A professora da graduação e do mestrado da FIAM-FAAM e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT-ECA/USP) é a primeira entrevistada desta seção da newsletter, que vai trazer acadêmicos de Jornalismo do Brasil e do exterior para debater ensino e pesquisa. Meu bate-papo com Cláudia foi por Skype, na tarde do último dia 8 de abril. Jornalista com mais de 20 anos de experiência no mercado, ela tem mestrado e doutorado pela USP, sempre estudando o jornalismo a partir do perfil dos jornalistas e as mudanças no mundo do trabalho. Atualmente, Nonato é também Editora Executiva da revista Comunicação & Educação (USP) e Diretora Administrativa da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor).

Como foi seu início no jornalismo?

Comecei na revista Afinal, onde trabalhei com Cultura. Depois fui para a mesma área no Jornal da Tarde. Fiz freelas para revistas da Editora Abril e depois continuei na área cultural do Diário Popular. Então fui chamada para criar o jornal do Banco Safra, naquela época os house organs eram novidade inclusive pra mim, porque nunca tinha trabalhado com comunicação corporativa. Foi nessa época que os computadores começaram a entrar nas redações. Fiquei no banco durante 15 anos e nesse tempo fiz uma pós lato sensu na USP. Em 2009 voltei para a universidade para fazer mestrado e resolvi sair do mercado só para estudar.

O que te levou a tomar essa decisão?

A banca de qualificação (risos). Até então eu não tinha definido meu objeto, então quando vi que teria que fazer etapas quantitativa, qualitativa e análise em um ano, aí desisti. Mas também eu acho que é um caminho natural, principalmente quando você ingressa no doutorado. As demandas mudam, o olhar muda. E do ponto de vista do jornalismo, com 40 anos você já é velho para a profissão, as empresas não te contratam mais. E hoje em dia isso não é nem só para o jornalismo, é para tudo.

O que você diria para o jornalista que está ingressando agora na carreira acadêmica?

A gente tem bons alunos que fazem iniciação científica e já querem emendar para fazer mestrado. Mas sempre digo para meus alunos que é importante ter uma experiência de trabalho antes, um tempo de experiência. Eu falo ‘vão trabalhar um pouco no mercado, sintam como é e depois voltem’. O principal é você ter uma experiência de vida, profissional, para depois ter a maturidade suficiente para entrar na carreira acadêmica.

E essa experiência no mercado acaba sendo boa para a docência também…

Sim, ela foi fundamental inclusive para o tema do meu mestrado, que foi sobre a migração do impresso para o digital. Eu passei por isso, então a minha experiência foi muito importante. E também em sala de aula, pois eu dou exemplos, falo de cargos que não existem mais, de como o jornalismo era feito e como é feito agora. E os alunos sentem isso, quando a pessoa tem experiência e quando não tem.

O que você acha da proximidade entre academia e mercado, das pesquisas mais aplicadas, que olham diretamente para o mercado?

Eu sou um pouco suspeita porque o nosso mestrado é um mestrado profissional de jornalismo, então a gente tem essa aplicabilidade, tem que ter essa relação do acadêmico com o profissional. Eu acho que é importante trazer esses estudos para aplicação na nossa realidade, mas tem que tomar cuidado para que o mercado não acabe influenciando e dominando as pesquisas – sob encomenda ou para custear alguma coisa.

Sua pesquisa atual é sobre o perfil dos jornalistas das periferias de São Paulo. Em que fase está e o que você já descobriu?

Estou numa fase final, de análise das entrevistas, depois de uma etapa quantitativa. Tive alguns problemas com esses grupos, sempre discuto isso nos congressos e é interessante porque percebo que outras pessoas têm problemas semelhantes. As pessoas se veem como bichos no zoológico, têm uma relação conturbada com a academia, então eu achava que teria um retorno muito maior na fase quantitativa, mas tive dificuldades. Com relação ao perfil, são jovens, bolsistas do período dos governos Lula e Dilma (Prouni e Fies), são os primeiros a se formar em suas famílias, filhos de migrantes nordestinos. É interessante porque, de certa forma, são pessoas já privilegiadas dentro da periferia, filhos de professores, de metalúrgicos. Com relação aos arranjos, acaba se repetindo o que acontece nas redações: sempre há uma elite, não só financeira, mas pessoas que dominam aquele ambiente.

E como esses coletivos surgiram?

É interessante porque muitos desses grupos nascem a partir de trabalhos de conclusão de curso, a maioria da Universidade de Santo Amaro (Unisa), que fica na zona sul de São Paulo. A grande dúvida do nosso trabalho é se essas pessoas fizeram esses grupos por sentirem uma necessidade de comunicação a partir das periferias ou se é porque não tinham emprego e foi uma maneira de conseguirem se manter economicamente como jornalistas. A gente acha que é um pouco dos dois. Eles acabam reproduzindo um pouco o discurso da grande mídia e do que ela faz, apesar de criticar como a imprensa aborda as periferias.

Há algum deles que se destaca mais em abrangência ou em audiência?

A questão da audiência é uma deficiência que eu vejo por parte deles, não há estudos sobre o público, eles não sabem. Como os grupos também formam jovens para trabalhar com jornalismo, então acaba sendo esse o público. Eu tenho a sensação, por exemplo, de que o público mais velho não conhece, não tem acesso. Com relação à abrangência existe a Rede Jornalistas das Periferias, que tem 13 grupos, a maioria da zona sul de São Paulo, poucos da zona leste e um só da zona norte. Eles sempre falam que é uma organização horizontal, que não tem liderança, que trabalham em grupos, então não tem um que se destaque. Eles têm maneiras diferentes de trabalhar. Alguns investem mais na formação de jovens, outros mais na narrativa das periferias, outros em jornalismo sobre e para as periferias. O que têm em comum é que não lidam com assuntos como violência, porque eles e suas famílias estão ali naquele território. Outro grande problema é a dificuldade de se sustentar – aliás, dentro da pesquisa do CPCT esse é o maior problema de todos. Até agora eles tiveram muito apoio dos editais dos governos Lula e Dilma, tem um edital voltado para as periferias, além do apoio das fundações internacionais, como Ford e Alana. Outra questão é que eles não têm sede, as entrevistas que iz de 2017 para cá foram na biblioteca do bairro, no centro cultural, na padaria.

Estamos vivendo um período difícil para a Ciência no Brasil. Como você avalia as projeções para a pesquisa em jornalismo?

A área de Humanas nunca foi privilegiada pelo financiamento de pesquisas e agora então, com todo esse discurso voltado para as ideologias, o incentivo, o financiamento e o apoio serão bem escassos. Vai ser um período complicado que vamos atravessar, mas não podemos desistir, temos que seguir pelas bordas. Até porque é um momento também em que os apoios internacionais voltam porque você começa a falar de censura, de controle e aí os olhares começam a se voltar para o nosso país. Ao mesmo tempo que se fecha o apoio de um lado, por outro começam a surgir novas pesquisas voltadas para gênero, para negros, então a gente não pode desistir. Eu comecei a dar aula em um curso lato sensu do Centro de Estudos Latino-Americanos da Comunicação, na USP, que trata de questões étnico-raciais e tem só professores negros. Neste curso estou vendo um interesse muito grande dessas pessoas, elas estão querendo ter uma base teórica para poder discutir de igual pra igual, e não ficarem só no achismo ou no que leram nas redes sociais. Então as pessoas estão começando a se defender e isso é importante.

E com relação aos professores nas universidades?

As universidades particulares estão passando por um processo bem complicado, estão enxugando a grade, consequentemente os professores estão sendo demitidos e o ensino à distância está tomando conta. O governo liberou que as universidades possam dar 40% de EAD, o que corresponde a aulas três vezes por semana presenciais e duas à distância. E ainda tem o avanço do capital estrangeiro. Há poucas vagas, estão pagando pouco e a Reforma do Trabalho vai atingir diretamente os professores. Aqui em São Paulo o sindicato está lutando para que não sejam terceirizados, mas acho que é inevitável. E também tem outra questão: quando as particulares vão passar por recredenciamento contratam os doutores e depois que passa demitem para ficar só com os mestres, para não ter que pagar mais. Em relação às universidades públicas, a gente já está vendo uma falta de apoio, corte de verbas, não abrem concursos. Mas na época que tiraram a obrigatoriedade do diploma de jornalismo a gente achou que as faculdades iriam acabar e isso não aconteceu, nem a procura. Então nós vamos resistir.