Apostas da Agência Pública ilustram tendência de aproximação do público e demonstram o esforço para mensurar o impacto jornalístico – entrevista com Natalia Viana

Apostas da Agência Pública ilustram tendência de aproximação do público e demonstram o esforço para mensurar o impacto jornalístico

Em entrevista ao Farol Jornalismo, a codiretora e cofundadora da Agência Pública, Natalia Viana, critica o fetiche pela inovação, lembra da importância do Facebook para a imprensa independente pós-2011, explica por que não acredita no paywall e enxerga o jornalismo sem fins lucrativos como uma tendência no Brasil.

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Como a inovação tem sido tratada nas organizações jornalísticas brasileiras? Esta é a pergunta que norteia uma série de entrevistas do Farol Jornalismo que pretende mapear as principais tendências nas redações do país em 2019. Inspirados pelo relatório do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, vamos atrás das oportunidades e desafios enfrentados pelo jornalismo ao longo do ano. A primeira entrevistada foi Paula Miraglia, CEO e cofundadora do Nexo Jornal. Clique aqui e confira.
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Insights da equipe do Farol Jornalismo: sempre ao final de cada entrevista, compartilharemos pequenas reflexões a respeito da discussão proposta.
Inovação é um dos “is” que integra o DNA da Agência Pública (independência e investigação são os outros dois). Nesta entrevista para o Farol Jornalismo, Natalia Viana, codiretora e cofundadora da Pública, explica que, embora estejam sempre “inventando moda”, há coisas que funcionam da maneira mais tradicional possível. “Por exemplo, jornalismo investigativo. Vale a pena experimentar, mas no que necessita de soluções. O fetiche da inovação tampouco é positivo”, afirma.

Fundada em 2011 por repórteres mulheres, a Pública tem muitos “primeiros” em sua história. Foi a primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil. A primeira a fazer fact-checking, em 2014 (Aos Fatos e Agência Lupa começaram a operar em 2015). Lançou o primeiro crowdfunding para um site de jornalismo no país. Acaba de lançar a décima edição de seu concurso de microbolsas, que é realizado desde 2012 e este ano se dedica à cobertura da Lava-Jato. E organiza o Festival 3i, primeiro na América Latina voltado para inovação no jornalismo. Sobre ele, Natalia revela uma novidade: a próxima edição, que será em setembro outubro deste ano, no Rio de Janeiro, contará com 13 organizações jornalísticas (até então eram oito).

Uma das razões desse pioneirismo da Pública parece ser a capacidade de análise sobre quando é necessário mudar a rota. Em 2018, com agências checadoras surgindo, tomaram a decisão de encerrar as atividades de fact-checking. E neste ano, deixaram de fazer crowdfunding para investir no modelo de membership, focado somente em jornalismo investigativo. “Queremos produzir uma reportagem investigativa por dia. Estamos ampliando a cobertura em Brasília, do governo Bolsonaro e suas consequências. E a cobertura no interior do Brasil, principalmente de conflitos e violência no campo”, afirma.

O recente lançamento do Programa de Aliados fez com que a Pública criasse uma editoria de Audiência. Até então, a prioridade era o relacionamento com o que eles chamam de republicadores, veículos jornalísticos que publicam as reportagens da agência gratuitamente. Em 2018, foram 700, no Brasil e no exterior. Agora, o objetivo é desenvolver cada vez mais uma comunicação direta com os leitores.

Defensora do jornalismo sem fins lucrativos, Natalia é enfática ao falar que não acredita no paywall – modelo que cobra pelo acesso às notícias e que tem grande adesão no jornalismo brasileiro. “Eu acho que o jornalismo de qualidade é um bem para a sociedade. Quanto mais gente recebê-lo, melhor. É como o serviço de saúde, você não vai impedir que as pessoas tenham acesso a ele”, explica.

Sobre as redes sociais, Natalia lembra da importância do Facebook para a imprensa independente, que surgiu a partir de 2011 no Brasil e no mundo. Mas faz a ressalva de que, naquela época, os algoritmos eram muito diferentes. Segundo ela, embora as redes sociais sejam importantes, “é necessário variar os métodos através dos quais você alcança o público, os formatos e os meios pelos quais o seu conteúdo se espalha”.

Confira a entrevista.

O que a Agência Pública entende por inovação? Há uma editoria voltada para isso?

Não, não existe uma editoria de inovação. Inovação é uma coisa que faz parte do nosso DNA. A Agência Pública foi a primeira agência de jornalismo investigativo no Brasil. Outras se inspiraram no trabalho da Pública tanto de jornalismo investigativo quanto de fact-checking, que também trouxemos para o Brasil. A gente inventa moda, a inovação faz muito parte do que a gente é. Trabalhamos com os três “is”: jornalismo investigativo, independente e inovador.
Inovação pela inovação é uma coisa que a gente não acredita. Vale a inovação quando há um problema que precisa ser resolvido
Este texto de Leonardo Foletto, que repercutimos na NFJ #159, questiona por que a inovação, majoritariamente, está relacionada a fins lucrativos? Escreveu Foletto: “Na comunicação, em especial, nos programas das raras disciplinas de empreendedorismo a bibliografias de ainda mais raros concursos para professores na área, inovação tem sido associada a assessorias de imprensa, agências de conteúdo ou ainda veículos caça-cliques e outros projetos que ignoram ou pouco pensam no desenvolvimento local, nas soluções livres e no pensamento crítico em relação à própria tecnologia – são projetos que, não raro, ficam mais pro lado do marketing digital do que do jornalismo que busca trazer informação de interesse público para uma dada comunidade.” E na NFJ #158, indicamos a lista do Ronaldo Lemos publicada no Brio com 10 livros indispensáveis para jornalistas que se interessam por tecnologia e inovação.
A inovação está então nos processos e produtos que vocês desenvolvem?

Buscamos inovar constantemente. Mas inovação pela inovação é uma coisa que a gente não acredita. Vale a inovação quando há um problema que precisa ser resolvido. Há muitas coisas que funcionam da maneira mais tradicional possível. Por exemplo, jornalismo investigativo. Qualquer site que faz jornalismo investigativo sabe que alguns parâmetros e padrões usados há décadas funcionam muito bem: uma boa reportagem usando as velhas técnicas de buscar as fontes, conversar com as pessoas pessoalmente, levar o seu tempo para resultar a quantidade necessária de materiais, cruzar fontes e dados etc. O fetiche da inovação tampouco é positivo. Vale a pena experimentar, vale a pena inovar, mas no que necessita de soluções.
Quantos profissionais trabalham na Pública atualmente? Existe previsão de crescimento da equipe?

Existe, a Pública está crescendo desde a sua fundação. Hoje somos cerca de 20, vamos crescer e continuaremos crescendo. Temos pessoas trabalhando na nossa redação em São Paulo, na Casa Pública no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em Brasília.
Qual é o grande passo que a Pública pretende dar em 2019?

No ano passado, publicamos um editorial anunciando que a Agência Pública está cada vez mais focando só em jornalismo investigativo. Foi quando fechamos nossa equipe que fazia fact-checking. Nós trouxemos o fact-checking para o Brasil junto com a Cristina Tardáguila [Agência Lupa], que, na época, trabalhava em O Globo. Lançamos nossos projetos quase simultaneamente. Fizemos fact-checking desde 2014 até o ano passado. Então percebemos que o fact-checking se tornou mais um gênero do jornalismo, se espalhou de tal maneira que não era mais necessário a Pública fazer. Entendemos que nosso papel é mesmo inovar, é fazer o que não está sendo feito. A mesma coisa com o crowdfunding. Em 2013 fizemos o primeiro crowdfunding para um site de jornalismo no Brasil. Foram três edições, e, neste ano, resolvemos deixar de fazer e passar para o modelo de membership, o Aliados, com doações mensais. Essa é uma das frentes que estamos abrindo. Estamos também focando em só produzir jornalismo investigativo, queremos produzir uma reportagem investigativa por dia. Estamos ampliando a cobertura em Brasília, do governo Bolsonaro e suas consequências. E a cobertura no interior do Brasil, principalmente de conflitos e violência no campo.
Na NFJ #166 falamos sobre o sucesso do De Correspondent, veículo jornalístico holandês que é referência no modelo de membership. Além das doações de leitores, as receitas incluem venda de livros, palestras de jornalistas, organização de eventos e campanhas direcionadas.

Na edição 229, abordamos um estudo realizado pelo Membership Puzzle Project. O documento é o resultado de uma pesquisa de seis meses que perguntou para dezenas de pessoas envolvidas com tipos de membership diferentes o que elas tinham para dizer sobre três pontos chave para o sucesso de um empreendimento de tal natureza: motivação, participação e escala.
Capa do estudo "What media can learn from others members-driven movements"
A Pública é uma organização sem fins lucrativos. Você poderia explicar um pouco esse modelo, que não é comum no Brasil?

A Pública foi o primeiro site de jornalismo investigativo sem fins lucrativos no Brasil – hoje em dia já existem outros. É um conceito que a gente trouxe para o Brasil há oito anos. Aqui a indústria ainda é muito dominada pelos veículos comerciais, mas o jornalismo pode ser feito de várias maneiras. Tem o jornalismo público, por exemplo, que é financiado pelo governo, que infelizmente no Brasil é muito fraco. Houve uma tentativa durante o governo Lula de ampliar, mas hoje está em decadência. Você tem o jornalismo comercial, que precisa de anúncios, de receitas do público para se manter, e precisa ter lucro. E você tem o jornalismo sem fins lucrativos, que é principalmente para o que é de interesse público. E por que eu tô falando isso? Porque faz parte também do nosso modelo explicar para as pessoas que o jornalismo é essencial para o funcionamento da sociedade. Hoje temos um governo que ataca o jornalista e o jornalismo como se fossem um grande mal. A sociedade não consegue ter uma democracia saudável sem jornalismo, sem imprensa livre, saudável, com uma variedade de atores e de modelos de financiamento. É uma novidade, mas que hoje em dia já está se consolidando. Eu acho que o jornalismo sem fins lucrativos no Brasil é uma tendência.
Em seu site, na seção “Transparência”, a Agência Pública detalha de onde vêm os recursos que a sustentam: doações de fundações privadas nacionais e internacionais; patrocínio a projetos e eventos; editais; crowdfunding e financiamento dos leitores. É possível também ver de que forma os recursos foram gastos. No Mapa do Jornalismo Independente criado pela Pública (e alimentado também pelos leitores), foram contabilizadas 47 organizações sem fins lucrativos no Brasil. No 14º Congresso da Abraji, realizado no fim do mês de junho de 2019, Rosental Camon Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, destacou as potencialidades do modelo de negócio sem fins de lucro a partir da experiência norte-americana. Leia mais aqui.
Desde o início a Agência Pública optou por não utilizar o paywall. Por quê?

Não acreditamos em paywall. Eu não acredito, eu acho que o jornalismo de qualidade é um bem para a sociedade. Quanto mais gente recebê-lo, melhor. É como o serviço de saúde, você não vai impedir que as pessoas tenham acesso a ele. Pelo contrário, a Pública funciona na lógica exatamente oposta à do paywall. Funcionamos como uma agência justamente para que o nosso conteúdo investigativo seja republicado por outros veículos. Dedicamos um profissional e uma expertise durante bastante tempo pra conseguir publicar uma reportagem. E essa reportagem é republicada gratuitamente por vários outros sites. Para você ter uma ideia: no ano passado, 700 diferentes veículos do Brasil e do exterior republicaram o nosso conteúdo. O paywall é o leitor pagando por um produto, a gente não acredita que o jornalismo é um produto, mas sim um serviço público.
Uma das principais conclusões do Digital News Report 2019 é que houve apenas um pequeno aumento no número de pessoas que pagam por qualquer notícia online. No entanto, o crescimento de assinantes de publicações como New York Times, Financial Times e Mediapart, bem como o sucesso de modelos alternativos de membership como o do The Guardian, demonstram que receitas vindas de leitores são uma alternativa à publicidade digital, aposta da maioria das organizações de mídia.
O Farol Jornalismo publicou uma análise sobre o Digital News Report 2019. O conteúdo está disponível aqui no site para nossos apoiadores R$+15. Clique aqui apoiar o Farol Jornalismo.
Capa do Digital News Report 2019
Hoje a operação da Pública é sustentável financeiramente?

Eu tenho muitas questões com esse termo sustentável. A Pública nunca teve dívidas e nunca terá, da forma como administramos ela. Como qualquer operação que seja comercial ou não comercial, há um financiamento que dura por um tempo e depois você precisa captar mais. Tanto para um jornal que vende anúncio quanto para uma organização que faz campanha de fundraising [captação de recursos].

Neste momento, estamos apostando muito no apoio dos leitores para ajudar a ampliar e criar um colchão para nosso financiamento ser mais sustentável e mais diversificado, ou seja, com pequenas doações e uma variedade maior de pessoas. Por isso resolvemos fazer um apoio bem baixo, a partir de 10 reais por mês. A lógica por trás disso é convencer as pessoas de que elas têm que ajudar o jornalismo em que acreditam, aquele que faz diferença na sociedade.

A cultura de doação no Brasil é ainda pequena, mas está crescendo, são pessoas que já doam para o Greenpeace, para a Anistia… Queremos convencer quem não doa: o estudante, o jornalista, a pessoa que lê sempre. Dez reais por mês não pesa no bolso e você cria um ciclo virtuoso no qual é possível manter o mercado do jornalismo com o apoio das pessoas. É exatamente o oposto da lógica do paywall, porque as pessoas estão pagando para que a notícia se espalhe. Temos uma newsletter só para os Aliados e eles ficam muito felizes quanto mais nosso conteúdo é republicado, quanto mais veículos utilizam nossas reportagens.
Natalia Viana, codiretora e cofundadora da Agência Pública.
Foto: José Cícero da Silva
Falando sobre isso, o Programa de Aliados é super recente. Ele está tendo bons resultados?

Está sim, dentro do que estávamos esperando. Já passamos da metade da primeira meta, que é conseguir R$ 20 mil por mês. É um trabalho constante e estamos fazendo um esforço grande.
Existe uma estratégia de comunicação específica para os outros veículos? Porque é como se vocês tivessem dois públicos: o leitor final e os veículos, certo?

Exatamente. Como a Pública é uma agência, nós temos uma equipe que cuida da republicação, faz parte da nossa estratégia, que integra o nosso modelo de negócio, obviamente. Temos uma equipe dedicada para esse relacionamento.
E como vocês pensam o relacionamento com o leitor final?

Até o lançamento dos Aliados, nós nunca tivemos uma relação muito direta com os leitores, além dos que nos apoiavam. Agora é uma grande mudança porque vamos ter essa relação direta. Como sempre fomos uma agência, privilegiamos o relacionamento com os republicadores. Agora temos um editor de Audiência, cujo papel é justamente manter esse contato direto com os nossos leitores. Os Aliados recebem uma comunicação especial, eles vão poder votar e eleger uma entrevista por mês, vão comentar no nosso site. Tudo isso é uma maneira de ampliarmos o relacionamento e a interatividade com os nossos leitores mais próximos.
Na NFJ #152, mostramos 7 exemplos de inovação no relacionamento entre organizações jornalística e leitores. Entre eles está um questionário publicado no site da ProPublica (que, como a Agência Pública, é um veículo sem fins lucrativos), que recebeu mais de 2.500 contribuições e mudou os rumos da série de reportagens sobre morte de mulheres no parto.
Recentemente publicamos uma análise do relatório The Audience in the Mind’s Eye: How Journalists Imagine Their Readers, de James Robinson, publicado no Tow Center for Digital Journalism. No estudo, Robinson verifica se as novas ferramentas da era digital estão influenciando a forma como os jornalistas pensam os leitores. Esta análise é exclusiva para os apoiadores R$+15 do Farol Jornalismo. Clique aqui para apoiar o nosso trabalho e garanta o acesso ao conteúdo.
Temos tipos de métricas que medem o que é repercussão e o que é impacto. Repercussão é quando repercute na rede, em outras matérias. Impacto é quando há ações que são tomadas com base em nossos conteúdos, utilizando-os ou inspirando-se neles.
Quais são os principais indicadores de sucesso para a Pública? Como vocês medem o impacto do trabalho?

A nossa coordenadora de Comunicação, Marina Dias, tem diferentes métricas. Medimos basicamente duas coisas: as republicações e o impacto no site, isso em termos de número e alcance nas redes sociais. Temos tipos de métricas que medem o que é repercussão e o que é impacto. Repercussão é quando repercute na rede, em outras matérias. Impacto é quando há ações que são tomadas com base em nossos conteúdos, utilizando-os ou inspirando-se neles. Eu tenho um exemplo de hoje mesmo [dia 23 de maio]. Fizemos uma reportagem sobre o sumiço de abelhas, que repercutiu bastante. Conseguimos dados de associações de apicultores, contabilizando que meio bilhão de abelhas desapareceram em três meses desde o final do ano passado. Em Florianópolis, acabou de ser aprovada uma lei municipal que estabelece meios de proteção e conservação das abelhas nativas, e a lei cita a nossa reportagem como embasamento. Isso é um exemplo claro de impacto.
Ao falar sobre o impacto do jornalismo de dados, o professor Paul Bradshaw afirma que alcance e engajamento são as métricas de impacto quantitativas mais utilizadas pela indústria jornalística. Bradshaw enfatiza que, se o jornalismo tradicional era criticado por tentar impressionar seus pares, “pelo menos se espera que o jornalismo moderno prove que ele pode se conectar com seu público, e quando uma história que “toca um nervo” (hoje falamos “histórias que viralizam”) pode nos dizer algo sobre esse público também”. E embora considere essas métricas importantes e úteis para a rotina de trabalho, o professor afirma que queremos fazer mais – “queremos reportar histórias que resultam em mudança real”. Leia sobre isso na NFJ #194.
Os podcasts têm sido objeto de crescente investimento por parte das organizações jornalísticas. O “Histórias que ninguém te conta” tem tido bom retorno? Como ele foi planejado?

Sim, as pessoas estão gostando bastante. Ele é diferente porque é um podcast na rua, as nossas repórteres andam no porto e misturam isso com entrevistas. O tipo de podcast que é feito no Brasil ainda é muito só falado, o nosso é um pouco mais colorido, tem uma paisagem sonora mais rica e aprofunda determinados temas. O “Histórias que ninguém te conta” aborda a relação de temas como ditadura, samba e corrupção e o centro do Rio de Janeiro, onde foi a fundação do Brasil como o conhecemos. Nós já fizemos outros podcasts, mas esse é o primeiro como uma série planejada. Uma das metas do nosso programa de Aliados é, inclusive, ter um podcast quinzenal. Se o público gostar e quiser investir, nós assim faremos. E como a gente só trabalha com jornalismo investigativo, o nosso podcast não será de análise do noticiário, mas investigativo.
Uma das seções do site é a de Dados, com reportagens feitas a partir de levantamento e cruzamento de números e estatísticas. Essa é uma área-chave para vocês, dentro do jornalismo investigativo?

Sim, é uma área bastante chave, na qual temos investido bastante, principalmente depois do final do fact-checking. Temos um profissional maravilhoso, o Bruno Fonseca. Dados é importante, mas, para nós, é também fundamental o bom e velho jornalismo investigativo, em que você descobre uma pista e vai atrás dela até encontrar uma grande história.
Uma discussão que tem acontecido no meio jornalístico é sobre a dependência que os veículos têm das plataformas de terceiros como o Facebook e as redes sociais de uma maneira geral. Como você vê isso? A Pública tem presença em várias redes, mas o quanto elas são importantes dentro da estratégia?

Eu vou dizer uma coisa: as redes sociais, principalmente o Facebook, foram muito importantes para a imprensa independente que surgiu a partir de 2011, não só no Brasil, mas no mundo. Se não fosse uma plataforma como o Facebook não teríamos chegado até onde chegamos. No entanto, naquela época, os algoritmos eram muito diferentes. Desde 2013 eles foram reduzindo cada vez mais o alcance das páginas e a tendência, pelo visto, é continuar. Então, embora elas sejam sim essenciais, é também necessário variar os métodos através dos quais você alcança o público, os formatos e os meios pelos quais o seu conteúdo se espalha. Para nós, não há tanto problema porque somos uma agência. É mais ou menos semelhante se estamos no Facebook, no Spotify, na Folha de S. Paulo ou no UOL. É claro que essas variações dos algoritmos nos impactam, como no caso do Facebook, que é a maior rede social do Brasil e do mundo. Mas não somos dependentes de nenhuma delas exclusivamente. Nós sempre buscamos, até como modelo de negócio, ter uma variedade grande de outlets, de locais onde nossos conteúdos chegam às pessoas.
O Facebook teve grande importância nas manifestações de junho de 2013 no Brasil. Nesta entrevista para a revista IHU Online em 2014, a professora Ivana Bentes afirmou que “as redes sociais, com sua miríade de singularidades e processos de subjetivação, rompem com a lógica da reprodução através da informação e da comunicação que neutraliza e domestica os acontecimentos. Essa proliferação e disseminação pós-mídias de massa já está acontecendo e criando uma nova ecologia midialivrista, uma quantidade muito de grande de coletivos, redes, grupos e também perfis”.
As redes sociais, principalmente o Facebook, foram muito importantes para a imprensa independente que surgiu a partir de 2011, não só no Brasil, mas no mundo. Se não fosse uma plataforma como o Facebook não teríamos chegado até onde chegamos.
As newsletters têm sido utilizadas de maneira estratégica pelos veículos para fidelizar leitores e entregar a eles uma informação empacotada e organizada. Quantas newsletters a Pública tem?

Temos duas newsletters, uma é apenas para quem é Aliado, a outra é uma newsletter aberta, enviada toda sexta-feira, com um pequeno comentário. A Pública não publica opinião e nem análise, só publica reportagens, mas nessa newsletter de sexta-feira a Marina Amaral, nossa outra diretora, faz um comentário sobre a semana. É o nosso único espaço de comentário e análise. E na dos Aliados trazemos textos, crônicas – que é um gênero que a gente não faz muito no nosso dia a dia – textos em primeira pessoa, impressões, making of de reportagens, etc.
A Inteligência Artificial tem entrado nas redações por meio de notícias automatizadas e de chatbots, por exemplo. A Pública criou agora um robô que tuita sempre que o governo libera um registro de agrotóxico. Como foi construída essa ideia?

O Robotox nasceu dentro de uma cobertura sobre agrotóxicos que estamos fazendo em parceria com a Repórter Brasil desde novembro do ano passado. Ele é um desses exemplos em que a invenção vem por conta de uma necessidade. Nós já líamos todo o Diário Oficial da União, então eu conversei com Babak Fakhamzadeh, nosso desenvolvedor, e propus: será que a gente não conseguiria automatizar essa leitura? Ele aceitou o desafio, desenvolveu um método, o Robotox passou por dois meses de testes e deu certo. Está ativo e dando conta do recado. Eu fiz uma pesquisa sobre robôs e jornalismo, não são muitos os robôs de Twitter que existem no Brasil. Temos dois exemplos interessantes, que é a Rose, da Operação Serenata de Amor, e a Fátima, do Aos Fatos. O Robotox é o terceiro. Esse tipo de coisa, ou seja, uma busca em sites sobre um determinado assunto, dá para automatizar. Ajuda muito, e não só a gente. Como estamos cobrindo agrotóxicos vemos que tem muitas pessoas que se interessam por esse assunto, que pesquisam na Academia, que são ativistas contra agrotóxicos, é um leque muito grande de pessoas que se interessam pelo assunto. Você ter um resultado mecanizado preciso, inquestionável, de uma fonte oficial, só ajuda.
Ninguém duvida do potencial disruptivo da inteligência artificial aplicada ao jornalismo. Mas na NFJ #234 pontuamos, a partir de um estudo da London School of Economics, que explorar o presente e o futuro de aplicações de IA também estimula a refletir sobre questões mais fundamentais. Qual é o nosso negócio? O que o nosso jornalismo está tentando alcançar? Em outras palavras, enquanto nós discutimos como deve ser uma estratégia de IA, percebemos que antes de delineá-la, primeiro deveríamos ter certeza de qual é a nossa estratégia editorial.
A Agência Pública é uma das organizadoras do Festival 3i, que é voltado para a inovação no jornalismo. Quais são os planos para 2019?

Este é o terceiro ano do evento. Em 2017 o Festival 3i foi lançado no Rio de Janeiro como uma iniciativa de oito organizações de jornalismo nativas digitais. No ano passado, em parceria com o Farol Jornalismo, tivemos três edições regionais. A ideia é fomentar a inovação, o empreendedorismo e as novas iniciativas no Brasil inteiro. Então fomos para Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife e neste ano voltamos ao Rio para uma edição nacional em setembro outubro. E a grande novidade é que, ao invés de sermos oito organizações, seremos treze, vamos praticamente dobrar de tamanho. Vamos aumentar o festival, vai ter um dia a mais e em breve vamos anunciar quais são as novas organizações. É um festival justamente para discutir a inovação, o jornalismo nativo digital e o futuro do jornalismo. Olhando bem para frente, pensando em tudo o que é possível fazer, tudo o que é possível criar e tudo o que é possível enfrentar, e não discutindo questões da indústria tradicional, etc. É um festival que olha para o futuro. E é o único na América Latina voltado para inovação no jornalismo.
O Robotox nasceu dentro de uma cobertura sobre agrotóxicos que estamos fazendo em parceria com a Repórter Brasil desde novembro do ano passado. Ele é um desses exemplos em que a invenção vem por conta de uma necessidade.
A equipe da Agência Pública. Foto: arquivo pessoal
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Embora receba recursos de fundações, a Agência Pública está apostando no modelo de membership, seguindo tendência mundial. A criação de um senso de comunidade em torno dos Aliados inclui exclusividade e recebimento de conteúdos extras, o que também observamos em outras organizações que estão tendo sucesso com este modelo.

As métricas de impacto são essenciais na estratégia de uma agência sem fins lucrativos como a Pública. E eles mostram estar cientes disso quando separam repercussão de impacto.

Por ser uma agência, é interessante perceber que os outros veículos jornalísticos são também canais de circulação do conteúdo da Pública, tanto quanto as redes sociais. Isso muda a estratégia e reduz a dependência com relação às plataformas.

O posicionamento contrário ao paywall destoa da grande maioria da imprensa brasileira, que adotou esse modelo como principal fonte de receita no meio digital. E o argumento é pertinente: jornalismo é serviço público e não se deve impedir as pessoas de ter acesso a ele.
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