, pluralidade de fontes e menos viés nas notícias. Com relação às seções de comentários, o público deseja que elas sejam mantidas pelos veículos, que haja moderação, envolvimento dos jornalistas, regras e participação de especialistas.

Pesquisas de recepção, cuja investigação se dá a partir do leitor, não são muito comuns no jornalismo. Por isso logo me interessei quando vi os dois estudos que serão referência para esta análise. O primeiro deles – What people want to know about the news (o que as pessoas querem saber sobre as notícias) – é resultado de um grupo de foco feito com 26 pessoas no Texas (EUA) pelo Center for Media Engagement da Universidade do Texas. O segundo, de autoria de Katherine Engelke, da Universidade de Munster, resulta de 26 entrevistas em profundidade com leitores da mídia alemã.

Assim, o que estas pesquisas descobriram sobre os leitores?

Antes de sistematizar os resultados, lembro que na NFJ #161 indicamos um estudo do Tow Center da Universidade de Columbia, que fez 13 grupos de foco em quatro cidades dos Estados Unidos, e teve como direcionamento a relação dos leitores com as plataformas sociais. Destaco duas descobertas:

  • Pessoas que acessam notícias via plataformas não pensam nelas como fontes de notícias. Ao invés disso, o contato com as notícias não é intencional, ele resulta do uso das plataformas para outros propósitos. Conveniência é a palavra-chave aqui.
  • Os participantes se mostraram culpados por não pagarem pelo jornalismo que consomem online ou via plataformas, mas muitos mencionaram estratégias para evitar paywall e outras formas de pagamento. Nesse sentido, as plataformas podem ajudar a perpetuar a ideia de que o jornalismo é ou deveria ser livre. 

Notícias: o que os leitores quem saber

Ao ler uma notícia, quais perguntas ainda ficam sem resposta para o leitor? O que eles ainda querem saber? Este foi o objetivo do estudo da Universidade do Texas, que apresentou três notícias aos 26 participantes dos grupos de foco:

  • Uma história em um jornal local sobre um acidente fatal de ônibus em que o motorista poderia ter usado drogas.
  • Uma reportagem de jornal de alcance nacional sobre a tentativa do Wells Fargo Bank de recuperar a confiança após uma série de escândalos financeiros.
  • Uma história em um jornal de alcance nacional sobre o fato de a Califórnia estar considerando o abandono da pena de morte.

A seguir, os 4 principais pedidos dos leitores:

  1. Pode aprofundar mais?

De acordo com os autores, os participantes frequentemente questionavam por que os jornalistas não se aprofundaram nas histórias. Para eles, as matérias pareciam inacabadas ou superficiais. 

“O artigo é sobre o Wells Fargo divulgando seu relatório interno e o que eles desejam que você saiba que eles estão fazendo para melhorar as coisas. Mas isso realmente vai acontecer? Quais eram os problemas reais?”, perguntou Oscar, 50, gerente de projetos.

Um comentário de Liz, 52, um trabalhador de armazém de varejo, captura o sentimento de vários participantes: “Eles deveriam estar desmontando os argumentos [do Wells Fargo]. Eles deveriam ir atrás deles como Garganta Profunda em Watergate.

Para amenizar este problema, os autores sugerem que as organizações de notícia forneçam mais contexto nas histórias e vincule-as à cobertura anterior; e coloque as informações principais antecipadamente ou em um box dentro da história.

2. Explique terminologias e processos

Os participantes queriam que os repórteres traduzissem os jargões e explicassem com mais detalhes os procedimentos mencionados na matéria.

Depois de ler a história sobre o acidente, os participantes queriam saber por que o motorista não foi preso, por exemplo. E também sentiram falta de mais explicações sobre os procedimentos policiais.

Claire, 49, advogada, levantou uma preocupação sobre a necessidade de explicar o jargão depois de ler a matéria sobre o Wells Fargo. “O parágrafo fala sobre uma ‘batida regulatória’ (regulatory knock). Acho que é um termo interno, não é uma palavra, não é um termo que eu conheça. Então é um problema”, disse ela.

Assim, além de explicar os termos do setor, as redações devem considerar o detalhamento dos processos e procedimentos associados à matéria.

3. Por que não incluiu outras vozes?

Os participantes também questionavam frequentemente as decisões dos repórteres de incluir ou excluir vozes específicas. Às vezes achavam que as pessoas citadas na história pareciam irrelevantes, enquanto vozes mais críticas eram deixadas de fora.

Depois de ler a matéria sobre a pena de morte, Toni, 58 anos, questionou por que o jornal incluiu uma citação do Papa Francisco: “E então, no final, apareceu: ‘O Papa Francisco falou sobre o assunto’. Isso é relevante?”.

Já na história da fatalidade no ônibus, os participantes não entenderam por que as testemunhas oculares do acidente não foram citadas. “Dizem que o motorista do ônibus reagiu aos avisos dos passageiros, mas por que eles não conversaram com os passageiros?”, disse Trudy, 48.

Na história sobre o Wells Fargo, os leitores se perguntaram por que os clientes do banco não foram citados.

“Eu me pergunto agora qual é o relacionamento entre o repórter e o banco Wells Fargo – porque uma coisa que notei é que não há absolutamente nenhuma citação de alguém fora do sistema Wells Fargo. Não há citações de clientes”, disse Preston, 22 anos, estudante universitário.

Diante disso, os autores observam que é importante que as redações incluam uma variedade de vozes na história e, talvez mais importante, expliquem por que certas vozes foram escolhidas e por que outras foram deixadas de fora.

4. Isso é tendencioso?

De maneira mais geral, os participantes levantaram questões sobre o que consideravam um viés nas histórias. As perguntas estiveram centradas nas motivações dos jornalistas, na possível relação deles com o assunto da matéria e no ângulo. 

Por exemplo, alguns participantes acharam que a história sobre o Wells Fargo era unilateral porque se concentrava demais em como o banco havia melhorado. Da mesma forma, questionaram por que o repórter da pena de morte incluía certas informações, como o número anual de pessoas executadas e uma lista dos estados que executam mais prisioneiros. Essa informação fez Amy, 47, gerente de um escritório, sentir como se o repórter quisesse que o leitor se opusesse à pena de morte.

Para se proteger contra o viés percebido, as redações devem considerar fornecer uma declaração de independência, explicando seu relacionamento com as fontes da história. 

Comentários: perspectivas da audiência sobre sua natureza deliberativa e potencial 

A deliberação não é uma causa perdida, concluiu a pesquisa de Katherine Engelke, da Universidade de Munster, na Alemanha. A autora explica que, embora haja a percepção de que as seções de comentários geralmente refletem uma falta de deliberação ou mesmo elementos não deliberativos e que isso leva os usuários a não participar, avaliar comentários negativamente ou não atribuir valor a eles, as descobertas também mostram que os entrevistados reconheceram elementos deliberativos e que – quando presentes – são motivos de participação e avaliações positivas. 

A partir dessas descobertas, a autora propõe estratégias baseadas nos quatro elementos que caracterizam o discurso deliberativo.

  • Moderação: facilita as estratégias de inclusão do leitor e de deliberação nas seções de  comentários. Tomando como inspiração as cartas dos leitores no jornal impresso, que de alguma maneira refletem uma diversidade das opiniões do público, uma das estratégias propostas pela autora é transferir essa lógica para as seções de comentários, destacando diferentes visões refletidas nelas.
  • Envolvimento jornalístico: intimamente relacionado à moderação, as seções de comentários requerem mais envolvimento dos jornalistas. Se eles orientassem as discussões, introduzindo novos argumentos, evidências e encorajando a consideração de contra-argumentos, isso poderia melhorar a natureza deliberativa das seções de comentários. De acordo com a autora, as entrevistas mostram que o público pede um envolvimento mais ativo dos jornalistas e considera isso decisivo para a importância social dos comentários. 
  • Limites altos: os motivos específicos que os entrevistados deram para avaliações negativas indicam que restringir o anonimato, em particular, poderia neutralizar comentários irracionais, não-civis, infundados e subjetivos, aumentando a racionalidade e especialmente a deliberação. “À luz do efeito mais obscuro do anonimato, as redações poderiam se concentrar no registro e considerar a restrição seletiva do anonimato, por exemplo, para tópicos especialmente controversos”, afirma Engelke.
  • Envolvimento de especialistas: os resultados da pesquisa mostram que o público valoriza o envolvimento de especialistas porque isso melhora a racionalidade e fornece aos usuários não especialistas mais conhecimento e argumentos para seus próprios comentários. Nesse sentido, a autora destaca que os jornalistas poderiam selecionar e/ou incentivar certos especialistas a participar das seções de comentários.
  • Manter seções de comentários: esta parece ser a única maneira de permitir que todos – não apenas elites e grupos de interesse especiais – participem do discurso público e, assim, defender o universalismo que impulsiona as percepções de importância social. 

A autora destaca que os resultados mostram que o público reconhece e valoriza todos os quatro elementos de deliberação e percebe as seções de comentários – se elas são deliberativas – como socialmente importantes. “Consequentemente, nenhuma estratégia por si só será suficiente para atingir os ideais expressos pelo público, uma vez que nenhuma delas isoladamente aborda todos os quatro elementos deliberativos”, finaliza.